testeManderley

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Cena do filme Rebecca, a mulher inesquecível (Fonte)

Acabo de rever Rebecca, a mulher inesquecível. O filme, de 1940, dirigido por Alfred Hitchcock e produzido por David O. Selznick, é um suspense psicológico de primeira. Baseado no romance homônimo de Daphne du Maurier, best-seller de 1938, o longa-metragem conta a história de uma jovem capiau (seu nome não é citado no filme) que se casa com o milionário Maxim de Winter. O casal vai morar na residência do noivo, à beira-mar, o palácio de Manderley, na Inglaterra. Em sua nova casa, a Sra. de Winter passa a ser assombrada pela lembrança da falecida Rebecca, a primeira esposa de Maxim. Quem mais colabora para criar esse clima lúgubre é a governanta, Sra. Danvers.

Quando estreou no Brasil, no início da década de 1940, o filme causou certa controvérsia, já que sua trama é claramente baseada no romance A sucessora, da escritora carioca Carolina Nabuco (1890-1981). Tanto que antes do lançamento de Rebecca os produtores americanos tentaram arrancar de Carolina, sem sucesso, uma declaração de que a obra de Daphne não era um plágio da sua.

Em Os Guinle, contei que a história de A sucessora foi concebida tendo como inspiração a mansão de Carlos Guinle, na praia de Botafogo, no Rio de Janeiro. No romance de Carolina Nabuco, a propriedade foi assim descrita: “O palácio parecia ter saído, completo e mobiliado, do cérebro de um longínquo arquiteto decorador, sem colaboração alguma dos ocupantes, sem que os donos, receosos de críticas, se arriscassem a concorrer com algo de pessoal.”

Como pesquisei muito a vida do casal Carlos e Gilda Guinle, não consigo imaginar que o casarão da praia de Botafogo fosse um ambiente sem “algo de pessoal”. No entanto, vendo o filme dirigido por Hitchcock, parece que o cenógrafo seguiu mesmo ao pé da letra a ideia de que seu interior seria impessoal. A gigantesca Manderley não é nada aconchegante. Em uma de suas inúmeras salas funcionava o frio escritório do Sr. de Winter e uma ala inteira da propriedade nem sequer era utilizada.

Não tenho nenhuma dúvida de que Rebecca, a mulher inesquecível é plágio. Vendo o filme, que é uma versão da versão de outra versão, consigo reconhecer o DNA dos Guinle: a mansão de uma família de milionários que vive cercada por um batalhão de empregados fiéis. Mesmo sendo o meu livro uma biografia e Rebecca uma obra de ficção, existe algo em comum nas duas narrativas: em ambas o final é surpreendente.

testeEm defesa das vilãs

Por Vanessa Corrêa*

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Nascida no meio-oeste dos Estados Unidos, filha de uma professora de interpretação de textos e de um professor de cinema, Gillian Flynn aprendeu a amar histórias de terror em casa. Após estudar inglês e jornalismo na Universidade do Kansas, mudou-se para Nova York, onde trabalhou durante anos em uma revista como crítica de televisão e cinema. Apaixonada por ficção, nas horas vagas começou a escrever seu primeiro livro.

A história de uma jovem repórter que investiga casos de assassinato, ao mesmo tempo em que tenta sobreviver a uma família completamente disfuncional, viria a ser Objetos cortantes, sua estreia literária. Publicado em 2006, o romance traz algumas das características pelas quais as obras de Flynn ficariam conhecidas: assassinatos e desaparecimentos como tema central, histórias cheias de reviravoltas, tramas que se passam no meio-oeste americano, personagens ambíguos e mulheres extremamente perturbadas.

untitledA crise do jornalismo nos Estados Unidos também permeia as duas obras de Gillian já publicadas no Brasil. Em Objetos cortantes, a repórter Camille Preaker, que se esforça para manter o emprego em um jornal secundário de Chicago, tem uma visão bastante desoladora da profissão. Já em Garota exemplar, Nick e Amy são jornalistas que perdem seus empregos em Nova York e acabam se mudando para a pequena North Carthage, cidade natal de Nick.

A reviravolta na vida do casal de Garota exemplar foi inspirada na experiência da própria autora, que, pouco antes do lançamento de seu segundo livro, Dark Places, foi demitida da revista Entertainment Weekly. A perda inesperada do emprego acabou tendo um lado positivo: com mais tempo livre, Flynn pôde dedicar-se totalmente a Garota exemplar, livro que já vendeu mais de 6 milhões de exemplares no mundo todo.

link-externoLeia também: Desconstruindo Amy

Se a frieza calculada de Amy Dunne assustou os leitores, o comportamento destrutivo de Camille Preaker e os jogos doentios de sua mãe e sua irmã em Objetos cortantes não ficam atrás. O thriller foi definido por Stephen King como a saga familiar mais aterrorizante lida por ele nos últimos 30 anos.

