testeDespedida

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Nos últimos meses, Miguel Sanches Neto escreveu aqui no blog uma coluna que começou tratando de seu romance A segunda pátria e depois derivou para assuntos relacionados à escrita. Agora, ele se muda para Braga, em Portugal, onde ficará por um ano dedicando-se a um estágio de pós-doutorado sobre a obra de Graciliano Ramos e Eça de Queirós, obrigando-se, assim, a interromper a colaboração. O texto de despedida é um conjunto de 30 aforismos do autor.

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Aqueles que odeiam nunca tiram férias.

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Se apenas uma pessoa desfrutar da beleza ainda assim ela será eterna.

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Revisar um livro de sua autoria é olhar-se minuciosamente no espelho, tentando identificar as imperfeições do próprio rosto.

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Pertencia à espécie dos que nada esperam.

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Ninguém nunca convence aqueles que têm os próprios interesses.

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As terras mais distantes em que estive se chamam infância.

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O memorialista faz turismo em si mesmo.

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Aqueles que não puderam nascer riem de nossos desesperos.

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Faz bem para a carreira literária morrer de tempos em tempos para ter a obra avaliada.

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Os surdos intelectualmente não dialogam.

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Toda e qualquer certeza é uma forma de surdez.

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Há o escritor por insight e o escritor por insistência: um tem uma inteligência felina; o outro, uma inteligência bovina.

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Fazer sempre protestos, primeiro contra nós mesmos.

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Escrever um romance equivale a estar apaixonado por alguém que nos aguarda: queremos voltar quanto antes para casa.

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O protesto pelo protesto é uma forma infantil de enfrentar problemas.

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Só é possível continuar amando uma pessoa enquanto ela tiver espaços não explorados.

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São os livros que escrevemos que, na verdade, nos escrevem.

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Na esfera política, todo monstro se fantasia de vítima.

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Não existe maior protesto do que pensar.

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A literatura não entra em mentes literais.

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A situação ideal do leitor é viver internado. Em si mesmo. Na biblioteca. No próprio quarto.

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Não confundir preguiça com paciência nem dedicação extrema com pressa. Todo artista tem um ritmo que o inventa.

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Nossa maior responsabilidade é com nossa vocação primeira. Não cultivá-la seriamente é um crime de lesa-pátria. A nossa pátria interior.

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É preciso fazer política sem se fazer político.

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Em textos literários, o uso de Photoshop é liberado.

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Afirmação de identidades problemáticas:

No vidro traseiro de um carro ferrugento, o proprietário escreveu: SOU POETA.

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Alguns escritores param de escrever ou começam a se repetir na maturidade talvez por se desinteressarem pelas gerações mais jovens.

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O tempo desenha em nosso rosto as sombras de um morto.

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Toda obra de arte é financiada pela dádiva.

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Ter poucas paixões mas intensas, para que uma vida seja suficiente.

testeA bondade nos tempos de guerra

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O tema mais presente na literatura e no cinema do século XX é a Segunda Guerra Mundial, o que exige muita criatividade de escritores que queiram se dedicar a ele. Momento de perigo em que o planeta teve consciência de sua unidade, este é o nosso primeiro grande episódio universal, determinando o início da preocupação sobre os rumos do planeta. Em Toda luz que não podemos ver, o norte-americano Anthony Doerr explora as periferias do conflito, em um romance espetacularmente bem construído. Suas opções revelam antes um desejo de compreender o período do que de acusar grupos em bloco.

Para isso, Doerr escolhe como cenários originais dois lugares distantes dos epicentros da guerra. Zollverein, um complexo de mineração perto de Essen, na Alemanha; e a cidade murada de Saint-Malo, na região francesa da Bretanha. O romance todo transcorrerá dentro de uma lógica binária, alternando temporalidades e capítulos que falam da Alemanha e do avanço do nazismo com outros que tratam da França e da resistência. Com isso, não se tem uma visão única do conflito, mas pontos de vista que se complementam, criando um conhecimento em profundidade do cotidiano dos dois lados.

