testeA nova mitologia de Deuses americanos

Por Alexandre Matias*

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Ainda não chegou o tempo em que olharemos para trás e reconheceremos que Deuses americanos foi um marco na literatura fantástica mundial. O livro que lançou a carreira de Neil Gaiman como escritor para além dos quadrinhos completa quinze anos em 2016, e sua adaptação para série de TV já está sendo filmada e estreia em 2017. O aniversário traz de volta a versão integral que Gaiman mandou a seu primeiro editor, que podou dezenas de páginas. Nessa  Edição Preferida do Autor as páginas extras são resgatadas, além de outros textos de Gaiman sobre o livro, como uma nova introdução e uma entrevista.

Em Deuses americanos, Gaiman explora a possibilidade de mitologias acompanharem seus povos em migração. A história se passa na virada do milênio, mas também volta no tempo para mostrar os Estados Unidos em formação, explicando como cada povo e cada tribo deixou a Europa rumo à América levando consigo suas crenças — e como estas foram se transformando no novo continente, que, ao mesmo tempo, via o nascimento de novos deuses.

Assim como acontece na extensa saga em quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, a sombra que Deuses americanos projeta sobre a fantasia atual ainda está em lento crescimento, sendo apresentada a novos públicos e espalhando-se para além daquele momento inicial de seu lançamento.

Na nova introdução, Neil Gaiman explica que concebeu o título do livro antes mesmo de saber sobre o que escreveria. E, ao apresentá-lo para sua editora, recebeu de volta uma capa já pronta com a clássica imagem do relâmpago ao longe, no horizonte de uma estrada. A imagem icônica surgiu antes mesmo de Gaiman determinar exatamente qual história queria contar e qual tom daria à nova saga.

De certa forma, Deuses americanos pode ser visto como uma continuação do universo que Gaiman começou a explorar em Sandman, embora por outro ponto de vista. Com a série da DC Comics, o autor britânico escolheu um personagem de terceiro escalão da editora e foi em sua essência, descobrindo que o nome Sandman estava vinculado ao personagem do sonho em todas as mitologias. Criou um universo no qual sete irmãos — os Perpétuos — atravessam todas as narrativas da história humana. Eles são entidades que existem desde a aurora dos tempos — Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (todos com D, em inglês) — e cuja interação afeta diretamente a vida dos seres humanos. Sandman era um enorme xadrez da eternidade, em que diferentes deuses e personagens fantásticos brincavam com a mortalidade humana.

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Deuses americanos nos faz ver esses universos mitológicos do ponto de vista mortal. O protagonista, Shadow, cruza os Estados Unidos de carro em busca de divindades de outras culturas que estiveram na base da formação do país, mas que aos poucos foram perdendo a importância, ao mesmo tempo em que viram o nascer de novos deuses, aqueles que batizam o livro. E, mesmo que tenha uma história fechada, o universo de Deuses americanos acabou por invadir e dar origem a outros livros de Neil Gaiman, que aos poucos vai desenhando seu próprio universo ficcional.

A adaptação do livro para a TV amplia ainda mais as fronteiras desse universo. A princípio produzida pela HBO, a série passou para o canal fechado Starz e conta com nomes como Bryan Fuller (da série Hannibal) e Michael Green (que fez Heroes e Kings e atualmente produz Gotham e escreve a continuação de Blade Runner), além do próprio Neil Gaiman, que acompanha de perto o projeto desde o início. Gaiman já admitiu ter participado do roteiro dos primeiros episódios da série, que teve seu primeiro teaser exibido — e recebido com aplausos — na Comic Con de San Diego deste ano, o principal evento de cultura pop do mundo.

Ao chegar à TV durante uma grande entressafra que coincide com a fase final do fenômeno de fantasia Game of Thrones, há uma grande chance de a série encontrar um público ávido por novas histórias que misturem mitologia e realidade. Em Deuses americanos, assim como em toda obra de Neil Gaiman, os fãs encontrarão um enorme manancial de contos, fábulas e épicos.

Mas ainda há muito pela frente. Outras obras fantásticas — como O senhor dos anéis, Harry Potter e o próprio Game of Thrones — só atingiram o auge da popularidade quando saíram do papel e chegaram às telas do cinema e da TV, sendo que apenas os autores dos dois últimos — J.K. Rowling e George R.R. Martin — puderam curtir o ápice de popularidade e alcance de suas criações, ajudando-as a crescer nesta transição. A nova edição de Deuses americanos e a iminente série são as primeiras provas de que esse universo pode — e deve — ser bem explorado nos próximos anos.