A atmosfera sombria das obras de Gillian Flynn reflete a paixão da autora pelo cinema de horror. Certa vez, ela contou em uma entrevista que assistiu a Psicose, de Alfred Hitchcock, “um milhão de vezes”. “Eu praticava obsessivamente no espelho a cena final de Anthony Perkins: o sorriso de Norman Bates diretamente para a câmera. Ainda consigo imitá-lo muito bem”, disse Flynn.

link-externoLeia também: Making of A cena do chuveiro de Psicose

Contudo, nas tramas criadas pela escritora, fantasmas e assassinos desconhecidos dão lugar a mulheres de personalidades extremamente doentias, que representam uma ameaça não só para as pessoas à sua volta, mas também para si mesmas.

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Rosamund Pike e Ben Affleck em cena de “Garota exemplar” (2014)

Muitos leitores se perguntam se uma autora capaz de criar um casamento tão tóxico como o de Garota exemplar ou uma mãe tão desequilibrada quanto Adora Preaker, de Objetos cortantes, não teria uma vida tão assustadora quanto a dos personagens de seus livros. Mas Flynn nega que tenha se inspirado em qualquer aspecto de sua realidade para criar as histórias.

“O número de autores de mistério e horror que conheci e que são as pessoas mais sãs e gentis do mundo é uma loucura. Parece que quanto mais sombrios os livros, mais legais os autores são”, disse Gillian em uma entrevista ao jornal The Guardian.

Os retratos tão pouco lisonjeiros das personagens femininas de seus livros também renderam a Gillian Flynn acusações de misoginia. Em um texto publicado em seu site, a autora rebate as críticas dizendo que seu objetivo é dar voz à violência feminina, tão pouco retratada na história da literatura, e mostrar que mulheres também podem ser más. “Já me cansei das heroínas determinadas, das corajosas vítimas de estupro e das fashionistas à procura de autoconhecimento que aparecem em tantos livros. Lamento especialmente a falta de vilãs femininas — boas e potentes vilãs femininas”, explica.

“As mulheres passaram tantos anos lutando por direitos que não sobrou espaço para reconhecer nosso lado obscuro. Lados obscuros são importantes. Eles devem ser cultivados como repugnantes orquídeas negras. Por isso Objetos cortantes é meu pequeno e assustador buquê.”

Vanessa Corrêa da Silva é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

 

testeMaking Of: A cena do chuveiro

Alfred Hitchcock e Janet Leigh durante as filmagens

“Uma pessoa nunca está tão indefesa quanto no chuveiro. Nua, num espaço apertado, sentimo-nos totalmente sós. Uma súbita intrusão assim é um grande choque.” A partir dessa ideia Robert Bloch criou a cena que se tornaria célebre nas mãos do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Discípulo e apadrinhado do conceituado escritor de terror H.P. Lovecraft, Bloch se inspirou em um crime real para escrever Psicose, romance publicado em 1959 e vencedor do prêmio Edgar do Mystery Writers of America (Associação dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos).

Capa do romance de Robert Bloch, assinada pelo artista gráfico Tony Palladino. O inconfundível logotipo também foi usado para o cartaz do filme de Hitchcock.

Depois de 46 longa-metragens e três temporadas de sucesso na televisão, com o programa da CBS Alfred Hitchcock Presents, Hitchcock estava em guarda contra a ameaça de se repetir. “Estilo é autoplágio”, alardeava. Em sua incansável busca por material realmente novo, o diretor que dispunha de vistosos recursos de produção, locações de cartões-postal e grandes estrelas, jogou tudo para o alto quando descobriu o livro Psicose. Atraído pelo inesperado assassinato no chuveiro e pela esperteza de Bloch em empregar o recurso de travestismo, o cineasta recusou o veredito da Paramount, que considerava o original de Bloch “Impossível para o cinema” e decidiu financiar o projeto com seus próprios recursos. Como único produtor, abriu mão de seu salário de 250 mil dólares em troca de 60% da propriedade dos negativos.

O filme independente de Hitchcock contou com um orçamento de 800 mil dólares, o equivalente a três vezes o custo de um episódio para TV. O projeto de Psicose previa apenas 36 dias de filmagem e, para realizá-lo, o diretor teve que deixar de trabalhar com muitos de seus colaboradores de longa data e usar a equipe de seu programa de TV. No set, filmava-se muito mais do que o habitual para um diretor de primeiro escalão: de quatorze a dezoito cenas por dia.

Conforme Stephen Rebello relatou no livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, Hitchcock nunca passava de três ou quatro tomadas de cada cena, pois acreditava que a espontaneidade diminuía e a cena tomaria um rumo diferente. A exceção foi a sequência do chuveiro, que levou sete dias para ser filmada, com setenta posições de câmera para 45 segundos de filme. Para realizar esta sequência, Hitchcock pediu ao inovador designer gráfico Saul Bass que desenvolvesse storyboards.

