testeBordando a vida

Viajo por dez dias e, na volta, encontro tudo igual, talvez um pouquinho pior: tristes declarações da nossa presidente apoiando as barbáries do MST e mais um atentado absurdo em Jerusalém. Aqui em casa, tirando a morte de uma das plantas da minha varanda, tudo segue harmoniosamente igual.

As manchetes de jornal, já velhas, esperavam-me sobre a escrivaninha quando cheguei, e num ZH de domingo encontro uma matéria interessante sobre “as prendas femininas”. Dessas férias, eu trouxe uma sacola de lãs para tecer no inverno que se aproxima. Sempre trancei agulhas ¾ de pequena, minha mãe me ensinou a tricotar. Ela dava lãs para as três filhas, e nós mesmas fazíamos nosso guarda-roupa de inverno.

Era lei lá em casa, e aprendi muito naquelas noites entre meadas e fios. Engraçado que bordar, tricotar e costurar tenham sido afazeres crucificados até pouco tempo atrás. É verdade que, durante muitos anos, o feminismo e o capitalismo não admitiam que mulher produzisse para consumo próprio. Bordar, só se fosse na fábrica, para não deixar morrer de fome os cinco filhos analfabetos.

Não tenho nada contra mulheres que não gostam de tricotar ou cozinhar ¾ cada um faz o que quer com o tempo livre, inclusive nada, o que sempre é uma boa alternativa. Mas não compreendo a vergonha que alguns veem no exercício dessas “habilidades tipicamente femininas”.

O trabalho manual guarda em si um alento, um abandono, um recanto no qual os pensamentos fluem, dão voltas junto com a linha e transcendem. Sempre pensei muito enquanto bordava. Aliás, foi atrás de uma máquina de costuras que enveredei pelo caminho inexorável das histórias, pois eu tinha uma confecção quando comecei a escrever meu primeiro livro.

É bem verdade que bordar sempre clareou minhas ideias. E não só as minhas — tenho várias amigas (arquitetas, fotógrafas, publicitárias, advogadas) que nas horas vagas também empunham suas agulhas assim como faziam suas avós donas de casa, assim como fazia Penélope esperando o retorno do seu Ulisses. Se durante algum tempo nos envergonhamos disto, do talento das mãos para a criação, isso ficou no passado.

Seria tão ridículo quanto se envergonhar do nosso próprio ventre fecundo.“Eu gosto da metafísica, só pra depois. Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz. Falar as falas certas: a de Lurdes casou, a das Dores se forma, a vaca vez, aconteceu. As santas missões vêm aí, vigiai e orai que a vida é breve”, pois o feminino se encontra em muitas coisas, assim como na voz de Adélia Prado.

testeAdélia Prado e a tristeza

coluna 10_adelia_pradoEu sou uma grande fã da Adélia Prado ─ seus poemas têm me acompanhado ao longo dos anos, exercendo sobre mim um misto de encantamento e efeito curativo, seus poemas são como o tempo, como a noite, como o mar. A própria Adélia tem duas qualidades que eu considero fundamentais ─ talento e simplicidade. Oh, boa Adélia, que se parece um pouco a minha sogra, que se parece um pouco a minha mãe, que se parece comigo, com você, com todos nós naquilo que a nossa vida tem de mais cotidiana, de mais comum, de mais nitidamente real. Adélia Prado é uma força da natureza. Pois, dia desses, vi a Adélia falando lindamente sobre a tristeza ─ e fiquei matutando no que ela disse, e tanto que agora estou aqui desfiando essas linhazinhas.

“É preciso viver a tristeza, ela faz parte da vida, assim como a alegria”, foi o que ela falou a respeito de si própria, de uma depressão que teve, depressão essa que durou dois anos, durante a qual “Deus lhe tirou a poesia”. Ah, que  belas e duras as palavras de Adélia, que faz poesia até quando não faz, até quando fala.

Hoje em dia, todo mundo tem muito medo da tristeza. Hoje em dia, medica-se a tristeza como se doença ela fosse  ─ a tristeza, quando vem, assim como a dor de cabeça ou a dor de ouvido, é um aviso de que alguma coisa, grande ou pequena, não está bem. Por que é que a gente não escuta mais a nossa tristeza, por que é que temos de calá-la, esta visita inesperada, resmungona, teimosa, antes que ela nos diga, afinal de contas, a que veio? Às vezes, um bom e honesto papo com a tristeza pode nos levar adiante  ─ e o que é a vida, senão um eterno dobrar de esquinas, uma caminhada surpreendente na qual mudam as paisagens, os sonhos e as companhias  ─ encontrar a tristeza numa ruazinha da existência e dar uma ou duas voltas na quadra de mãos dadas com ela pode ser difícil, mas também renovador.

Adélia Prado ficou dois anos vivendo uma depressão que lhe roubou do poema, depois fez as pazes com a alegria e voltou a escrever (para a nossa sorte, amém). Como cantou o Tom Jobim, é melhor ser alegre que ser triste  ─ mas, às vezes, canto eu, é preciso passar por uma coisa para se chegar à outra.

Leticia Wierzchowski é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.