testeA justiça selvagem de Hugh Glass

Por Marcelo Costa*

THE REVENANT

THE REVENANT © 2016 Twentieth Century Fox Film Corporation. All Rights Reserved.

The Revenant, título original de O regresso, romance de Michael Punke que a Intrínseca publica agora no Brasil, diz respeito, segundo o dicionário Michaelis, “a uma pessoa que retorna após longa ausência” ou ainda “àquele que volta do túmulo, um espírito, um fantasma, uma aparição”. Na primeira edição do livro, lançada nos Estados Unidos em 2002, um subtítulo colocava um pouco mais de lenha na fogueira: “A Novel of Revenge”, um romance sobre vingança. Juntando os cacos espalhados até agora já é possível imaginar a trama que conduz a narrativa de O regresso, mas é importante observar que os fatos (verídicos) relatados no romance aconteceram nada menos que dois séculos atrás (193 anos para ser mais exato). Ainda que o sentimento que a palavra “vingança” evoca tenha permanecido imutável durante todos esses anos, o mundo mudou drasticamente — e o ambiente é um personagem coadjuvante de extremo valor nessa história.

Com isso em mente, o cineasta Alejandro González Iñárritu e o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki — responsável pelas imagens dos filmes Árvore da Vida (2011), Gravidade (2013) e Birdman (2014), entre outros — capricharam na estética do “personagem coadjuvante”, e se a adaptação cinematográfica (que colocou o livro novamente nas prateleiras) faturou três estatuetas no Globo de Ouro (melhor filme, diretor e ator), é fácil imaginar untitledque a fotografia também tenha destino certo na premiação da Academia. Aliás, O Regresso pode entrar para a história do cinema como o filme que dará a Leonardo DiCaprio seu primeiro Oscar (foi seu terceiro Globo de Ouro de melhor ator — os anteriores haviam sido por O Aviador, em 2005, e O Lobo de Wall Street, em 2014). Mas, ainda que isso aconteça, é importante frisar: esse é mais um caso clássico de livro muito melhor do que o filme. Ou quase isso.
Quase porque, na verdade, livro e filme vêm da mesma fonte, mas são obras distintas, com qualidades particulares. Se o filme tem a força da imagem (Lubezki choca a paisagem à contraluz de Árvore da Vida com os longos planos sequência de Birdman, num resultado arrebatador) e das grandes atuações, o livro é impactante por remeter a um diário romanceado dos pensamentos do personagem Hugh Glass, o homem de currículo invejável que sempre sonhou viver em alto-mar até ser sequestrado por um pirata lendário e ter seu futuro com uma bela mulher nublado. É este homem de coração partido que vagueia nas páginas do livro, perdido em um Novo Mundo, que cria pouco a pouco o mapa que conhecemos hoje, mas que, em 1820 (quando a história real se passa), era apenas um rabisco fruto da memória de vários caçadores.

A trama de O regresso começa no primeiro dia de setembro de 1823, uma segunda-feira sombria, embora, naquela época e no meio do Velho Oeste norte-americano, dias da semana não servissem para muita coisa. Mas, mesmo assim, é esse o dia em que Hugh Glass é abandonado por dois “companheiros” que, não bastasse a traição, ainda levam o que ele tinha de mais precioso: a espingarda e a faca. Nas condições em que se encontrava, um corpo absolutamente detonado, na fina fronteira entre a vida e a morte, após ter sido atacado por um imenso urso-cinzento (que, milagrosamente, ele conseguiu matar — ainda que tenha quase morrido junto), Glass não precisaria mais do armamento, justificaria Fitzgerald, um dos dois homens “escalados” para enterrar o companheiro, dando a ele uma despedida digna.

Colocadas as cartas na mesa, O regresso narra o processo de recuperação solitária do caçador Hugh Glass, que integrava a Companhia de Peles Montanhas Rochosas, após o ataque quase fatal do urso, e seu desejo de vingança, que o faz lutar por sobrevivência, enfrentando índios e o tempo cruel para concluir seus planos. A história verídica atravessou séculos e ganhou ares míticos. O romancista Michael Punke pesquisou a fundo a trajetória do caçador e alerta que o eixo central da trama é exato: o ataque do urso, o pobre homem deixado para trás pelos amigos em péssimas condições e o inevitável desejo de vingança. E o que há de ficção no romance é exatamente o que faz do livro uma obra mais interessante do que o filme: ao acompanhar a saga de recuperação de Hugh Glass, o leitor está confinado em seus pensamentos, e tudo que surge impressiona.

Mais interessante ainda é a recriação de época, algo que o filme compartilha, mas que o livro também exibe com força, pois se trata de hábitos há muito tempo deixados de lado por uma sociedade cada vez mais distante da natureza e dos enfrentamentos tão comuns daquele período. Outro ponto positivo da leitura: Michael Punke aprofunda vários personagens, numa reconstrução histórica que coloca em cena, por exemplo, o pirata corsário francês Jean Lafitte, que aterrorizou o Golfo do México no mesmo período em que Hugh Glass viveu e deixou a península de Galveston em chamas ao partir (a propósito, Nic Pizzolatto, o homem responsável pela série True Detective, escreveu um ótimo romance que se passa em Galveston, também publicado pela Intrínseca).

Você pode não acreditar em espíritos, fantasmas ou aparições, mas é bom ficar de olhos abertos, pois, como frisou o filósofo Francis Bacon em On Revenge, um dos capítulos de seu livro Ensaios, de 1625: “a vingança é uma espécie de justiça selvagem”, incutindo no ser humano uma inteligência crítica que às vezes faz falta. Segundo Bacon, a vingança é uma perversão da lei (o que, por sinal, tem a ver com o final do livro de Punke enquanto diverge de Iñárritu, que acrescenta elementos extras para tornar o ato mais factível). E ainda que Hugh Glass tenha atuado como pirata, sua busca por vingança é mais fruto dos desencontros da vida do que de maldade. Há diferença, mas a perversão da lei é a mesma… ainda hoje.