Frames dos bastidores de Psicose, com Saul Bass, Alfred Hitchcock, and Janet Leigh, 1960. © Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Frames dos bastidores de Psicose, com Saul Bass, Alfred Hitchcock e Janet Leigh (1960).                            © Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Aos 39 anos, Bass já havia causado alvoroço ao criar ousadas sequências de abertura para Carmen Jones, O homem do braço de ouro e O pecado mora ao lado. O designer também assina as sequências de abertura para Um corpo que cai, Intriga internacional  e do próprio Psicose.

Pôster de Saul Bass e Art Goodman (ilustrador), para Um corpo que cai (1958). © Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Pôster de Saul Bass e Art Goodman (ilustrador), para Um corpo que cai (1958).
© Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Com grau de violência e nudez potencialmente censuráveis, Hitchcock decretou: “Vou filmar e cortar em movimentos rápidos, de modo que o público não tenha ideia do que está acontecendo.” A partir desse conceito, Bass criou uma abordagem de videoclipe, com uma saraivada de ângulos oblíquos, planos americanos e close-ups.

Para a filmagem foi construído um cenário com quatro paredes, cada uma delas era destacável para que as câmeras pudessem ser posicionadas de acordo com os ângulos exatos propostos pelo storyboard. Em entrevista concedida a Stephen Rebello para Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, Saul Bass explica:

“O ponto de vista básico da coisa é sustentado por uma série de imagens repetitivas nas quais existe muito movimento, mas pouca atividade. Afinal, tudo que acontece é apenas uma mulher tomando banho, sendo atacada e caindo lentamente para o fundo da banheira. Em vez disso [filmamos] séries de movimentos repetitivos: ‘Ela toma banho, toma banho, toma banho. É atacada-atacada-atacada-atacada-atacada. Ela cai-cai-cai. É atacada-atacada-atacada-atacada. Cai-cai-cai.’ Em outras palavras, o movimento era muito limitado, e a quantidade de ação para chegar a ele, muito intensa. Foi o que eu sugeri a Hitchcock. Não acho que aquela foi uma cena típica de Hitchcock, no sentido habitual da palavra, porque ele nunca tinha usado antes aquele tipo de corte rápido. Pelos padrões modernos, não achamos que ela representa um corte em staccato, pois já estamos tão acostumados com as edições frenéticas. Mas, naquela época, fazer — sei lá, dois, três minutos, quanto quer que dure a cena — com quarenta ou sessenta cortes, quantos fossem, era uma ideia muito nova do ponto de vista estilístico. Como um profissional das sequências de abertura, para mim era muito natural usar aquela técnica de montagem com cortes rápidos para criar o que resultou numa visão de assassinato impressionista, e não linear.”

testeO que esperar de 2013? Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose

Psicose, de 1960, entrou para a história do cinema como uma das obras mais importantes do mestre do suspense Alfred Hitchcock. No livro, o jornalista e roteirista Stephen Rebello desvenda os bastidores da produção considerada pelo American Film Institute o melhor thriller de todos os tempos, conta a impressionante história real que inspirou o filme e revela a decisão do cineasta, após a recusa do projeto pela Paramount, de bancar ele próprio as filmagens, atraindo estrelas famosas por uma fração do cachê habitual, marca de sua obstinação artística e determinação.

Leitura obrigatória para todos os amantes do cinema, Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose será publicada em 25 de janeiro e inspirou Hitchcock, filme de Sacha Gervasi protagonizado por Anthony Hopkins e Helen Mirren — que acaba de ser indicada ao Globo de Ouro e ao SAG Awards por sua atuação como Alma, esposa do famoso diretor. Com previsão para estreia nacional em 8 de fevereiro e distribuição da Fox, a produção ainda tem Scarlett Johansson como Janet Leigh, a estrela da célebre cena do chuveiro.

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Assista ao trailer legendado:

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Scarlett Johansson recria cena do chuveiro de Psicose para a capa da V Magazine

testeOs bastidores de Psicose

 

A impressionante caracterização de Anthony Hopkins como Alfred Hitchcock foi a primeira imagem divulgada da adaptação cinematográfica de Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, não ficção de Stephen Rebello que será lançada pela Intrínseca em 2013.

Leitura obrigatória para todos os amantes do cinema, Alfred Hitchcock and the Making of Psych desvenda os bastidores da produção de Psicose, obra-prima do cineasta que recebeu do American Film Institute o título melhor thriller de todos os tempos. O livro parte da história verídica do crime que inspirou o clássico e expõe, minuciosamente, todas as etapas de produção do filme, além de trazer entrevistas com o próprio diretor e com a equipe envolvida nas filmagens.

Com roteiro do próprio Rebello, o filme Hitchcock tem Helen Mirren no papel de Alma Reville, a esposa do cineasta, e Scarlett Johansson como Janet Leigh, a protagonista da célebre cena do chuveiro. Hitchcock é dirigido por Sacha Gervasi (roteirista de O Terminal) e está em pré-produção.