tmb_capa-todaaluzO que solda afetivamente essas duas localidades é o rádio. Em Zollverein, os órfãos Werner e Jutta ouvem um programa transmitido de Saint-Malo, adquirindo um sentimento francês pela música e por aulas de ciência. Pela primeira vez na nossa história houve a possibilidade de eventos distantes serem vivenciados contemporaneamente. Um exemplo nacional é o do poeta mineiro Murilo Mendes, que presenciou o avanço dos alemães por meio do rádio, o que mostra o grau de globalização empreendido por esta invenção: “No ato de bombardear Paris destelhavam a casa de meu pai”, diz o poeta em “Fragmentos de Paris”. A casa de seu pai ficava em Juiz de Fora, mas estava colada à capital francesa, fazendo parte dela.

Recuperando este clima de múltiplo pertencimento pela tecnologia que une pessoas, Toda luz que não podemos ver se constrói em torno das ondas do rádio, que levam coisas belas e informações vitais, mas que também servem para transmitir ordens de bombardeio. Entre uma coisa e outra, uma história intensa acontece.

Werner, um órfão inteligente, vai ser preparado em uma escola militar nazista e se torna uma autoridade em transmissores. Conhece o lado perverso dos seguidores do Führer, mas nunca deixa de ser alguém sensível aos sofrimentos humanos. Destacado para a batalha, entra em uma equipe para localizar transmissores que passam códigos contra a Alemanha.

No outro polo, a menina Marie-Laure, a filha cega do guardião das chaves do Museu de História Natural da França, tem que abandonar Paris, que está sendo evacuada com a chegada das tropas de Hitler. Seu pai, um artesão primoroso, constrói uma réplica da cidade em madeira para que ela possa aprender pelo tato a se localizar — ela tem assim as ruas nas pontas dos dedos. Como a réplica de Paris já não pode ser usada, pai e filha partem em busca de um lugar seguro, carregando consigo o objeto mais precioso do Museu para proteger assim este patrimônio dos saqueadores nazistas. Eles levam uma pedra muito valiosa, envolta em mitologia, o Mar de Chamas, que teria a propriedade de dar imortalidade a quem o possuísse. Em suas andanças, acabam em Saint-Malo, na casa de seus antepassados.

Neste mundo em dissolução, do qual as pessoas são expulsas gratuitamente, há a construção de uma rede de relações duradouras. Anthony Doerr ergue um enredo em que o vínculo é muito maior do que a força destrutiva. Tanto entre os franceses quanto entre os alemães, ele encontra personagens do bem tentando neutralizar as ações perversas da ideologia nazista que empurrava todos, indistintamente, para a frente de batalha.

Por isso, depois de tudo virar passado, quando as pessoas reconstruíram suas vidas e as cidades, o narrador diz: “A bondade, mais do que qualquer outra coisa, é o que perdura”. Esta afirmação nos permite dizer que Toda luz que não podemos ver é um romance sobre a bondade no tempo em que o mal se movia insanamente pelo mundo.

Pelo rádio, dois destinos se cruzam, dois países se encontram, criando uma identificação inquebrantável. Escritas em capítulos curtos, as histórias começam paralelamente para acabarem sobrepostas, num símbolo desta união total. Com grande domínio narrativo, Anthony Doerr faz com que a Segunda Guerra Mundial não seja um estereótipo militar, desvelando pessoas em carne e osso, sonhos e recordações, pessoas que continuam vivas como ondas magnéticas, vagando pelo ar, mesmo depois de mortas.

 

link-externoLeia também:
Conheça o vencedor do Pulitzer Anthony Doerr
Trecho de Toda luz que não podemos ver

testeO pior apóstolo

Dalton Trevisan nos anos 1990

Dalton Trevisan nos anos 1990

Depois de um período de amizade e de convivência literária, Miguel Sanches Neto e Dalton Trevisan se desentenderam. Sanches escreveu um romance que ficcionaliza esta relação, mas inicialmente não o publicou. Trevisan conseguiu acesso forçado aos originais e fez uma peça acusatória contra o ex-amigo, determinando assim a publicação do polêmico Chá das cinco com o vampiro. É sobre esta relação de conflito e de admiração que tratam os trechos inéditos dos diários do autor de A segunda pátria. 

