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(Fonte: Unsplash)

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Entre os presentes que alguém pode ganhar ao longo da vida, um amigo é certamente um dos mais valiosos. Não digo “um bom amigo” porque soaria como pleonasmo. Amizade, em essência, já é boa. Não tem preço. O amigo abre mão, abre as mãos e os braços, segura as pontas, solta o riso e prende junto a respiração. Amigo não pergunta antes “por quê” nem “onde”. Muito menos “quando”. Pode até fazer essas perguntas depois, mas já será tarde demais e ele estará envolvido até o pescoço. Amigo não tem hora, não tem tempo ruim. E, se o tempo fechar, ele vai oferecer abrigo, café forte, abraço, suor, ombro, punhos, cotovelos e até chutes.

Amigo sugere juntar uma galera para bater no barbeiro que cortou seu cabelo. Não se furta a dizer que o corte ficou péssimo, mesmo que tenha ficado bom. Abre sua geladeira, pega a última cerveja e você nem se abala. Liga de madrugada, bêbado, para contar um sonho sem pé nem cabeça, e você não hesita em mandá-lo dormir. Diz, com a maior naturalidade, que você fez burrada num negócio. Xinga e elogia suas atitudes na mesma frase. E o ama de um jeito que só você sabe, mesmo que jamais vá pronunciar as famosas três palavras.

Não há níveis intermediários de amizade; não existe meio amigo. Ou é, ou não é. Se não for, deve ser rebaixado à categoria de conhecido ou colega. Arrisco-me aqui a cometer uma heresia e sugerir uma fórmula para medi-la: amizade = palavras certas + ações concretas + olhares sinceros + conselhos oportunos + perdão + disponibilidade + confiança – julgamentos. Tudo isso elevado ao quadrado.

Nas palavras de Francis Bacon, “a falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto”. Basta um para que o silêncio do deserto interior e exterior seja quebrado. Nesse caso, sinto-me privilegiado, pois tenho uma quantidade gigantesca de amigos. Dá quase para contar nos dedos das duas mãos!

Surpreendente!, em sua mais pura essência, trata de amizade. Acho que aprendi um bocado durante a escrita. Não só por ter me envolvido com os sentimentos dos quatro personagens e experimentado — através de seus olhos — momentos puros de alegria, mas também por perceber que, ironia do destino, durante a concepção do livro, afastei-me dos amigos. Quando me dei conta, estava colocando os pés naquele deserto quente de Bacon. E esta foi a maior lição aprendida: nada do que você faça, por mais mágico que pareça aos seus olhos ou aos olhos dos outros, justifica deixar de lado seus amigos.

Eles, contudo, são amigos e não se abalaram. Fui xingado um monte, pedi perdão e demos muitas gargalhadas.

Amigo sempre entende.