testeComo sobreviver ao amor

 

Fonte Hajin Bae

Rabih e Kirsten se conhecem e logo se apaixonam. Eles se casam, têm filhos. A sociedade nos faz acreditar que esse é o fim da história, quando, na verdade, é apenas o começo. A maioria dos romances conta a trajetória do casal para ficar junto e termina com um lindo “e viveram felizes para sempre”. Raramente encontramos uma história de amor que retrate nossos relacionamentos como realmente são.

Em O curso do amor, o escritor e filósofo Alain de Botton lança mão da ficção para discutir, através da história de Rabih e Kirsten, as complexidades de um relacionamento amoroso duradouro. Ao acompanhar o percurso do casal, vivenciamos com eles o surgimento da paixão, os insights que nos chegam com a maturidade, e o que ocorre com nossos ideais românticos sob as pressões do dia a dia. Botton não se atém apenas ao despertar do amor, mas elabora como esse sentimento pode se manter vivo ao longo dos anos.

 

Os desafios da relação de Rabih e Kirsten são intercalados por comentários e anotações, o que resulta em uma narrativa ao mesmo tempo ficcional, filosófica e psicológica que nos ajuda a entender não só os personagens apresentados, mas também a nós mesmos. O resultado é uma experiência única, que faz com que o leitor se identifique com esses personagens e com suas histórias amorosas.

Espirituoso, perspicaz e profundamente comovente, O curso do amor é um guia e uma reflexão sobre os relacionamentos modernos. Um livro extremamente provocativo e verdadeiro para todos que acreditam no amor.

 

 

Leia um trecho do romance que chega às livrarias a partir de 10 de agosto:

O hotel fica num afloramento rochoso, meia hora a leste de Málaga. Foi projetado para receber famílias e inadvertidamente revela, sobretudo durante as refeições, os desafios de fazer parte de uma. Rabih Khan tem quinze anos e está de férias com o pai e a madrasta. O clima entre eles é pesado, e a conversa, hesitante. Já se passaram três anos desde a morte da mãe de Rabih. As refeições são servidas diariamente numa varanda com vista para a piscina. De vez em quando, a madrasta faz um comentário sobre a paella ou o vento que sopra forte do sul. Ela é de Gloucestershire e gosta de jardinagem.

 

Um casamento não começa com o pedido, nem no primeiro encontro. Começa muito antes, com o nascimento da ideia de amor, e, sendo mais exato, com o sonho de uma alma gêmea.

 

Rabih vê a garota pela primeira vez no tobogã da piscina. Ela é cerca de um ano mais nova que ele, com cabelos castanho-avermelhados bem curtos, como os de um garoto, pele morena e braços e pernas esbeltos. Usa blusa listrada, short azul e chinelos amarelo-limão. No punho direito, há uma fina pulseira de couro. Ela olha para Rabih, esboça um sorriso pouco entusiasmado e se ajeita na espreguiçadeira. Passa algumas horas observando o mar, pensativa, ouvindo seu walkman, e, de vez em quando, rói as unhas. Os pais estão próximos a ela, a mãe de um lado folheando um exemplar da revista Elle e o pai do outro, lendo um romance de Len Deighton em francês. Como Rabih vai descobrir depois no livro de registro de hóspedes, ela é de Clermont-Ferrand e se chama Alice Saure.

Ele nunca sentiu nada nem mesmo parecido. A sensação o domina completamente desde o início. Não tem nada a ver com palavras — que eles nunca vão trocar. É como se, de certa forma, sempre a tivesse conhecido, como se ela detivesse a resposta para sua existência e, principalmente, para uma zona de dor e confusão dentro dele. Nos dias seguintes, Rabih a observa pelo hotel a distância: no café da manhã, usando um vestido branco de bainha florida, pegando um iogurte e uma pera no bufê; na quadra de tênis, desculpando-se com o treinador por suas jogadas de fundo de quadra num inglês de sotaque bem marcado e com uma polidez comovente; e numa caminhada (aparentemente) solitária em volta do campo de golfe, fazendo uma pausa para contemplar cactos e hibiscos.

 

Pode surgir muito rapidamente essa certeza de que outro ser humano é sua alma gêmea. Nem é necessário falar com a pessoa; talvez nem sequer saibamos o nome dela. O raciocínio lógico não entra em jogo. O que importa, na verdade, é a intuição; uma sensação espontânea que parece mais precisa e digna de respeito por ignorar os processos normais do raciocínio.