 

12 de fevereiro de 2009 – quinta-feira

O falso ladrão
Na livraria do aeroporto de Curitiba vi um livro novo de Dalton Trevisan – Duzentos ladrões (L&PM). Intuí que um texto contra mim estaria lá. Estava. Com isso, não tenho mais nenhum compromisso ético com ele. A ofensa pública se iniciou com Dalton. Devo agora publicar sem receio o romance Chá das cinco com o vampiro e também meu texto-resposta a estes xingamentos — “Corujinha constipada” [que continua inédito].

 

12 de outubro de 2009 – segunda-feira

Zumbi
Li os contos cheios de estereótipos de Violetas e pavões, de Dalton Trevisan. Apenas dois são bons — “As desgraças de Zeno” e “Lábios vermelhos de paixão”. Nenhum ótimo. Repetição de histórias, de termos, de lógicas narrativas. Muda um ou outro contexto. No meio dos contos, farpas gratuitas contra os inimigos. Na página 126, ele me apresenta como traidor. Sou o “Migué”, numa referência depreciativa a meu nome e à minha origem interiorana. Literariamente, ele passou de vampiro a zumbi.

 

30 de março de 2010 – terça-feira

Oportunista
A revista Bravo! me convidou para escrever um perfil de Dalton Trevisan. Recusei a proposta, pois seria acusado de oportunista. Este será o mantra entoado contra mim: oportunista, oportunista, oportunista…

 

16 de outubro de 2010 – terça-feira

Como morrem os escritores
Aos poucos, muitos escritores contemporâneos e que me eram próximos vão deixando de existir para mim. De repente, um escritor soa falso e nada mais que ele escreva me seduz. Dalton Trevisan e eu estamos em pé de guerra, mas sinto a verdade de seus livros. É um jogo de vida ou morte da linguagem cada livro seu. É nestes autores que devemos ancorar. Nenhuma linha que não seja de luta contra o nada que nos espera.

 

1º de abril de 2011 – sexta-feira

Rearranjos textuais
Terminei de ler Nem te conto, João, a novelinha pré-fabricada de Dalton Trevisan. O que me encanta é o grau de mobilidade de seus textos, que se prestam a rearranjos contínuos. A novela é uma reorganização de trechos de contos do velho safado com uma mocinha audaz. Não apresenta novidade de conteúdo, mas é um novo método para a obtenção de livro.

 

19 de julho de 2011 – terça-feira

Primeiro encontro com Trevisan
Saindo do prédio da UFPR, em Curitiba, encontrei-me com Dalton Trevisan. É a primeira vez que o vejo desde que o romance foi publicado. Ele está firme, com o mesmo aspecto, apenas os cabelos mais brancos. Não me viu – eu estava em um grupo. Ele mostrava algo a uma mulher — vinham do almoço. E me senti de novo o discípulo diante do mestre — dez anos depois. Era como se eu tivesse encontrado o grande escritor pela primeira vez, um grande escritor pela primeira vez. Como somos pequenos diante de um mestre mesmo quando este se encontra no poente de sua criatividade.

 

11 de novembro de 2012 – terça-feira

O velório do vampiro
Esta noite sonhei que Dalton Trevisan havia morrido. Mais especificamente, ele se matara. Fui ao seu velório, encontrando-o com as pernas amputadas, o rosto muito magro. Por isso tomara veneno. Na capela mortuária, recebo dois pacotes. Em um deles, com uma capa de plástico transparente cheia de lápis (igual aos de minha coleção), um livro inédito — as suas memórias. Quando o abro, os lápis da capa — todos da mesma cor: laranja — caem. Não me importo, continuo lendo. É uma obra estupenda. O melhor livro do mestre. No outro pacote, o boneco plástico de um cachorro (ele sempre amou os cães) e uma sacola de pães frescos — a Santa Ceia do vampiro, eu no papel do pior apóstolo?

testeMinimuseu da escrita

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Esta semana, levei um susto com um pequeno episódio que embaralhou minha percepção do tempo. Ao receber uma correspondência, vi que meu nome e meu endereço estavam datilografados. Por uns segundos, fiquei sem saber em que ano do passado eu me encontrava.