 

Alexandre Matias, 41 anos, é jornalista e cobre cultura e tecnologia há vinte anos, com base em seu site, Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br).

testeAdrenalina em escala global

Eu sou o Peregrino é um épico impressionantemente detalhista e dinâmico sobre política internacional, o mundo da espionagem e terrorismo — e é o primeiro livro do roteirista Terry Hayes, que escreveu os primeiros filmes da série Mad Max entre outros de sucesso

Por Alexandre Matias*

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“Escrever um filme é como nadar em uma banheira e escrever um romance é como nadar no oceano.” A diferença de escala entre os dois formatos, uma citação de John Irving presente no início dos agradecimentos de Eu sou o Peregrino, não é apenas o principal diferencial do romance de estreia do roteirista de cinema Terry Hayes em relação aos seus trabalhos anteriores. Conhecido por escrever o roteiro do segundo e terceiro filmes da série Mad Max, nos anos 1980, Hayes escreveu bons thrillers na virada do milênio (como O Troco, com Mel Gibson, Limite Vertical, com Chris O’Donell, e Do Inferno, com Johnny Depp). Mas nenhum desses filmes se compara ao calhamaço que inaugura sua bibliografia.

A ameaça das quase 700 páginas do livro, no entanto, começa a se desfazer logo que começamos a leitura. Hayes puxa o primeiro fio da meada com um assassinato num hotel barato em Nova York, que traça conexões no Oriente Médio, nos Balcãs, em um banco suíço, em Paris, em Veneza, na Turquia e no Afeganistão, numa espiral de acontecimentos inesperados ao redor de dois personagens densos definidos por seus codinomes, Sarraceno e Peregrino. A narrativa da história é ao mesmo tempo detalhista e deliciosa e as páginas são viradas numa compulsão que desafia o leitor não apenas pela complexidade da trama, que mistura política internacional, espionagem, técnicas de tortura, biotecnologia, história da arte, internet e o 11 de Setembro, mas também pela profundidade de seus protagonistas, agentes perfeitos que não deixam rastros, tão motivados quanto determinados — além de extremamente complexos —, colocados um contra o outro em uma conspiração de escala planetária.

“Acho que o público em geral está em busca de experiências mais intensas e mais amplas”, me explicou o autor em entrevista por e-mail. “As prateleiras das livrarias estão cheias de thrillers e de romances policiais. Os cinemas também viviam cheios disso. Mas agora as pessoas já tiveram essas experiências tantas vezes que estão em busca por algo diferente — talvez uma experiência que de alguma forma seja mais abrangente. Percebi que tinha que fazer algo diferente de outros livros em um mercado que é muito disputado — eu tinha que ir rumo a uma experiência mais épica.” Também conversamos sobre a adaptação do livro para o cinema, suas influências narrativas e o que ele achou do novo Mad Max.

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Quanto você teve de estudar para entrar nas mentes dos dois personagens principais?
Bem, você precisa acreditar nos personagens. Você não pode considerar que só existem mocinhos e vilões. Se fosse óbvio dessa forma, por que se importar em ler um livro? Você tem de misturar — como na vida, suponho. Steven Spielberg, que sabe umas coisinhas sobre como contar histórias, diz que não existem personagens maus — só pessoas com más intenções. Entendo que ele queira dizer que não existe ninguém que acorde de manhã e decida ser mau — são suas experiências e objetivos que os guiam, passo a passo, rumo a um caminho que leva às más consequências. Eu certamente criei meu chamado vilão dessa maneira. De forma similar, o herói também faz coisas assustadoras. Acho que isso os transforma em personagens mais interessantes e levanta uma série de questões morais interessantes.

Eu fico impressionado — e muito agradecido — que tantos resenhistas ao redor do mundo tenham dito que, de alguma forma, simpatizaram com o vilão. Mesmo que ele tenha um plano horrível para colocar em ação. Esse elogio me prova que eu criei um personagem com motivações convincentes e que eu pelo trilhei um caminho no sentido de criar um ser humano real e não um vilão de papel. As histórias estão repletas desse tipo de personagem e acho que não precisávamos de mais um deles.