 

A paixão se materializa em torno de uma série de elementos: um chinelo amarelo despreocupadamente pendendo do pé; uma edição de Sidarta, de Hermann Hesse, na toalha ao lado do protetor solar; sobrancelhas bem definidas; um jeito distraído de responder aos pais e uma maneira de pousar a bochecha na palma da mão enquanto leva à boca pequenas colheradas de musse de chocolate no jantar.

Instintivamente, Rabih deduz toda a sua personalidade a partir desses detalhes. Contemplando as pás de madeira do ventilador girando no teto do quarto, ele escreve na mente a história de sua vida ao lado dela. A garota será melancólica, mas do tipo que sabe se virar. Vai confiar nele e rir da hipocrisia das outras pessoas. Às vezes, poderá parecer ansiosa em relação a festas e à convivência com as demais meninas na escola, sintomas de uma personalidade sensível e profunda. Até esse momento, terá sido solitária e jamais terá confiado completamente em alguém. Os dois vão ficar sentados em sua cama, brincando de entrelaçar os dedos das mãos. Nem ela terá imaginado que seria possível uma ligação assim entre duas pessoas.

Então, certa manhã, sem aviso prévio, ela foi embora. Um casal holandês com dois meninos pequenos ocupa a mesa de Alice. A garota e os pais deixaram o hotel ao amanhecer para pegar o voo da Air France de volta para casa, explica o gerente.

O acontecimento é insignificante. Eles jamais voltarão a se ver. Rabih não conta a ninguém. Ela desconhece totalmente as intenções dele. Contudo, se a história tem início aqui — embora Rabih mude e amadureça muito ao longo dos anos — é porque sua compreensão de amor manterá por décadas a exata estrutura que assumiu pela primeira vez no hotel Casa Al Sur, no verão de seus quinze anos. Ele continuará acreditando na possibilidade de dois seres humanos se entenderem e sentirem empatia de forma rápida e incondicional, e na chance de um fim definitivo para a solidão.

Rabih vai vivenciar anseios tão bons quanto amargos por outras almas gêmeas perdidas, avistadas em ônibus, entre prateleiras de supermercados e nas salas de leitura de bibliotecas. Terá exatamente o mesmo sentimento aos vinte anos, durante um semestre de estudos em Manhattan, por uma mulher sentada à sua esquerda no metrô da linha C, em direção ao norte da ilha; aos vinte e cinco, no escritório de arquitetura em Berlim onde será estagiário; e aos vinte e nove, em um voo de Paris a Londres, depois de uma breve conversa sobre o canal da Mancha com uma mulher chamada Chloe: o sentimento de enfim ter deparado com uma parte de seu próprio ser perdida há muito tempo.

 

Para o romântico, há apenas um pequeno passo que separa ver um estranho de relance e formular uma conclusão majestosa e substancial: a de que a pessoa talvez possa representar uma resposta completa às questões implícitas à existência.
Essa intensidade pode parecer trivial, até cômica, mas tal respeito pelo instinto não é um planeta de menor importância na cosmologia dos relacionamentos. Ela é o sol, subjacente e central, em torno do qual orbitam os ideais contemporâneos de amor.
A fé romântica sempre deve ter existido, mas apenas nos últimos séculos vem sendo abordada para além de uma doença; só recentemente a busca por uma alma gêmea pôde alcançar o status de algo próximo ao objetivo de vida. Um idealismo que antes se voltava para deuses e espíritos foi redirecionado para figuras humanas — um gesto ostensivamente generoso, mas carregado de consequências hostis e instáveis, pois não é nada simples para qualquer ser humano honrar, pela vida inteira, perfeições que possa ter demonstrado para um observador de imaginação fértil, seja na rua, seja no trabalho, seja no assento ao seu lado no avião.

 

Rabih levará muitos anos e vai precisar de várias experiências amorosas para chegar a algumas conclusões diferentes, para reconhecer que exatamente aquilo que um dia ele considerou romântico — intuições silenciosas, anseios instantâneos, a crença em almas gêmeas — é o que o impede de aprender a fazer seus relacionamentos darem certo. Vai entender que o amor só dura quando não somos fiéis às suas sedutoras ambições iniciais e que, para ter um relacionamento duradouro, precisará abrir mão dos sentimentos que desde o início o levaram a amar. Precisará aprender que o amor é mais habilidade do que entusiasmo.

testeO livro, o filme, a peça

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Cena do filme Laços de Ternura (Fonte)

Nada melhor do que uma boa história. E Laços de ternura (Terms of endearment), livro de Larry McMutry ambientado no estado americano do Texas, com a clássica trama sobre o relacionamento entre mãe e filha, certamente venceu o teste do tempo. Lançada originalmente em 1975, a obra, que virou filme oito anos depois (com Shirley MacLaine, Jack Nicholson e Debra Winger), vencendo cinco Oscar, acaba de ser adaptada como peça de teatro em Nova York. Tive o prazer de vê-la semana passada.