THE REVENANT

THE REVENANT © 2016 Twentieth Century Fox Film Corporation. All Rights Reserved.

Livro e filme, apesar de tratarem do mesmo tema, vingança, têm conclusões diferentes. Punke tentou ser o mais fiel possível à história real, enquanto Iñárritu apresentou uma história com início, meio e fim — não é à toa que o filme começa exibindo uma batalha anterior à narrativa do livro —, mas ambos criaram o personagem que acreditaram ser o mais plausível. O leitor, por sua vez, tem em mãos um diário de época incrível, retrato de um período histórico pouco explorado e muitas vezes esquecido. O resultado final é uma obra cujo texto pode ser complementado pelas imagens de Iñárritu e que transporta o leitor/espectador para um tempo distante, quando as regras da sociedade eram bem diferentes. Sombrio, agonizante e violento, O regresso utiliza um mundo que não existe mais para falar de um sentimento atemporal.

link-externoLeia também: O Regresso lidera as indicações ao Oscar 2016

 

Marcelo Costa é editor do site Scream & Yellum dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Notícias Populares, e dos portais Zip.NetUOLTerra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

testeO Regresso é o grande vencedor do Globo de Ouro de 2016

GloboDeOro

(Foto: REUTERS/Lucy Nicholson)

O Regresso, novo filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, foi o grande vencedor da noite de ontem, levando os três Globos de Ouro a que havia sido indicado: melhor filme (drama), melhor diretor e melhor ator principal. Em sua 11ª nomeação, Leonardo DiCaprio recebeu o prêmio pela terceira vez por sua interpretação de Hugh Glass, um caçador de ursos em busca de vingança.

Com estreia marcada para 4 de fevereiro nos cinemas brasileiros, O Regresso é inspirado no livro homônimo de Michael Punke que acaba de ser lançado pela Intrínseca.

untitledNa trama baseada em fatos reais, os caçadores da Companhia de Peles Montanhas Rochosas desbravam as terras inexploradas dos Estados Unidos no século XIX, enfrentando diariamente o clima implacável, os animais selvagens e a ameaça constante de confronto com os índios, que defendiam suas terras da invasão dos homens brancos.

Em uma das missões da companhia, Hugh Glass, um dos melhores e mais experientes caçadores do grupo, fica frente a frente com um urso-cinzento, é atacado e termina gravemente ferido, aparentemente sem chances de sobreviver. Os homens que deveriam esperar sua morte e lhe oferecer um funeral apropriado o abandonam, levando consigo as armas e os suprimentos. Entre delírios, Glass os observa fugindo e é tomado por um único desejo: vingança.

Veja todos os vencedores do Globo de Ouro 2016

testeO Regresso recebe 3 indicações ao Globo de Ouro

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O Regresso, novo filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu  — vencedor do Oscar de melhor filme e direção por Birdman (2014) —  acaba de ser indicado a três Globos de Ouro. Além de concorrer aos prêmios de melhor direção e de filme dramático, a história de vingança de um mercador de peles norte-americano no século XIX rendeu a Leonardo DiCaprio sua 11ª nomeação ao prêmio. O ator, que também foi indicado ao SAG Awards pelo papel, já levou dois Globos de Ouro por O Lobo de Wall Street (2013) e O Aviador (2004).

Com estreia prevista para fevereiro nos cinemas brasileiros, O Regresso é inspirado na história real do caçador de ursos Hugh Glass narrada por Michael Punke no livro homônimo que será lançado pela Intrínseca em janeiro.

Protagonizado por Bryan Cranston, astro da série Breaking Bad, Trumbo é outra história real que chegará aos cinemas e às livrarias em 2016. No filme dirigido por Jay Roach (Virada no Jogo), o ator revive Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas da história do cinema, autor de épicos como Exodus, Spartacus e Papillon, conhecido como o homem que rasgou a Lista Negra de Hollywood — mantida pela indústria de entretenimento para boicotar artistas indiciados pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, a caça aos comunistas liderada pelo senador McCarthy na década de 1950.

Helen Mirren concorre ao prêmio de melhor atriz coadjuvante pela interpretação da atriz Hedda Hopper na trama. O filme, que também foi indicado nas categorias de melhor elenco, ator e atriz coadjuvante no SAG Awards, chega ao Brasil em fevereiro. O livro de Bruce Cook que o inspirou será publicado em janeiro pela Intrínseca.

Steve Jobs, cinebiografia do cocriador da Apple, concorre nas categorias de melhor ator (Michael Fassbender), roteiro (Aaron Sorkin) e melhor atriz coadjuvante (Kate Winslet). A transformação do jovem gênio detestável no CEO maduro que revolucionou a indústria de tecnologia é narrada em Como Steve Jobs virou Steve Jobs, única biografia do inventor que teve contribuição dos mais altos executivos da Apple, entre eles o atual CEO Tim Cook.

“Love Me Like You Do”, interpretada por Ellie Goulding na trilha sonora de Cinquenta tons de cinza, disputa a categoria de melhor canção original. Já Orange Is The New Black concorre pela terceira vez ao prêmio de melhor série de comédia ou musical. Uzo Aduba, a Crazy Eyes, também recebe sua terceira nomeação para a disputa de melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou filme para TV. Joanne Froggatt, a Anna Bates de Downton Abbey, que venceu essa categoria na última edição, disputa pela segunda vez.

A cerimônia da 73ª edição do Globo de Ouro acontece em 10 de janeiro. Confira a lista completa dos indicados.