Por isso, se você trabalha desse ponto de partida — que ambos os personagens principais devem ser escritos de forma bem positiva —, você apenas prossegue cada vez mais fundo e tenta garantir que tudo que eles façam seja lógico. Para os dois, você tem que continuar dizendo: “E se fosse comigo, o que eu faria?”. O único problema é que isso parece mais fácil de fazer do que acaba sendo quando você está sentado na frente da tela vazia do computador.

 

Você conhece pessoalmente os lugares e tem noção dos procedimentos descritos com tantos detalhes no livro?
Conheço muito dos lugares mencionados no livro porque tive a sorte de viver em muitos países diferentes e viajei para um número ainda maior deles. Há passagens num banco privado em Genebra que, como morei na Suíça por anos, tirei da minha experiência pessoal. O mesmo pode ser dito de Santorini, Paris, Londres e por aí vai. Fui correspondente internacional em Nova York e em Washington, então compreendo bem como funcionam o governo norte-americano e suas agências de inteligência. Escrevi muitas matérias sobre grupos de inteligência e conversei com vários dos seus integrantes de alto escalão, por isso eu sei onde como buscar informações e o tipo de detalhes que não são necessariamente conhecidos de todos.

 

Quais foram suas principais influências narrativas — tanto filmes quanto livros — para este romance?
Gosto de boas histórias, com uma linguagem clara e precisa. Você precisa de personagens com motivações convincentes e ter algo correndo risco que faça com que o público se importe. Por isso, naturalmente, amo os filmes da chamada Era de Ouro de Hollywood. Casablanca, Uma Aventura na África, Núpcias de Escândalo e vários outros que foram adaptados de livros muito bons. Isso continua até os anos 1970 e até mesmo depois, filmes como A Ponte do Rio Kwai, O Poderoso Chefão, A Primeira Noite de um Homem. São muitos! Infelizmente, os filmes dependem menos de livros bem escritos e mais de histórias em quadrinhos hoje em dia e por isso é difícil encontrar narrativas fortes que não dependam apenas de explosões e eventos que desafiam as regras da física. No que diz respeito à literatura, eu tive a sorte de, ainda criança, ler bastante e de ter um pai que me encorajava a ler o melhor que o mundo podia me oferecer. Por isso fui de Hemingway e F. Scott Fitzgerald para Herman Hesse, Cervantes e, claro, a Bíblia. Afinal, se há uma coleção melhor de ótimas histórias, eu ainda tenho que encontrá-la. Talvez As Mil e Uma Noites. Deixando as conexões religiosas do Novo Testamento de lado, a história de Jesus ainda é a melhor história de herói já contada. Melhor que a de Luke Skywalker, que pegou muita coisa emprestada dali.

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Eu sou o Peregrino será adaptado para o cinema? Quando você escrevia pensava no livro como um filme?
Ele está se transformando em um filme enquanto conversamos — então essa é uma resposta fácil. Será um bom filme? Isso é uma resposta mais difícil de dar, afinal, não há muitos deles hoje em dia, não? Mas eu tenho a esperança de que será, sim! Acho que quando estava escrevendo pensei nisso porque costumo pensar em cenas e momentos impactantes. Escrevi filmes por tanto tempo que agora meio que está no meio DNA. Óbvio que escrever um romance é algo bem diferente, mas foi um ponto de partida — bem útil, na minha opinião.

 

Como autor da história de dois dos três primeiros filmes da franquia Mad Max, o que você achou do quarto filme da série, lançado no ano passado?
Eu gosto muito do novo, Mad Max: Estrada da Fúria. Uma das coisas que eu mais gosto dele é que George Miller —um amigo muito querido — não apenas reciclou os velhos; ele o levou para um rumo novo e ainda mais empolgante. É claro que é um tour de force de direção e ele mereceu, de verdade, a indicação para o Oscar. Na minha opinião imparcial, ele devia ter ganhado. Parte do problema com continuações é que as pessoas ficam muito tentadas a apenas duplicar o que consideram que foram os elementos bem-sucedidos. Não é o caso de George, ele ainda está lá explorando os próprios limites e a si mesmo. Ele não é mais jovem, por isso é incrível ver um cineasta e roteirista querendo fazer isso.