Larry McMutry é um autor de grandes sucessos, entre eles O indomado (Hud, que virou filme com Paul Newman em 1963) e Os pistoleiros do Oeste (no original, Lonesome dove, ou Pomba solitária, adaptado para a TV com Robert Duvall em 1989), além de A última sessão de cinema (The last picture show, de 1971), um dos melhores filmes dos anos 1970.  Apesar de seus livros terem sempre sido adaptados para o cinema por terceiros, ele escreveu o roteiro de O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain), a partir de conto de Annie Proulx.

Tenho de ser sincero e dizer que não li Laços de ternura – a última edição que circulou no Brasil, ainda nos tempos do Círculo do Livro da Abril, é de meados dos anos 1980. Mas, graças à internet, acabei de comprar um exemplar bem antigo pela bagatela de sete reais. A ideia é colocá-lo na minha lista de leituras programadas para o fim do ano.

Para escrever este artigo revi o filme, que agora faz parte da minha coleção de DVDs. Lendo algumas resenhas que saíram à época do lançamento do livro, percebi que a trama original era ainda mais “novelesca” do que a do filme. Entre os itens eliminados estão casos de amor que não adicionavam nada à trama principal e diversos personagens secundários.

Se o filme, com suas duas horas e quinze minutos, já resumia muita coisa, a peça, que tem pouco mais de cem minutos, vai ainda mais direto ao essencial: Laços de ternura é uma história de amizade, amor, brigas e redenção. E o que importa é a dupla central: Aurora Greenway, uma viúva teimosa, voluntariosa e irredutível, e sua filha Emma, que só quer ter uma vida normal ao lado do marido e dos filhos. É justamente a parte “normal” da vida que Aurora não consegue aceitar.

Da tela para o palco, muita coisa foi eliminada: os vários “pretendentes” de Aurora, o amante de Emma (que agora é mencionado apenas de passagem), enquanto outros personagens perderam relevância, como Patsy, melhor amiga da filha. Ainda vitais para Laços de ternura são duas figuras masculinas: o marido de Emma, Flap (que no filme foi vivido por Jeff Daniels), e o astronauta aposentado Garrett (uma interpretação marcante de Jack Nicholson).

No fim das contas, o teatro acaba sendo o meio do ator. Emma, que no filme foi defendida com um pouco de exagero por Debra Winger, agora é interpretada pela novata Hannah Dunne – correta, mas pouco intensa. O grande personagem de Laços de ternura, no entanto, é Aurora. Na peça, quem assume o lugar de Shirley MacLaine é nada menos do que Molly Ringwald. Sim, a atriz que, quando jovenzinha, protagonizou Clube dos Cinco e A garota de rosa-shocking.

Aos 48 anos, Molly “encarna” Aurora de uma forma diferente — e, acreditem, mais eficaz — do que Shirley MacLaine. No filme, Aurora tem um início caricato, quase estridente, e se humaniza somente quando vive uma tragédia. Na peça, Molly busca outro registro: apesar de manter Aurora um pouco acima do tom, tem a sabedoria de interpretá-la com uma pitada de vulnerabilidade, como se toda a confiança que ela exibe fosse uma espécie de mecanismo de defesa.

Resta dizer que, como no filme, as cenas finais são de cortar o coração — e Molly, pegando fogo, entrega-se a cada uma delas. Entre os outros atores, destaque também para Jeb Brown, veterano da Broadway que traz alívio cômico como o ex-astronauta Garrett. Embora carismático, o ator às vezes parece estar quase incorporando Jack Nicholson como Garrett, e não o personagem em si.

Tendo saboreado o filme e a peça, mal posso esperar para que o livro chegue pelo correio. Quarenta anos depois, Laços de ternura se mantém relevante, pois trata de temas atemporais. Além disso, tem um elemento vital para o tipo de literatura que aprecio: preocupa-se sobretudo em emocionar para, posteriormente, fazer o leitor refletir.

 

testeEncontrei-me em seu olhar

O amor da mais linda mulher que existe é franzino, alto demais, de costas arqueadas, cdf de carteirinha, não sabe qual é a camiseta da moda, tem barba rala e nome de velho — quem, afinal, se chama Inácio hoje em dia? Ela poderia ter o homem que quisesse — rico, bonito e bem nascido —, mas não pôde evitar: era a mim que amava.