Foram centenas de cartas recebidas com o preenchimento do envelope por máquinas que imprimiam palavras borradas. Depois, este tipo de coisa foi ficando cada vez mais raro. Meus últimos correspondentes que usavam este meio mecânico de escrita ou morreram ou migraram definitivamente para o computador. Acho que o derradeiro foi Luiz Vilela, que me manda agora e-mails muito bem escritos, com espaçamentos, cabeçalhos e todos os rituais da correspondência tradicional. Mudou o meio, mas a forma ainda é a de antes.

Wilson Martins me mandava cartas datilografadas.

Ele morreu em 2010.

Dalton Trevisan me remetia envelopinhos lacônicos.

Nossa amizade morreu em 2001.

O meu é um mundo em ruínas.

Na era mecânica, escrever um romance demandava uma engenharia complexa. Datilografado um capítulo, se queríamos acrescentar um parágrafo, batíamos numa outra folha, recortávamos a página em que ele entraria, colávamos o pedaço. Os datiloscritos, a primeira versão industrial dos manuscritos, tinham tamanhos irregulares. Muitas vezes, cortávamos parte do papel, deixando-o pitoco. Os originais eram sujos, muito sujos.

Nunca fui bom datilógrafo, mas caprichava neste trabalho. Guardo apenas um desses originais à máquina — o de meu primeiro livro, Inscrições a giz, que ganhou o prêmio Nacional Luiz Delfino de 1989. Mera curiosidade de uma idade extinta.

Quando peguei o envelope recebido esta semana, revivi num átimo todas essas velhas sensações. O remetente era um sebo de Poços de Caldas. Ah, esses mineiros resistem firmes à passagem do tempo.

Recortei o envelope para guardar, talvez fosse minha última correspondência num sistema de escrita que tem um valor imenso para mim. Um capítulo de meu romance de estreia (Chove sobre minha infância) é sobre como aprendi a datilografar, conseguindo assim sair de uma família destinada a trabalhos braçais. Criei um romance em torno do inventor brasileiro da máquina de escrever (A máquina de madeira) e vivo à sombra de três máquinas portáteis, com função memorialista. Elas ficam no balcão ao lado de minha mesa — a minha inseparável Lettera 35, uma Hermes Baby de teclas verdes e uma Tippa, alemã, de teclado de código, usada para mensagens cifradas.

É meu minimuseu da escrita mecânica.

Mas leio hoje que a nova moda entre os hipsters — grupo que rejeita o mainstream — é usar máquinas portáveis em lugares públicos, e postar fotos na internet deste anacronismo tecnológico.

E isso me deu uma alegria muito grande. Aquele meu velho universo de formação ainda comporta alguma possibilidade de ressurreição.

testeDesejo de isolamento

infancia

A primeira tendência de um escritor, depois que entrega o seu livro à editora, é de se esconder, fugindo de todo contato humano, para lamber suas feridas, para não ter que ouvir o que os outros pensam desta sua nova criação. O escritor não quer ser julgado, quer ser amado, mesmo quando seu livro é uma provocação.

Em criança, participando de conflitos com vizinhos, era comum jogar pedras nas casas de madeira dos nossos inimigos para depois fugir. Eu não fugia apenas. Ia para debaixo de minha cama, chegando uma vez a dormir lá por algum tempo.

Pensando que eu tivesse abandonado a família, certa vez minha mãe convocou a ajuda de suas colegas, procurou nas imediações, perguntou aqui e ali pelo menino irritadiço que havia se desentendido com os companheiros de jogos e expedições pela quadra. A quadra era o nosso país; raramente saímos dela.

Deitado no assoalho de madeira, vendo o estrado da cama, a colcha fechando o acesso àquela caverna doméstica, eu sonhava com uma proteção contra aqueles que havia desafiado. Era uma sensação boa, de acolhimento. Ali, ninguém me acharia. Estava em meus domínios. Havia abandonado os desafetos e vagava pelo mundo, descansando desta jornada num buraco longe de tudo.