 

E o que você está fazendo atualmente? Trabalhando em algum filme ou em seu segundo romance?
Finalizei o roteiro para Eu sou o Peregrino, que vai ser produzido pela MGM, e agora estou trabalhando em como vou lidar com a realização do filme. E estou escrevendo também outro romance, The Year of the Locust [ainda sem título em português, será publicado pela Intrínseca], que é uma espécie de cruzamento entre O Exterminador do Futuro, O Planeta dos Macacos e um thriller de espionagem. Eu sei, parece maluco, e provavelmente é mesmo, mas eu realmente gosto dele e acho que será uma história arrebatadora, então já é um bom começo! Não há nada pior, imagino, do que tentar escrever sobre algo que você não gosta. Espero que os leitores compartilhem esse meu entusiasmo!

>> Leia um trecho de Eu sou o Peregrino

 

Alexandre Matias, 41 anos, é jornalista e cobre cultura e tecnologia há vinte anos, com base em seu site, o Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br).

testeUm futuro longe do digital

Elon Musk quer colonizar Marte, popularizar os carros elétricos e a energia solar — independentemente do que aconteça com a internet

Por Alexandre Matias*

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“As melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios.” A frase, dita por um dos primeiros programadores do Facebook, sintetiza o sentimento de frustração com o futuro trazido pelo Vale do Silício: em vez de viagens interplanetárias, teletransporte ou energia sustentável, o futuro que o século XXI nos apresentou foi o de pessoas grudadas em monitores de todos os tamanhos, inflando seus próprios egos em redes sociais.

A promessa de futuro vendida pelo Vale do Silício misturou-se com o mundo de fama e sucesso de Hollywood, e, em pouco tempo, CEOs atingiram status de popstar. Steve Jobs talvez seja o melhor exemplo desse domínio do mundo dos negócios como uma variação do show business. Mas não se engane, filmes sobre Bill Gates e Mark Zuckerberg já foram produzidos e currículos de executivos bem-sucedidos continuarão sendo vendidos como biografias de pessoas incríveis nos próximos anos.

Elon MuskDe lá para cá, a internet mudou. Deixou de ser o reino aberto de trocas de links para se tornar um ambiente de feudos de marcas, clusters de usuários obstinados em reter todos os dados pessoais de seus clientes para vendê-los a outras marcas em forma de publicidade personalizada. Google, Facebook, Microsoft, Apple, Amazon e uma meia dúzia de empresas querem mantê-lo sob seu único guarda-chuva, silos de entretenimento que combinam redes sociais, aplicativos para celulares e tablets, games, serviços de streaming, sites de compras e de armazenamento digital. Todo mundo permanece cada vez mais grudado a uma matrix de distrações, e aquele futuro Jetsons que antevíamos em meados do século passado parece sumir enquanto migramos de uma tela para outra, de uma marca para outra.

Mas para o sul-africano Elon Musk um futuro de viagens interplanetárias e energia sustentável ainda permanece no horizonte. Alheio aos deslumbres do digital, ele preferiu investir seu dinheiro em desafios verdadeiramente transformadores. Ele pertence ao grupo de programadores e engenheiros que ficou conhecido mais tarde como “a Máfia do PayPal” por ter surgido em meio à criação do serviço de transferências financeiras — um grupo de empreendedores que criaram uma espécie de lado B do Vale do Silício mais pop, desenvolvendo aplicativos e redes sociais que orbitam de forma pacífica ao redor das principais, como LinkedIn, Yelp, Reddit e fundos de investimento.

Musk, no entanto, radicalizou. Preferiu investir em outras formas de conexões humanas ao entender que a internet havia se convertido em uma nova corrida do ouro, fazendo todos apostarem alto no ciberespaço como único futuro viável. Após ficar bilionário com a venda do PayPal, dedicou-se às próprias empresas para atingir suas metas futuristas, que incluem a exploração do espaço, viagens interplanetárias, terraformação de Marte, carros elétricos, transportes suspensos, energia solar… E tem dado certo.

Com sua SpaceX, Musk já realizou viagens tripuladas para fora da órbita da Terra e estuda como criar uma biosfera artificial em Marte que suporte a colonização do Planeta Vermelho — empreitada que ele pretende iniciar ainda em vida. Com a Tesla Motors está mostrando que o carro elétrico não apenas é viável como também pode ser criada uma malha de recarga gratuita para seus carros em três continentes. Sua SolarCity já é a segunda maior empresa em vendas de painéis solares nos Estados Unidos. E sua Hyperloop, que cogita o transporte suspenso entre cidades por tubos de ar comprimido, já começa a fazer testes com um tubo que liga Los Angeles a São Francisco.