Eu esperei muito, tantas noites de medo e de perguntas, de dor pelas ligações nunca retornadas, louco para saber por onde ela andava. Aceitei ouvir frases frias de seus lábios nos momentos em que seu olhar, contraditoriamente, me chamava para perto. Aqueles olhos verdes. Esta noite, eu me daria a última chance de provar que estava certo.

Se contasse para alguém que tinha certeza, quase absoluta, de que Baby me amava, apesar de ter me rejeitado várias vezes, provavelmente seria chamado de doido e masoquista. Eu havia me encontrado naquele olhar. Era preciso ter a coragem de saber se tanto sentimento, em alguma hora, transbordaria. Se o trem desgovernado do amor sairia da estação.

Ou talvez estivesse apenas insistindo, havia anos, em uma mentira na qual gostava de acreditar. Um apaixonado dedicado às próprias alucinações. Um jeito de abreviar e, ao mesmo tempo, prolongar esse sofrimento que me alimentava. Que me fazia sonhar alto e não sair do lugar. Esse misto de felicidade infinita e de tristeza profunda.

Não me lembro de ter visto Baby o ano inteiro. Evitei-a, convencido por meu lado racional. Lá no fundo, achava que um dia ela faria o caminho de volta até mim. A festa de hoje seria em um lugar muito longe, eu teria de ficar até o fim para voltar pela manhã para casa, de ônibus. Caso estivesse enganado em minha convicção, todo mundo teria tempo de sobra para testemunhar meu ridículo ato de súplica. Fazia um calor infernal, mas sentia calafrios.

Havia crescido quinze centímetros no ano em que completei dezenove anos. Andava meio corcunda, tentava me equilibrar. Buscava me acostumar a tantas mudanças em tão pouco tempo. Havia esperado por Baby, sempre por ela. Sentia que meus hormônios estavam a ponto de explodir, escapar do corpo.

Meu peito queimou como uma estrela furiosa quando a vi, assim que a porta da casa se abriu. Baby me via do jeito que só ela era capaz. Segui aquele olhar, que me atraía e me enviava lampejos de dor, pedindo que eu chegasse mais perto. Segui os sinais, por instinto, e a música alta se tornou um zumbido baixinho lá no fundo. Perdi a visão periférica; tudo o mais era escuro, Baby emanava o único feixe de luz.

Naquele quase silêncio, só nós existíamos. O mundo inteiro, incluindo aquela festa de faculdade, fora dragado por uma fenda gigante que se abrira sob os nossos pés. Éramos os únicos sobreviventes na Terra. Só havia o agora, sem nada a dizer, só a vida tomando conta. O beijo que eu praticara por anos acontecia agora. Era natural, perfeito, inevitável. Naquele momento, ela era minha. E eu finalmente começava a viver.

testeO bom amor é gentil

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A caminho de casa, ela viu um daqueles cartazes prometendo amarração para o amor. Por um instante, a ideia de pagar só após o resultado lhe pareceu boa. Estava tão fora de si, tão apaixonada, que a chance de ter um amor submisso, de ficar no controle da situação, lhe dava certo conforto.

Concordar, mesmo por alguns segundos, com um projeto tão estapafúrdio como amarrar alguém, ainda que metaforicamente, foi suficiente para ela entender que era hora de dizer adeus. Precisava dar um basta na situação. Apagou o número de telefone dele e sentiu-se bem por um momento.

Só havia um problema: ela sabia de cor os nove dígitos. Sempre fora boa em aritmética, mas nunca soubera fazer as contas do quanto deveria amar. Desenvolveu um sistema que parecia funcionar. Se decorasse o número do pretendente, era sinal de que gostava dele. Caso lhe escorregasse da mente, seria melhor desistir.

Fez as contas e concluiu que não vinha sendo honesta sobre seus sentimentos havia pelo menos três meses. Na semana anterior, descontrolara-se ao contatá-lo em três ocasiões diferentes, um número além do saudável para uma relação não exclusiva. Sinal de que era hora de sair de cena sem fazer barulho.

Antes do fim, uma dúvida: dizer algo ou calar-se? Se não falasse nada, suas chances de sucesso seriam zero. Caso expusesse seus sentimentos, haveria a possibilidade, ainda que matematicamente desprezível, de reciprocidade. Poderia aceitar a derrota calada ou apostar suas fichas na vitória.

Decidiu esperar que aparecesse, o que sempre fazia quando ela menos esperava. Se ele nunca mais lhe telefonasse, o acaso decidiria a situação. Duas vagarosas semanas se passaram, e ele reapareceu. Doce como sempre, como se os dois se tivessem visto no dia anterior.