Acordei no final da tarde, já esquecido de meu bombardeio na verdade inofensivo. O mundo não me assustava mais. Podia percorrê-lo como um herói altivo. Ao sair de debaixo da cama, fui direto para a cozinha, onde minha mãe se encontrava, desolada pelo desaparecimento do menino. Ela me recebeu com um sorriso, pediu um abraço, não me censurou nem pela confusão que criei com os moradores ao lado nem pelo meu longo desaparecimento. O filho pródigo voltava à casa materna. Ela me pediu para tomar banho enquanto preparava uma sopa ou um de seus pratos rápidos para a janta.

Quando sai um novo livro, que é sempre uma pedra no telhado das casas vizinhas, não posso mais correr para meu esconderijo. O escritor tem que fazer o lançamento, conversar pela internet com os leitores, dar entrevistas a jornalistas, ler e agradecer o que escreveram sobre ele, explicar-se diante de eventuais incompreensões. Mas não deixo de alimentar este desejo hoje impossível de isolamento.

testeCENAS DOMÉSTICAS

Entradas sem data de um diário da rotina do escritor.

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O mau marido

Passei boa parte do feriado com minha mulher e minha filha, cuidando de pequenos serviços — fui à feira e ao mercado, pendurei quadros na parede do quarto de meu filho, ajudei a fazer o almoço de domingo para uns amigos, lavei louça… Um marido como qualquer outro, sem esta semente da insânia que súbito cresce e se torna insuportável.

 

Ligadão

Faz três noites que não consigo dormir. A insônia é como uma fome, uma fome de vida. Diante de tantas coisas para fazer, não consigo sossego de alma para descansar. Fico algumas horas me virando na cama, daí me levanto e me dedico à leitura, a escrever, a responder e-mails. Faço de tudo para tentar pegar no sono — como, bebo chá, leio coisas amenas. Nada, no entanto, me sacia. Passo o dia todo com o corpo doído, trabalhando em mil coisas, sem sentir sono.

Já tomei bebidas à noite, para desmaiar. Mas o álcool, depois de umas duas horas, perde o efeito letárgico e me volta, feroz, a insônia.

 

Com o filho no colo

Sábado é sempre dia das tarefas familiares. Foi assim ontem. Depois do almoço, tentei escrever minha crônica. Impossível. Os jardineiros trabalhavam no quintal e me sinto constrangido por não cuidar nem das plantas de casa. Juliana me trouxe o Antônio para poder ir à floricultura. E Antônio chorou enquanto eu tentava escrever com ele no colo.

Assim que dormiu, chegou minha filha querendo conversar. A crônica estava comprometida. Quando pude me dedicar ao texto, a coisa já não funcionava. Só consigo escrever num único fluxo, sem interrupção e sem a presença de ninguém. Preciso anular o mundo ao redor, apagá-lo tão completamente que só existam as palavras que digito. Qualquer presença, mesmo a voz de um vizinho, me afasta do texto. Não posso interromper a escrita também, pois daí fica difícil retomar o ritmo.

 

Remendos

As tarefas de ontem me deprimiram. Ao menor sinal de dificuldade, entro em depressão, pois não suporto o confronto com a impotência. Hoje, depois de ler por algumas horas, durante a madrugada, voltei ao tema da crônica e a concluí. Não ficou boa, mas consegui salvar a ideia. Para mim, será um texto cheio de remendos, uma peça menor. Raramente isso me acontece. Mesmo com os romances, não perco o ritmo. Perder o ritmo é perder tudo, pois quando escrevo é o ritmo que me escreve. Intuição, associações livres de ideias, acasos e acidentes determinam minha literatura. Sinto que sou menor do que aquilo que escrevo.

testeBiografia de um livro: o romance começa a ser lido

O romancista sai de cena para que os leitores se apropriem, cada um à sua maneira, do livro.

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17 de março de 2015 – terça-feira
A segunda pátria saiu da gráfica ontem.

18 de março de 2015 – quarta-feira
Na Gazeta do Povo, chamada de capa para o romance. E capa de caderno. Além da tradicional entrevista, uma resenha competente do livro, vendo o amor impossível como forma de enfrentar os preconceitos. É uma boa chave de leitura.

19 de março de 2015 – quinta-feira
Aceitei escrever um conto para a revista Superinteressante, uma história que funcione como ramificação de meu romance. Folheei os cadernos de anotação da escrita e achei alguns núcleos narrativos não explorados. Escreverei o conto, divulgando assim o universo do romance. Será, talvez, o primeiro caso no mundo de um conto-reclame.