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CRS 4 Dragon em órbita (Foto: Space X)

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Interior do Dragon V2 (Foto: Space X)

A internet atual vive uma transição drástica que equilibra uma geração que viu a chegada da rede como tábua de salvação de um futuro em colapso (a popularização em massa da internet e o surgimento das redes sociais aconteceram logo após o atentado do 11 de Setembro de 2001) com outra que já nasceu on-line e não percebe a rede como novidade. Ambas se encontrarão quando a esperança reluzente do mundo digital se provar apenas uma forma de manipulação e vigilância das pessoas, quando o futuro brilhante da internet se reduzir apenas a uma rede de monitoramento de dados, seja para uso comercial ou governamental. Quando isso acontecer, Elon Musk estará nos esperando com seu futuro megalomaníaco já em andamento.

link-externoVídeo: Elon Musk apresenta os primeiros SUVs Tesla Model X

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link-externoLeia um trecho da biografia Elon Musk: Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro, de Ashlee Vance

link-externoLeia também: Stephen Witt, autor de Como a música ficou grátis, explica como o digital mudará ainda mais nossa relação com a cultura

 

Alexandre Matias, 40, é jornalista há vinte anos e cobre música, cultura e tecnologia para diversos veículos, com base em seu site pessoal, o Trabalho Sujo.

testeUma mudança sem volta

Stephen Witt, autor de Como a música ficou grátis, explica como o digital mudará ainda mais nossa relação com a cultura

Por Alexandre Matias*

Stephen Witt por Mike McGregor/The Observer

Stephen Witt por Mike McGregor/The Observer

Um alemão e dois norte-americanos funcionam como os principais personagens do primeiro livro do jornalista Stephen Witt, Como a música ficou grátis: O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria. A obra acompanha a trajetória de três sujeitos completamente diferentes: o cientista Karlheinz Brandenburg, o operário Dell Glover e o executivo Doug Morris.

Como a música ficou grátis - CAPA simulação.inddO primeiro passa mais de uma década debruçado na possibilidade de reduzir o tamanho de ondas sonoras para o formato digital, sofrendo cobranças e derrotas ao tentar transformar o MP3, um formato de áudio desenvolvido por um instituto de pesquisas governamental, em algo que possa ser explorado comercialmente. O segundo trabalha em uma fábrica de CDs da PolyGram, no estado norte-americano da Carolina do Norte, empacotando produtos que serão lançados semanas depois de passar por suas mãos. O terceiro começa a ascender profissionalmente quando entende que os álbuns mais vendidos não são necessariamente os melhores, e se torna um dos maiores executivos que a indústria fonográfica já viu.

São três biografias que se misturam à medida em que a web e a banda larga se popularizam, no final do século passado, e, como anuncia a contracapa do livro, quando uma geração inteira passa a cometer o mesmo crime: baixar músicas de graça da internet. As mudanças transformam Brandenburg em um visionário e Morris em um pária dos negócios. Mas talvez a história mais intrigante narrada por Witt seja a de Glover, a quem se refere como “paciente zero da pirataria” — o primeiro sujeito a fazer os álbuns aparecerem on-line antes mesmo de chegarem às lojas, matando o CD e dando início à revolução digital.

Como a música ficou grátis é um raio X de uma era crucial não apenas na transformação (ainda em curso) da indústria fonográfica, mas também para entendermos outras mudanças (e polêmicas) causadas pela vida digital em áreas que não têm nada a ver com música — como o aplicativo Uber em contraponto à profissão de taxista, o serviço Netflix comparado à televisão tradicional ou o programa de troca de mensagens instantâneas WhatsApp como alternativa às operadoras de telefonia. Ao focar nos três personagens escolhidos, Witt vai além da invenção do Napster ou do processo contra  os hackers do The Pirate Bay para mostrar que essas transformações, na verdade, podem acontecer no coração da própria indústria. Conversei com o autor pelo telefone.