Ela tivera tempo de praticar o discurso, que seguiu com rigor. Sem ficar emocionada, porém tomando a precaução de não soar fria, disse que talvez fosse melhor se eles deixassem de se ver. O motivo: estava começando a gostar demais dele e não queria mais partilhá-lo com ninguém.

À medida que seus sentimentos atingiam o ponto de fervura, retirar-se parecia a coisa certa a fazer. Ele ficou mudo, sem saber o que dizer. Gaguejou e se despediu. Não lhe desejou boa sorte nem felicidades, não disse nenhuma frase de efeito.

Ela não havia segurado ou dominado seu amor. E não queria forçar ninguém a amá-la, buscava algo gentil. Se fosse necessário esperar um pouco mais até conseguir o que desejava, tudo bem. Uma garrafa de vinho poderia ser aberta imediatamente para ajudá-la a passar o tempo. Seria uma pequena fonte de alento.

Enquanto procurava o saca-rolhas, ouviu insistentes batidas em sua porta. Ele chamava seu nome. Ao abrir, olhou nos olhos dele, sem dizer nada. Era o mesmo homem, mas estava mudado. Quase sem fôlego, pois havia subido três andares correndo pelas escadas, ele fez só uma pergunta:

– Então, como é que a gente vai fazer?

testeCarta de amor ao leitor desconhecido

Para quem se escreve um livro? Ao começar O amor segundo Buenos Aires, meu maior desafio era a identificação. O objetivo sempre foi criar personagens com quem fosse possível desenvolver uma relação, entendendo seus defeitos, vibrando com suas realizações e, acima de tudo, compartilhando sua imensa capacidade de amar.

Para resumir, criei uma pequena lista de intenções a serem cumpridas com a trama. Uma pequena carta para esse leitor desconhecido — você — que, muito em breve, tenho esperanças de encontrar.

Aqui vai:

Se você já amou demais
Brigou e perdoou
E conseguiu esquecer um grande amor
Mas ainda se lembra quando ouve aquela música
(E é uma lembrança doce)
Se de vez em quando se permite mais do que o necessário
Se não resiste a um chocolate
Se já encontrou Jesus
Ou o deus das pequenas coisas
Se já se revoltou e renegou o divino
Só para se arrepender no momento seguinte
Se acredita que todo amor vale a pena
Que todos têm o direito de amar
Que cada um é de alguma forma especial
E percebe detalhes bonitos
Mesmo em um mundo que pode ser muito feio
Se acredita que as pessoas são iminentemente boas
Se teve a coragem de se desculpar com um beijo
Ou de se abrir ao poder de um abraço
E já sentiu tanto amor que teve vontade de chorar
Se pensou sobre todas essas coisas
Em muitas delas, em algumas delas ou mesmo em uma só delas
Este livro é para você
Ele foi feito com amor e é sobre todas as formas de amor

 

Boa leitura.

testeAmar vale a pena

Não tem como ler um livro sem se perguntar quanto da história faz parte da autobiografia do autor. Adianto logo que O amor segundo Buenos Aires reflete pelo menos um aspecto pessoal: meu profundo afeto pela cidade.

Muita gente me pergunta por que Buenos Aires, e não Paris, Londres, Nova York ou mesmo o Rio de Janeiro? A melhor resposta para essa questão é: eu precisava escrever sobre aqueles personagens em terreno portenho; eles brotaram de mim ali. A ideia da história de amor entre Hugo e Leonor, uma das que conduzem a trama, surgiu quando eu andava pelas ruas de San Telmo. Nenhuma outra cidade do mundo me despertou isso — pelo menos não dessa forma, clara como um dia de verão.

Sete visitas a Buenos Aires, cinco anos e incontáveis revisões depois, criei caminhos para outros personagens que inventei passeando pelas ruas, por pontos turísticos, livrarias desconhecidas, restaurantes imponentes e cafés decadentes da cidade. Foi em Buenos Aires que sugiram e ganharam vida o ansioso e bem-intencionado Eduardo, o digno e determinado Daniel, a esperançosa e confusa Carolina, a corajosa e vibrante Charlotte, o afetuoso — e por vezes exasperante — Pedro… Personagens que têm em comum a imensa capacidade de amar.

