testeDo tribunal para a ficção: as emocionantes histórias de separações e reecontros de Andrea Pachá

Andréa Pachá tem um talento singular para transformar vivências no tribunal em ficção. Antes de se tornar juíza e escritora, ela participou de um grupo de dramaturgia e trabalhou com cinema e teatro. Já foi membro do Conselho Nacional de Justiça, vice-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, recebeu o Diploma Bertha Lutz e também promove campanhas para simplificar a linguagem utilizada nos processos – o “juridiquês”.

Famosa por suas colunas publicadas em alguns dos jornais de maior circulação do país, Pachá encanta os leitores com textos delicados, emocionantes e cheios de personagens com os quais todos se identificam.

 A vida não é justa, seu livro de estreia, foi publicado originalmente em 2012. A ideia da obra surgiu a partir das suas observações à frente de uma Vara de Família e da necessidade de compreender o fenômeno que levava dois amantes apaixonados ao limite do ódio e da intolerância. Composto por crônicas curiosas, divertidas e comoventes sobre separações, reencontros, desencontros, guarda dos filhos, partilha de bens, paternidade e amor, o livro também deu origem à série Segredos de Justiça, do Fantástico.

Agora ele ganha uma nova edição pela Intrínseca, que ano passado lançou Velhos são os outros, livro inspirado nas experiências de Pachá à frente de uma Vara de Sucessões.

Leia um trecho:

A vida não é justa

– É só isso?

– Só isso sim, Aline. Se vocês quiserem esperar um pouco, podem aguardar no corredor para levar o documento de averbação do divórcio.

Mas Aline não se levantava. André também parecia não ter pressa para deixar a sala.

– Surpresa com a rapidez? – perguntei, tentando esvaziar o espaço para a pauta que começara há pouco.

Ela não estava surpresa. Não conseguia encontrar a palavra que definisse o que sentia naquele instante. Na impossibilidade de sintetizar com um substantivo abstrato, precisava de longas orações coordenadas, subordinadas às lembranças que brotavam sem ordem cronológica compreensível.

– É isso, então, o que acontece no final? – ela repetia, olhando para André, como se ele tivesse a resposta.

Aline e André não tinham uma história dramática para contar. Nem sequer precisavam de um acerto de contas. Não se olhavam com ressentimento, tampouco deixavam transparecer que ainda nutriam alguma expectativa para retomar a vida a dois.

Viveram juntos 22 anos. Conheceram-se do outro lado do oceano. Ela, em um curso de especialização; ele, de mochila nas costas, em uma viagem ferroviária sem rota ou destino.

As coincidências e as afinidades eram a certeza de que um nasceu para viver ao lado do outro. Ele ancorou naquele porto seguro e decidiu esperar o fim do curso da moça. Não perderia o trem de volta ao seu lado.

Podia ser apenas mais um romance definitivo, daqueles que começam nas férias e terminam tão logo aterrissam na vida real. Mas não foi assim na história de Aline e André.

testeConfira as fotos do lançamento de “Velhos são os outros” no Rio de Janeiro

Confira a galeria de fotos do lançamento do livro Velhos são os outros, de Andréa Pachá, no dia 05 de novembro na Livraria Argumento no Leblon. O evento contou com a participação de Eduardo Moscovis, Dira Paes, Bianca Ramoneda e Pedro Luís, que realizaram a leitura de alguns trechos da obra. Crédito das imagens: Cristina Granato.

testeLançamentos de novembro

O ano está quase acabando mas ainda dá tempo de adicionar alguns livros à sua lista! Confira os lançamentos de novembro:

Breves respostas para grandes questões, de Stephen Hawking

O livro inédito de Stephen Hawking responde as perguntas que movem a humanidade, desde seus primórdios até os dias atuais, como a origem do universo, a existência de Deus e até a possibilidade de viajar no tempo. Os textos são resultado do trabalho de uma vida inteira de pesquisas que consagrou Hawking como um gênio da física moderna.

Com prefácio de Eddie Redmayne — que ganhou um Oscar por interpretar o cientista no cinema — e posfácio comovente de Lucy Hawking, sua filha, Breves respostas para grandes questões não é apenas a última mensagem de um grande gênio: é seu presente final para todos nós. Stephen Hawking também é autor de Uma breve história do tempo, O universo numa casca de noz, Buracos negros e Minha breve história.

O último livro escrito por Hawking chega às livrarias a partir do dia 8 de novembro.

Velhos são os outros, de Andréa Pachá

Inspirados em casos judiciais, Andréa Pachá transforma suas vivências no tribunal em um livro de crônicas sobre acasos do tempo, da memória e das relações familiares. A obra é recheada de personagens vívidos com desejos e motivações com os quais todos se identificam.