Karlheinz Brandenburg

O cientista Karlheinz Brandenburg por Fraunhofer IDMT

Alexandre Matias – No seu livro você conta a história de três figuras incríveis que não conhecíamos tão profundamente até a publicação. Qual delas você considera a mais importante?
Stephen Witt – A história de Dell Glover, que durante sete anos trabalhou em uma fábrica de CDs e vazou dois mil discos na internet, é incrível. Como ele trabalhava na linha de produção e tinha acesso a CDs às vezes meses antes do lançamento, ele acabou se tornando o ponto de origem de literalmente centenas de milhões de arquivos de MP3 que enchiam iPods por todo o planeta. Se os leitores têm alguns MP3 em seus computadores que eles não sabem de onde vêm, é provável que tenham saído dos vazamentos que Dell realizou no início da década passada. Ele é um cara fascinante, uma das melhores pessoas que eu conheço — e ninguém sabia de sua história.

Matias – Dell não estava sozinho nessa rede.
Witt – Sim, como digo no livro, era uma conspiração: havia caras no Japão que conseguiam CDs que eram lançados lá semanas antes do resto do mundo. Havia jornalistas britânicos que recebiam CDs antes do lançamento para escrever resenhas e acabavam vazando esse conteúdo on-line. Apresentadores de rádio, DJs. Havia caras na Itália que lidavam com a parte promocional na Europa… Era literalmente global.

E isso não acontecia só na música, mas também em outras áreas. Havia caras que entravam nos cinemas com filmadoras ou que conseguiam as cópias dos filmes destinadas aos jurados do Oscar. Tinha os que craqueavam DVDs e videogames e gente que trabalhava em emissoras de TV a cabo, que disponibilizavam, programas de TV on-line gratuitamente. Esse movimento se autodenominava The Scene (A Cena) e dispunha de pessoas espalhadas por todo o mundo, lidando com todo tipo de mídia.

Matias – É interessante notar como a internet nunca foi vista como uma ameaça pela indústria dos CDs.
Witt – A indústria andava bem preocupada com o gravador de compact discs porque sempre se preocupou com pirataria. Mas eles estavam tão focados nos gravadores que deixaram o MP3 passar. Se você for ler sobre quais eram os riscos que esses negócios temiam no final dos anos 90, vai ver que eles constantemente estavam preocupados com o gravador de CDs e nem sequer mencionavam o MP3. É porque isso já havia acontecido antes, nos anos 80, com o lançamento dos gravadores de fitas cassete com duplo deck, que permitiam às pessoas fazer quantas cópias quisessem. Aquilo afetou os lucros como eles achavam que o gravador de CDs fosse afetar.

O pirata Dell Glover por Jehad NGA/ The New Yorker

O pirata Dell Glover por Jehad NGA/ The New Yorker

Matias – Essa falta de percepção mudou completamente o mercado a ponto de tornar as grandes gravadoras obsoletas — pelo menos como as conhecíamos. Mas elas ainda são uma parte importante do mercado, diferentemente do que ouvíamos falar há dez anos, que a internet mataria a música…

Witt – Hoje em dia é muito mais fácil você trabalhar com música sem ter que se envolver com uma grande gravadora. Mas o lado ruim é que tem cada vez mais gente se lançando, são dezenas de milhares de álbuns novos todos os anos e eu nem sei por onde começar. O que a gravadora fazia, historicamente, era ter alguém que cuidava da direção artística, o cara de A&R (artistas e repertório), que funcionava como um filtro. Era um sistema muito corrupto, sei que não era o melhor cenário, mas era assim que eles faziam.

Agora é muito mais difícil conseguir se fazer ouvir no meio de tanto ruído, mesmo que seu trabalho seja incrível. Além disso, as gravadoras contam com marketing, publicidade, distribuição, desenvolvimento de carreira… Coisas que os artistas ainda querem. Consigo pensar em pouquíssimos artistas que realmente dispensam esse tipo de trabalho.

Matias – A internet acabou sendo uma desculpa perfeita para um modelo de negócios que vivia uma bolha financeira que inevitavelmente estouraria…
Witt – Olha só o que acontecia: por um bom tempo, eles vendiam álbuns ou compact discs com uma margem de lucro enorme. Nos Estados Unidos, um CD que era vendido por cerca de 14 ou 15 dólares custava 1 ou 2 dólares para ser produzido. E muitas dessas empresas eram movidas por artistas de um hit só, que tocavam muitas vezes no rádio. Dessa forma, as pessoas gastavam 14 ou 15 dólares em um disco que tinha uma ou duas músicas que elas realmente queriam ouvir. E as outras faixas nem eram ouvidas.