Numa análise distanciada, acredito que eu e Hugo, o personagem central, não poderíamos ser mais diferentes. Jamais me mudei para outro país atrás de um grande amor nem sofri na pele provações comparáveis às que ele passa na trama. Mesmo assim, não consegui convencer uma leitora muito exigente de que Hugo, no fim das contas, trata-se de uma versão fictícia de mim mesmo. Ao ler o original, bem antes de ele seguir para a editora, ela comentou o livro inteiro referindo-se às ações do personagem central: “Gostei muito quando você disse aquilo, achei aquilo que aconteceu com você muito pesado.”A leitora? Minha mãe.

Mas preciso dar o braço a torcer e admitir que, pelo menos em um ponto, eu e Hugo compartilhamos um sentimento. Assim como ele, sou capaz de identificar todos os defeitos de Buenos Aires, mas os aceito e entendo. E até os justifico. É mais ou menos o que acontece quando a gente ama alguém de verdade — um filho, um amigo ou namorado(a).

Pense bem: seu filho é realmente a criança mais inteligente do mundo? Se você encontrasse de novo seu primeiro amor, será que ele (ou ela) ainda seria tão irresistível assim? Você já se deu conta de que seu marido perdeu a maior parte do cabelo e sua esposa ganhou alguns centímetros ao redor da cintura? Quando há amor de verdade, a aparência e os defeitos acabam perdendo importância.

O amor segundo Buenos Aires é a minha primeira aventura numa narrativa de ficção. Como jornalista, já fiz muitas reportagens em que tive de ir a campo, e escrevi um livro-reportagem para o qual viajei para o Paquistão. Embora viver experiências e relatá-las seja meu modo de ganhar a vida, este romance é meu trabalho mais pessoal.

O livro reflete o que penso sobre a vida, posicionamentos que defendo e atitudes que gostaria de ter. A resiliência, a coragem, a paciência e a dedicação ao próximo que os personagens demonstram ao longo da narrativa refletem três crenças centrais que norteiam cada um dos capítulos: todo amor vale a pena, todos têm o direito de amar e todo mundo é, de alguma forma, especial.

testePlaylist de P.S.: Ainda amo você

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Lara Jean está mais madura em P.S.: Ainda amo você, continuação de Para todos os garotos que já amei, mas continua uma menina sonhadora e apaixonada pelo amor. Para embalar a leitura do romance, nossa equipe preparou uma nova playlist com músicas que expressam os sentimentos da personagem.

Taylor Swift, queridinha da autora Jenny Han, One Direction, Julie Andrews, The Archies, Maroon 5 e muito mais!

Escute aqui!

testePai real, pai imaginário

Aos oito anos, o menino andava quase trinta minutos para chegar ao colégio. Eram os anos 1980 — outros tempos. Os pais se preocupavam menos; tinham filhos demais para tratar cada um como se fosse uma peça de porcelana ou preservá-los como o ser humano que viria a salvar o mundo de uma epidemia rara. Então, na segunda série, andava doze quarteirões até a escola. Passinhos pequenos, um diante do outro.

Se quisesse chegar à uma, precisava sair ao meio-dia e meia. Mochila jeans nas costas, cheia de cartilhas e cadernos recheados de parabéns e notas dez, e uma lancheira do papa-léguas. Destacava-se tanto nas aulas que, à noite, ao contrário de todas as crianças do mundo, rezava para tirar 82 na prova, em vez de 99. Às vezes encontrava uns amigos no meio do caminho; às vezes o primo de segundo grau, alcoólatra, se oferecia para levá-lo de carro. Ele, claro, aceitava.

Em regra, o garoto fazia o trajeto a pé, sozinho. A caminhada diária, no entanto, jamais era em vão. Todos os dias, naqueles idos de 1985, tinha uma missão: encontrar seu pai verdadeiro. Decidira, em silêncio, que havia algo de errado com a história que lhe contaram. Era impossível ter um pai de 57 anos. Fizera e refizera as contas: era quase o dobro da idade da maioria dos outros pais. Além do mais, não se achava parecido com ele. Talvez fossem apenas semelhantes o suficiente para que ninguém pudesse desvendar a trama.

Desenvolveu algumas teorias. Na primeira delas ele era fruto de uma relação ilícita de um dos tios, o irmão mais novo de sua mãe. A família, naquela cidade pequena, não queria saber de escândalo e resolveu acobertar a história, oferecendo um novo filho para seus pais. Depois de pensar um pouco no assunto — na verdade, após dedicar-se bastante ao tema —, essa hipótese passou a não lhe agradar tanto.

A família quase inteira morava no mesmo quintal, e um segredo cabeludo não seria guardado por muito tempo. Na primeira discussão, alguém ia dar com a língua nos dentes. E as brigas eram constantes. Sem falar nada a ninguém, descartou a própria teoria. Mas não desistira de encontrar seu pai verdadeiro, e usava o caminho até a escola para desvendar o mistério.