Conhecida também por A vida não é justa (2012) e Segredo de Justiça (2014), livros que deram origem à série Segredos de Justiça, do Fantástico, Andréa Pachá constrói histórias delicadas, bem-humoradas e emocionantes sobre a longevidade pela qual tantos de nós anseiam — aquela que trará consigo as alegrias, dores, descobertas e perdas que só quem já caminhou bastante pode experimentar.

Velhos são os outros chega às livrarias a partir de 1º de novembro. Leia um trecho.

Como mudar sua mente, de Michael Pollan

Nos anos 1940, quando o LSD foi descoberto, pesquisadores, cientistas e médicos acreditavam que a substância teria o potencial de revelar os mistérios do inconsciente e oferecer avanços no tratamento de doenças mentais. Poucas décadas depois, o LSD se popularizou como droga recreativa e as pesquisas com a substância foram suspensas.

Após se debruçar sobre a história social dos alimentos em suas obras anteriores (Cozinhar, O dilema do onívoro, Regras da comida e Em defesa da comida), o jornalista Michael Pollan parte em busca de uma compreensão aprofundada da relação entre a psique humana e as substâncias psicodélicas. Como mudar sua mente conta a história do renascimento das pesquisas com esses compostos depois de anos de coibição e esquecimento.

O livro chega às livrarias a partir do dia 9 de novembro.

Caixa de pássaros, de Josh Malerman

Lançado em 2015, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica original da Netflix que será liberada mundialmente no dia 21 de dezembro na plataforma de streaming. Com a estreia do filme se aproximando, adicionamos um adesivo à capa. Caixa de pássaros se passa 5 anos após um misterioso impulso violento dominar algumas pessoas, levando-as a suicidar-se. Malorie e seus dois filhos moram em uma casa isolada para fugir do mundo pós-apocalíptico, mas, após anos trancados, eles precisam enfrentar o mundo em que abrir os olhos pode ser letal. O livro já está disponível. Assista ao trailer:

 

testeConheça o novo livro da juíza e escritora Andréa Pachá

Depois de quase vinte anos à frente de uma Vara de Família, cuidando de casos de divórcios, pensão, guarda e convivência familiar, a juíza Andréa Pachá se viu diante de um novo desafio: assumir uma Vara de Sucessões, onde lidaria com julgamentos de inventários, testamentos e curatelas. É a partir das experiências dessas audiências que Pachá desenvolve seu novo livro Velhos são os outros.

Conhecida também por A vida não é justa (2012) e Segredo de Justiça (2014), livros que deram origem à série Segredos de Justiça, do Fantástico, Andréa Pachá tem um talento singular para transformar vivências no tribunal em ficção. Em seu primeiro livro lançado pela Intrínseca, ela narra histórias delicadas, bem-humoradas e emocionantes sobre a velhice. Velhos são os outros chega às livrarias a partir de 1º de novembro. Leia um trecho:

Velhos são os outros

Viver em uma sociedade que incensa a juventude e nega a doença, a infelicidade, a deterioração e até mesmo a morte não é exatamente a melhor maneira de assimilar a passagem do tempo e os impactos que ela produz. Não desejamos morrer jovens, naturalmente. No entanto, a maior longevidade possibilitada pela ciência nas últimas décadas tem introduzido conflitos complexos no dia a dia. Problemas que, na perspectiva da Justiça, vão desde o abandono material e afetivo de familiares até a disputa de curatela entre irmãos, passando pela escolha de tratamentos interventivos e pela liberdade para casar-se ou namorar. A excessiva judicialização da vida tem nos enredado em um fenômeno de infantilização emocional. A idealização de um juiz herói, capaz de estancar nosso desamparo, é na maior parte das vezes frustrada pela realidade.

Depois de quase duas décadas decidindo conflitos de divórcios, pensão, guarda e convivência familiar em uma Vara de Família, fui transferida para outro Juízo, responsável pelos julgamentos de inventários, testamentos e curatelas. Não foi uma mudança fácil. As mudanças nunca são. Mesmo aquelas que programamos, idealizamos. Aceitar transformações é um treino ao qual me dedico com relativo sucesso, mas como conviver com os problemas que chegam com a morte e o envelhecimento? Como representar uma juíza imparcial quando eu mesma experimento as angústias e os medos, cercada de afetos rumando para as curvas finais da vida?

A velhice, um futuro distante e improvável, insiste em se mostrar naquilo que tem de pior. São problemas decorrentes do abandono, do desamor, do esquecimento, que se transformam em processos e me assombram noite e dia. Aprendi cedo que somos capazes de nos resignar com a morte, porque há nela um princípio inegociável de igualdade. Morremos todos. Não há luta de classes, de gênero, de religião que se sobreponha a tal realidade. A velhice, no entanto, não é igual. Muito menos coroa algum princípio de justiça.

Nascemos e morremos sozinhos. Eis a inescapável condição humana que nos liberta e nos aprisiona. Com ou sem a nossa autorização ou desejo, o tempo age, o corpo gasta, os neurônios se desconectam — ainda que sem rugas aparentes, domadas pela tecnologia e pelas intervenções médicas e estéticas —, e caminhamos para o terreno desconhecido do fim. Um caminhar lento, às vezes imperceptível, mas que compreende de forma definitiva o princípio da igualdade que nos irmana e identifica.