22 de março de 2015 – domingo
Escrevi o conto “À luz do dia” que retoma o episódio de A segunda pátria. Minha filha, leitora da Superinteressante, leu e aprovou. Vou deixar descansar, revisar e mandar para a revista no meio da semana.

29 de março de 2005 – domingo
No Valor Econômico, uma resenha muito favorável de Luís Antônio Giron, situando o livro e o autor. Cristovão Tezza leu o livro pelo Kindle e me mandou e-mail dizendo que é uma leitura irresistível, não dá para parar. Ainda não vi o livro, mas as pessoas já estão lendo.

30 de março de 2015 – segunda-feira

Chegaram os exemplares de A segunda pátria. Ficou uma edição bela e sóbria.

1º. de abril de 2015 – quarta-feira
Enviei convites para o lançamento. Um trabalho chato, meio constrangedor, mas ao qual me entrego um tanto por vaidade. Nenhum escritor quer solidão na hora do lançamento. Solidão só na escrita.

5 de abril de 2015 – domingo de Páscoa
No final da tarde, soube que saiu matéria sobre o livro no caderno Aliás, do Estadão. Bela resenha de Dennison de Oliveira, localizando historicamente a narrativa. Estes textos positivos criam uma fundação para outras leituras. Textos negativos virão, mas já encontrarão algo construído.

16 de abril de 2015 – quinta-feira
Sobre o livro, me escreve Domingos Pellegrini: “Uma textura intensa de sensações, impressões e emoções, que envolve e excita”. Um alento para o romancista desconfiado.

22 de abril de 2015 – quarta-feira
Entrevista tranquila e competente, como sempre, para Edney Silvestre – Globonews Literatura. Perguntas que permitiram falar bastante do livro.

9 de maio de 2015 – sábado
Em O Globo de ontem, Ancelmo Gois noticiou que o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, comprou os direitos de A segunda pátria para transformar em série de tevê ou em filme. Com isso, o livro talvez conquiste outro patamar de leitura.

testeBiografia de um livro: O romance entra em cena

Quando uma narrativa que foi tão longa e solitariamente meditada está prestes a ir para as livrarias, o romancista é tragado pelo mundo paranoico que ele mesmo criou.

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6 de fevereiro de 2015 – sexta-feira

Cheguei ao Rio para uma reunião com a equipe da Intrínseca sobre o lançamento de A segunda pátria. Todos estavam muito bem-informados sobre o livro e fizeram comentários pertinentes. Vamos alimentar o blog da editora com material sobre o romance, haverá booktrailers, marcadores e folders para distribuição nas livrarias. Dedicarei o semestre à divulgação do livro. Nunca pude fazer isso.

9 de fevereiro de 2015 – segunda-feira

Escrevi a primeira colaboração para o site da Intrínseca. Esta seção vai se chamar “Biografia de um livro” – só com trechos destes diários.

13 de fevereiro de 2015 – sexta-feira

Semana de tumulto. Greve dos professores e funcionários estaduais do Paraná. Reuniões, debates, conversas. A ficção se torna um grande desafio ao escritor. Deixar de lado todos os problemas e criar horários vagos para habitar o mundo da imaginação. Por mais difícil que seja, esta é uma provação necessária. Ou escrevemos mesmo quando o temporal destrói nossa casa ou não somos de fato escritores.

Jornais manifestam interesse por A segunda pátria. Hoje saiu o release da editora. O que for soará, como diz Dalton Trevisan.

18 de fevereiro de 2015 – Quarta-feira de Cinzas

Trabalhando no carnaval, mesmo meio adoecido. Concluí a seleção inicial dos trechos deste diário sobre A segunda pátria. Serão sete blocos, um para cada fase da escrita.

23 de fevereiro de 2015 – segunda-feira

Saiu hoje no site da Intrínseca o primeiro conjunto de entradas deste diário sobre a escrita do romance. O livro entra em cena agora.

Às vezes, tenho pesadelos reais, muito intensos, em que estou sendo perseguido por conta desta história. Como se os nazistas por mim inventados ainda estivessem no poder.