Era um jogo de adivinhação diário. Seria o homem que, com a caminhonete estacionada, fazia a barba dentro do carro, usando um barbeador elétrico? Seria o dono da loja de materiais de construção? Será que, com o dinheiro que todas aquelas pessoas compravam sacos de cimento, ele ajudava a pagar a mensalidade da escola? Podia ser ainda o Amintas, da mercearia, que lhe dera uma paçoca de graça outro dia.

De uma coisa tinha certeza: era nessas caminhadas que seu pai verdadeiro o acompanhava, só para certificar-se de que ele estava bem. Um dia, no momento correto, contaria toda a verdade. O tempo passou e, no entanto, o pai — fosse quem fosse — parecia não ter reunido as forças para se aproximar. Aos poucos, a ideia da busca acabou se dissipando na cabeça do garoto. Até que abandonou o assunto, sem se dar conta.

O menino cresceu e, embora tenha se esquecido da procura pelo pai imaginário, nunca chegou a ser realmente próximo do pai  real. Não havia brigas, mas os dois pareciam ser diferentes em tudo. Eram opostos. Um gostava de fazenda; o outro, de cidade. Um era caladão, o outro falava sem parar. O voto de um era no Maluf e o de outro, no Lula.

Foi o garoto já grande o último a ver o pai vivo, no hospital, uma hora antes que partisse. Pressionado pelas enfermeiras para deixar a UTI, sentiu que era o fim. Pediu ao pai que se lembrasse da infância na fazenda e do longo caminho que percorria para ir à escola, pelo mato, quando pequeno. Recordar a montanha em que morava e os jogos que inventava nas três horas que tinha de andar para receber educação. Afagou a cabeça do pai como se aquele velhinho fosse filho seu.

Mesmo nesse último momento no hospital, as caminhadas em busca daquele pai jovem, tão diferente do seu, não lhe voltaram à mente. Recordou suas aventuras quando mal conseguiu abafar o riso enquanto literalmente babava dentro de um tubo de plástico, para colher o material para um teste de DNA.

O tal teste não tinha relação com qualquer dúvida de infância. Foi um pedido de uma prima paterna, que queria descobrir se a família carregava o gene de determinada doença. A resposta só viria se o teste fosse feito num parente da mesma geração, do sexo masculino.

O resultado do exame não foi de muita ajuda. Inconclusivo. No entanto, o DNA revelou que ele realmente era primo de sua prima. O que também fazia dele filho inconteste de seu pai.

testeHá abismos entre o amor e o afeto

original

Deitados tão próximos quanto humanamente possível, braços e pernas entrelaçados, Júlia e Inácio sabiam que era o fim. A noite caía devagar. O domingo estava quente e o apartamento espartano, quase sem móveis, tão vazio que as vozes ecoavam. Para guardar segredos era preciso sussurrar.

Em silêncio, quase nus, pensavam a mesma coisa: queriam ter dois ou três grandes amores na vida. Ela, porque, do alto dos seus vinte e três anos, tinha certeza de que Inácio era o seu primeiro amor. Ele, porque tinha certeza de que Júlia não tinha sido um deles. Há abismos entre o amor e o afeto.

Júlia sabia que Inácio sentia por ela um afeto especial. Talvez isso fosse suficiente para muita gente, mas, para ela, não. Por mais que o amasse, ao olhar-se no espelho, encarando seus olhos enormes e expressivos, pensava que merecia mais. Já havia deixado muito tempo passar.

O fato de Inácio simplesmente gostar dela era, na verdade, pior. Sentia-se comum. Esperava que isso mudasse, mas nada aconteceu. Em Júlia, ele despertava um sentimento único — e era exatamente o que ela queria dele.

Baby estava longe, a milhares de quilômetros de distância. Mas ali no escuro, com Júlia, era nela que Inácio pensava. Ele desconversava cada vez que alguém mencionava seu grande amor e, por respeito, jamais falou sobre ela para Júlia.

É claro que a namorada percebia que alguma coisa o mantinha distante, mas ele achava inútil, além de cruel, choramingar sobre o passado justamente com quem estava a seu lado. Baby, de alguma forma, também estava por perto. Lembrou-se daquele dia em que foram a Jacarepaguá de Fusca. Janeiro de 1980, tinha dezesseis anos. Recordar tão vividamente uma noite de oito anos antes era patético.