O constante paradoxo com o qual me defronto implica garantir a autonomia dos velhos e, ao mesmo tempo, atentar para que, em razão de sua vulnerabilidade e carência, eles não sejam compelidos a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Embora envelheçamos desde o dia da concepção, não nos damos conta do processo natural e acabamos por rejeitá-lo, invisibilizando a velhice e associando-a à perda de capacidade, de vontade, de desejos. Ao fim dos projetos e sonhos. Quando comecei a trabalhar com processos relacionados ao envelhecimento e à morte, percebi não só quanto eu havia envelhecido, mas também quanto estava cercada de velhos por todos os lados. Familiares, amigos, ídolos, referências éticas e estéticas. Todos com mais de 70 anos. Meu olhar viciado continuava enxergando os outros com, no máximo, meio século de vida, tempo esse que eu mesma já vivi e ultrapassei.

Sem saber como constatar o tempo do envelhecimento e tentando compreendê-lo sob a lente da objetividade, durante um café da manhã, curiosa, perguntei à minha mãe:

— Quando é que você se percebeu velha?

Aos 77 anos, e surpresa com a questão, ela encerrou a conversa:

— Nunca! Eu ainda não sou velha!

Tentando amenizar a pergunta e fazer com que ela pudesse responder sem preconceito à minha inquietação, prossegui:

— Mas, mãe… Falo da velhice como idade, não como sentimento, e sim como um dado etário. A gente é criança e torce pra virar adolescente logo. Daí nos sentimos jovens, e em algum momento percebemos que somos adultos. Então vem a velhice.

— Andréa — ela ponderou —, queremos ser adolescentes para experimentar as novidades que a vida traz. Queremos amadurecer para ter autonomia, segurança, liberdade. Mas quem quer envelhecer? Depois que a velhice chega, o que vem?

A pergunta foi seguida de silêncio. Sem resposta, diante do desconhecido e sentindo certa melancolia, entendi que o tempo nos ignora. Deixa marcas e acúmulo de passado. É esse acervo que nos define como velhos.

Para a lei brasileira, idoso é quem tem mais de 60 anos. Nenhuma outra classificação etária é tão abrangente e tão desigual. Tanto que já promulgaram nova lei, estabelecendo que os mais velhos ainda, com mais de 80, devem ser atendidos com prioridade dentro da prioridade. Nenhuma norma muda a realidade, e a menos que se torne efetiva residirá apenas na prateleira das boas intenções.

Para diversas tribos e civilizações, a idade era sinônimo de experiência, poder, sabedoria. Na sociedade do capital e do consumo, o velho só será respeitado enquanto integrar o sistema de produção e gerar renda. Assim, na contemporaneidade, pressionados pela segregação, os mais velhos devem se recusar a envelhecer, adoecer e morrer.

Iluminar a velhice, de forma clara e corajosa, é fundamental. João Gilberto, em sussurro afinado, me ensinou, pela letra de Ary Barroso, que “a vida é uma escola, onde a gente precisa aprender a ciência de viver para não sofrer”. Norberto Bobbio, filósofo italiano, esclarece que “o acaso explica muito pouco, a fatalidade explica demais. Só a crença na vontade livre, se é que a liberdade de querer não é também uma ilusão, nos ajuda a acreditar que somos donos de nossa própria vida”.

Aos poucos, fui percebendo que aquela realidade de afetos, ódios, solidariedade, ressentimento, humor, perdas e aceitação que eu via durante as audiências envolvendo os idosos pouco ou nada diferia de tantas outras realidades que nos acompanham existência afora. Lentamente, e sem que eu percebesse, a angústia e a sensação de impotência que eu sentia foram cedendo espaço à escuta cuidadosa. Esqueci o medo e me vi, atenta, assimilando sentimentos, emoções e até projetos nascidos das vozes das inúmeras pessoas que passam pelas audiências que conduzo. Me vi, também, atenta às muitas outras velhices que, desprovidas de renda ou patrimônio, nem sequem chegam à Justiça.

Essas vozes de um passado anterior ao meu, e que de alguma forma me definem e me projetam, foram transformadas neste livro em histórias de ficção, em personagens imaginados e em depoimentos inventados que pacificaram minha alma e me fazem enxergar a velhice como um tempo potente, intenso e delicado.

Todos envelhecemos. E sempre haverá mais tempo adiante. Os que estão atrás não nos alcançarão, e nós não alcançaremos os que nos antecedem. Nessa estrada que não terminará enquanto existirmos, seguiremos, velhos, olhando para outros velhos e nos sentindo menos velhos. Depois da velhice vem mais vida. E mais vida. E mais vida.

Velhos são os outros. Até o fim.