10 de março de 2015 – terça-feira

Dedico-me aos contatos jornalísticos sobre o lançamento. Respondi a uma entrevista sobre o romance. As entrevistas são uma obra literária em paralelo.

11 de março de 2015 – quarta-feira

Nesta madrugada, tive outro sonho terrível do qual não me lembro bem, mas em que eu sofria a perseguição dos nazistas. Acordei em pânico, com taquicardia, tendo que tomar remédio.

Antes de dormir, ontem, revisei a entrevista e devo ter ficado muito preso às cenas do livro. O pesadelo e a crise de pânico criaram o receio quanto à repercussão do romance, que pode ser julgado sem ser lido. Só me livrei deste receio à tarde, quando concluí que a única resposta a este tipo de leitura literal é que o meu é um livro de literatura, uma história de amor inter-racial em um tempo de crença na eugenia.

testeNazificação versus nacionalização

O romancista trata da especificidade de seu livro, que só poderia transcorrer num país que, desde sua fundação, manteve uma visão escravagista do negro.

CapaAberta_SegundaPatria_Site

Silenciamento

Em vários momentos da pesquisa para o romance, eu me deparava com uma bibliografia consistente sobre o processo de perseguição aos alemães por parte de Getulio Vargas. Este é o grande tema quando se fala da Segunda Guerra Mundial nas comunidades estrangeiras do sul do Brasil.

Comecei a perceber o que poderíamos chamar de um apagamento do namoro do Brasil com a ideologia nazista. Muitas pessoas eram declaradamente nazistas – não só alemães, havia também nazistoides de outras etnias. Mas a propaganda e as ações desse grupo foram historicamente minimizadas.

Ao buscar análises sobre o período, encontramos quase que apenas material sobre o trauma sofrido por conta do processo de nacionalização imposto por Getulio. Não se fala das práticas nazistas, mas do sofrimento de quem era estrangeiro depois que o Brasil se alinhou aos Estados Unidos. Os documentos que sobraram de propaganda nazista não foram traduzidos para o português. A maioria foi destruída. Um exemplo: não se tem acesso em português à literatura de divulgação do nacional-socialismo produzida pela poeta Maria Kahle (1891-1975), encarregada de fazer a propaganda nazista nas colônias brasileiras.

Discurso racista

Entendendo os anos 1930, quando parte de nossa elite intelectual defendia o branqueamento da raça, numa crença na eugenia que Machado de Assis havia ridicularizado em O alienista, é possível compreender como um discurso racista está arraigado em nossa identidade. Este discurso foi muito forte antes da revelação dos horrores nazistas e continua presente, de forma subliminar, em muitas defesas de um outro Brasil.

A segunda pátria se propõe a provocar, mesmo que de forma neurótica, um desvelamento da extensão brasileira do nazismo, algo exagerado no final de Segunda Guerra Mundial pela polícia do Estado Novo, e depois sistematicamente apagado da produção brasileira. Uma exceção é o filme Aleluia, Gretchen (1976), de Silvio Back, que escancara esta ligação.

link-externoConheça o site especial de A segunda pátria

Nazistas e integralistas

Para restaurar como pesadelo aquele momento de uma possível dominação názi, voltei-me ao tom alarmista da polícia de Getulio Vargas no período de nacionalização. O Brasil nazificado, em meu romance, é instalado a partir de uma união de integralistas, fascistas e nazistas, que chegam ao centro do poder, cooptando simpatizantes das principais etnias brancas.

O motor oculto

Ao mexer com o tema, sabia que o assunto era tabu, com pouca produção reflexiva fora daquela nascida dos laços de sangue. Estuda-se bastante a “nacionalização”, quando se impôs o português aos núcleos alemães e italianos que falavam apenas as suas línguas europeias. Era preciso cavar sob esta questão e identificar o motor oculto de uma ideologia.

link-externoLeia também: Uma versão Nazi do Brasil

O outro mais vulnerável

A primeira questão que me coloquei ao começar a imaginar esta história foi: quem seria perseguido aqui? E os próprios livros sobre o tema me deram a resposta: os negros e os mestiços em geral. Mas principalmente os negros. A libertação dos escravos era ainda coisa recente. Somava-se então à ideologia exótica do nazismo uma visão escravocrata da sociedade brasileira. A mistura desses dois preconceitos geraria uma perseguição aos descendentes de africanos. Eles não seriam mortos, como aconteceu com os judeus na Europa, mas serviriam como mão de obra gratuita em fazendas e fábricas. É esta a minha percepção de ficcionista sobre a possível nazificação do sul do Brasil.