Inácio desejou desesperadamente que o silêncio fosse quebrado, ainda que não quisesse ser o primeiro a dizer qualquer palavra. O telefone poderia tocar se houvesse um aparelho no apartamento. Mas ele não tinha dinheiro para entrar na lista de espera da Telerj. Mal ganhava para pagar o aluguel e comer. Ficou quieto.

Júlia tinha dificuldade para dormir e costumava passar um tempo estudando o rosto de Inácio depois que ele adormecia. A cabeça dele pesava e pendia para o lado. A expressão ficava séria, como se estivesse pensando em algum problema de matemática. Ela sentia um aperto no coração enquanto ele dormia. Todo insone morre de medo de ficar sozinho.

A claridade da rua fazia sombras no rosto dele. Esperou cinco, talvez dez minutos, para tirar o braço preso sob o corpo de Inácio antes de afastar-se. Júlia lembraria aqueles minutos, o movimento da respiração no peito dele; a graciosidade dos poucos pelos no centro dos peitorais. Uma brisa morna vinha de fora. Sinal de chuva. Apressou-se em colocar o vestido branco — lembraria para sempre que era branco. Pensou que sofrer fosse ruim, mas sofrer encharcada seria demais. Tinha dinheiro que dava para pagar um táxi e chorar no colo da mãe.

Júlia reconstituiria inúmeras vezes os detalhes de sua fuga silenciosa: como tocou Inácio e sentiu os contornos de seu rosto com as pontas dos dedos, abriu a porta devagar para não fazer barulho, desceu quatro lances de escada com os tamancos de madeira nas mãos, tentou disfarçar o choro dentro do táxi e ignorou o gracejo do motorista.

Para Inácio, anos depois, o fim com Júlia seria um ponto indefinido. Jamais conseguiria lembrar se tudo teria sido fruto de uma discussão num bar — de fato, haviam se desentendido algumas semanas antes — ou se apenas decidiram ser bons amigos numa conversa amigável, que jamais existiu.

Caso se encontrassem aos quarenta anos, Júlia ficaria abalada mesmo que o tempo tivesse sido impiedoso com Inácio. Ele a encararia de forma generosa — como faz com todos — e provavelmente a acharia bonita, elogiaria suas escolhas profissionais e a família sólida construída. Trataria a ex com o afeto que se guarda por uma velha amiga. E, sem saber, a magoaria outra vez.

testeAmar não é acertar

O mundo anda com uma mania de perfeição que venho achando muito rasa. Penso nisso toda hora. Não estou falando de política — Deus me livre trazer este assunto à baila por aqui. Estou falando de relacionamentos. Mães e filhos, namorados, cônjuges, amigos, relações familiares em geral.

Parece que tudo precisa ser perfeito. Assim como sentir tristeza hoje em dia virou uma espécie de doença, errar também virou sinal de desamor.

É claro que acertar é bom. Todos queremos ser os melhores pais do mundo, os melhores companheiros, os melhores amigos, amantes e irmãos. Os mais engraçados, leves, sinceros, sexys e justos. Mas toda relação — baseada no amor ou na amizade — está sujeita a escorregões e tombos. Porque a constância, a presença cotidiana, os anos, as transformações e as turbulências pelas quais cada um de nós passa ao longo desta vida, tudo isso exige uma série constante de ajustes. E ajustar aperta, pinica, dói às vezes. Ajusta-se o que está errado, o que mudou de tamanho mas ainda serve, vale a pena.

Mães erram com seus filhos toda hora. Mesmo tentando fazer o melhor, erramos. Erramos cotidiana e constantemente, erramos cheias de amor. Casais são injustos uns com os outros todos os dias. Sadios são aqueles que conseguem, depois de um perrengue qualquer, respirar fundo e começar de novo, zerando as mágoas e as minúsculas injustiças cotidianas.

Hoje, as contas se acumulam nos relacionamentos. E aí, quando a fatura está no vermelho, é hora de tocar adiante. Troca-se o par, contas zeradas, e o jogo começa outra vez da casa 1 do tabuleiro. As relações familiares, nesse ponto, suportam mais os dissabores — ninguém pode trocar de mãe, pai e irmão a cada quatro anos. De um modo ou de outro, as famílias se aturam, já que não tem jeito mesmo. Mas quantas vezes a gente vai dormir se sentindo péssimo — afinal, no calor do afeto, erramos com alguém? Só erra quem tenta. E tentar é amar. Hoje em dia, todo erro é visto como defeito. Discordo disso. Enquanto tentamos, estamos presentes. Enquanto estamos presentes, é sinal de que existe o amor.

Afinal, amar não é acertar. Amar é tentar.

E, ao errar, tenta-se de novo.

Sempre.