A mudança para o digital significou o fim dessa lógica. Se um artista só tinha um hit, você não precisava comprar o disco inteiro, e foi isso que matou o negócio. Na era do streaming, as pessoas pagam exatamente pelo que ouvem, e nada mais. Do ponto de vista do ouvinte é ótimo, é um bom negócio. Do ponto de vista da indústria é péssimo, porque todas aquelas músicas ruins que estavam sendo vendidas quase como lucro não serão tocadas nem farão dinheiro. Não há mais como disfarça-la.

Matias – A tecnologia também permitiu que mais gente conseguisse gravar com um padrão de qualidade antes restrito a poucos agentes da indústria fonográfica.
Witt – Sim. Se você olhar para sites como Soundcloud ou Mixcloud, a maioria dos artistas que estão hospedados ali é de amadores. Gente que ama música e que coloca suas faixas ali. Claro que alguns estão tentando fazer carreira como DJ, mas a maioria está lá apenas pela diversão. E como você disse, antigamente era preciso um estúdio grande e caro para conseguir boas gravações, mas agora é possível recriar toda essa tecnologia num laptop. Você baixa, sei lá, uma versão pirata do programa Live Ableton e dispõe da mesma tecnologia de ponta que um produtor classe A. É muito mais fácil, é realmente a democratização da cultura.

Matias – E o que você acha que aconteceu com a produção musical após essa mudança?
Witt – Acho que duas coisas estão acontecendo. Em termos de produção nós estamos em um estágio revolucionário. Há pessoas que estão fazendo coisas com áudio que não eram possíveis anteriormente e há muita gente experimentando, o que acho ótimo, é muito inventivo do ponto de vista sônico. O lado humano, por outro lado, se tornou completamente comercial, ninguém mais corre riscos artísticos, como os que Bob Dylan ou, do ponto de vista de vocês, brasileiros, Caetano Veloso, costumava correr. Não há mais ninguém assim atualmente. Talvez você tenha um Kanye West, mas ele não está correndo os mesmos riscos. Por isso a mensagem se tornou totalmente comercial e muito uniforme, a ponto de ser entediante. Então, ao mesmo tempo, estamos numa época sonicamente brilhante, e do ponto de vista lírico, bem rala.

O executivo Doug Morris por Sara Krulwich/The New York Times

O executivo Doug Morris por Sara Krulwich/The New York Times

Matias – Falamos hoje muito sobre a “revolução” da internet, mas toda a história da indústria fonográfica é composta por tecnologias que foram tão revolucionárias em seu tempo quanto a internet é hoje — pelo menos em relação à música.
Witt – Você está coberto de razão. Imagine ouvir o som gravado pela primeira vez — foi ainda mais revolucionário. Isso só aconteceu no começo do século XX. Minha geração já passou por quatro mudanças de formato: vinil para CD, CD para MP3 e agora MP3 para streaming. Cada uma dessas mudanças mexe não só na forma como as pessoas consomem a música, mas também na forma como a produzem.

Eu concordo que atualmente, principalmente agora, passados 15, 20 anos desde que começamos a usar a internet, as pessoas comecem a ter (não sei se é um movimento reacionário) uma espécie de ressaca. Houve essa abordagem “revolucionária”, que as pessoas compraram quando ouviram dizer que a rede mudaria suas vidas — o que realmente aconteceu. Agora tem muita gente se perguntando se valeu à pena. As pessoas estão começando a se sentir oprimidas pela internet e a música é uma das áreas em que vemos isso acontecendo.

Mas acho que é parte da história da tecnologia da gravação de áudio. Ela só tem cem anos e já passou por mudanças radicais. Acredito que os formatos estejam evoluindo para outra coisa, bem diferente de um suporte de armazenamento físico que você vai lá e compra. Não seriam nem algo que você possa possuir. É como se fossem uma utilidade, algo que você paga pela utilização, mais ou menos como a energia elétrica.

link-externoLeia um trecho de Como a música ficou grátis: O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria

Alexandre Matias, 40, é jornalista há vinte anos e cobre música, cultura e tecnologia para diversos veículos, com base em seu site pessoal, o Trabalho Sujo.