Romance.br

Este é, portanto, um romance que só poderia transcorrer no Brasil, pois aqui a questão racial passa pela discriminação principalmente dos grupos africanos e indígenas. O romance explora ficcionalmente o tratamento que negros e mulatos teriam no Brasil se as Leis de Nuremberg prosperassem entre nós. Havia no país – e ainda há mas de forma mais velada – uma estrutura mental que via o negro do ponto de vista dos senhores de escravos.

link-externoConfira outras colunas de Miguel Sanches Neto

testeOito livros sobre histórias durante a Segunda Guerra Mundial

Setenta anos após a morte de Adolph Hitler, as histórias passadas durante os anos em que o ditador nazista esteve no poder ainda emocionam e chocam. Para recordamos um dos períodos mais conturbados da história mundial, selecionamos uma lista com oito livros com tramas durante a Segunda Guerra Mundial.

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Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr — Marie-Laure, cega aos seis anos, vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural. Na Alemanha, o órfão e curioso Werner se encanta pelo rádio. Combinando lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, Anthony Doerr constrói um tocante romance sobre o que há além do mudo visível.

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Leia também: Toda luz que não podemos ver recebe o Pulitzer de ficção

O último dia dos nossos pais, de Joël Dicker — Neste livro, Dicker  aborda a criação da SOE (Executiva de Operações Especiais) e mostra como um serviço composto em sua maioria por amadores tornou-se uma das peças-chaves da Segunda Guerra Mundial. O autor relata um feito pouco conhecido da Resistência francesa e ao mesmo tempo constrói uma história sobre o ser humano e suas fraquezas.

No jardim das feras, de Erick Larson — O livro reconstitui a ascensão de Hitler sob a singular perspectiva do então embaixador norte-americano em Berlim e de sua filha — uma jovem divorciada que se envolve com importantes homens do Terceiro Reich, como o primeiro chefe da Gestapo, Rudolf Diels.

A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto — Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas alia-se ao Terceiro Reich. Neste cenário alternativo, o autor desenvolve uma surpreendente história de amor enquanto subverte os fatos para criar um Brasil que não está nos livros de história, mas que nem por isso deixa de ser assustadoramente plausível.

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Leia também: Gente real, gente inventada

A menina que roubava livros, de Markus Zusak — Uma menina embrutecida pela guerra apela à literatura para driblar o nazismo então dominante. Rouba livros e confia às letras o poder de salvá-la daquela atrocidade. A história, narrada sob o inusitado ponto de vista da Morte, rendeu um dos mais elogiados best-sellers dos últimos tempos.

Inferno: o mundo em guerra 1939 -1945, de Max Hastings — Resultado de 35 anos de pesquisa, o livro traça um painel completo da Segunda Guerra Mundial em todas as linhas de frente, com enfoque na experiência humana. Em um volume único, Max Hastings entrelaça o testemunho de pessoas comuns e compõe uma narrativa capaz de revelar como foi viver, lutar e morrer em um mundo em conflito.

O diário de Helga, de Helga Weiss — Calcula-se que das 15.000 crianças que passaram pelo campo de Terezín, na antiga Tchecoslováquia, apenas 100 chegaram com vida ao fim da Segunda Guerra Mundial. Uma delas é Helga Weiss, que relata a vida no campo de concentração.

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Os óculos de Heidegger, de Thaisa Frank — O livro mescla filosofia e romance em uma ficção inusitada. O cenário é a Operação Postal, programa nazista realizado durante a Segunda Guerra Mundial em que um grupo de intelectuais — salvos de fuzilamentos e dos campos de concentração pelo conhecimento de outras línguas — respondia às cartas enviadas aos mortos do Terceiro Reich.