testeAs obsessões que mudaram o mundo

Por Nina Lua*

Xícara de porcelana da primeira fábrica do Ocidente, c. 1815

Nós costumamos encarar a história da humanidade como uma sucessão de grandes acontecimentos e marcos importantes. Mas e se pensássemos que, na verdade, o mundo de hoje é consequência de atos e decisões de indivíduos como nós, com interesses, gostos e sentimentos únicos? É isso que Edmund de Waal faz em O caminho da porcelana. Assim como no best-seller A lebre com olhos de âmbar, o autor parte de um assunto aparentemente restrito para falar de algo bem maior: como a obsessão das pessoas pela arte, pela riqueza e pelo poder engendrou transformações através de séculos e continentes.

De Waal começa por sua própria história. Além de escritor, ele é artista plástico. Teve a primeira experiência com cerâmica aos cinco anos, quando acompanhou o pai a uma aula de artes. Ali nasceu seu primeiro pote e a obsessão de uma vida inteira. Essa tigela era de argila marrom, do tipo com que costumamos brincar na infância, mas foi pintada de branco. A história de De Waal com o branco teve uma reviravolta na adolescência, quando ele descobriu a porcelana. Seguiram-se vários anos de tentativas (na maioria frustradas) de produzir peças que fossem capazes de gerar dinheiro para que ele se sustentasse e, ao mesmo tempo, trazer satisfação, um sentido para a vida, um senso de propósito. De Waal define melhor do que ninguém essa busca: “Guardo comigo cada ajuste emocional pelo qual passei enquanto aprendia a fazer algo que eu fosse capaz de amar.”

Detalhe da exposição breathturn, de Edmund de Waal, 2013

O amor — ou a obsessão — do autor com a porcelana o leva a uma jornada para explorar a história desse material tão precioso. A viagem começa na China, onde a porcelana foi criada há um milênio, e se estende por lugares como a Itália, a França, a Alemanha, a Inglaterra e os Estados Unidos. Ao longo do caminho, De Waal encontra histórias que ilustram o melhor e o pior da humanidade. Por exemplo, na China, o imperador Yongle, que reinou entre 1402 e 1424, ascendeu ao poder usurpando o trono do sobrinho e assassinando toda a corte, em um verdadeiro banho de sangue. Para se purificar, e acreditando que o branco faria com que as almas daqueles que tinha matado subissem mais depressa aos céus, ele encomendou uma quantidade abissal de porcelana, erguendo um pagode gigantesco feito do material.

Xilogravura chinesa mostrando a preparação de moldes de porcelana, 1815

Praticamente todos os grandes comandantes do mundo encararam a porcelana como um símbolo de status. Luís XIV, Mao Tsé-Tung, Stálin — todos usaram a porcelana para atestar seu poder. Na Alemanha nazista, prisioneiros de um campo de concentração eram obrigados a fabricar pequenos objetos de porcelana para que os líderes do partido presenteassem uns aos outros — soldadinhos, cervos, coelhinhos, cachorrinhos.

WARSZAWA. SKLEP Z PORCELANA FIRMY "SS-PORZELLAN-MANYFAKTUR ALLACH" W MONACHIUM. ADM SYG II-7131 NR. NEG. R 16319

Loja de porcelana Allach, que vendia peças produzidas por prisioneiros de um campo de concentração, 1941

A história da porcelana acompanha os fluxos do poder, mas também tem a ver com a genialidade de indivíduos. Durante séculos, apenas a China sabia o segredo para a fabricação do material. Mas tudo mudou na Alemanha do século XVII. Certo dia, surgiram rumores de que um jovem aprendiz de boticário, Johann Friedrich Böttger,  tinha conseguido criar ouro a partir de outras substâncias. Fascinado pelo boato e com a intenção de encher os cofres, o rei aprisiona o rapaz e ordena que ele repita a façanha. Anos se passam sem qualquer sucesso, até que, junto com um matemático chamado Ehrenfried Walther von Tschirnhaus, Böttger consegue criar não ouro, mas porcelana. É o suficiente para o rei.

E assim surge a primeira fábrica de porcelana no Ocidente. De Waal vai à Alemanha e vê uma das primeiras peças criadas pela dupla de alquimistas. Com ela nas mãos, resume o sentido de seu caminho da porcelana: “Assim é o mundo. Pode ser explicado, mas continua sendo extraordinário. Em minhas mãos, há uma xícara branca. É modesta, mas este é meu momento alquímico, o instante no qual, pela primeira vez, tenho clareza sobre como uma ideia se concretiza.”

 

Ficou fascinado pela jornada inusitada de De Waal e quer mergulhar em seu relato sobre como a paixão e a obsessão mudaram vidas e transformaram o mundo? Então leia O caminho da porcelana, lançamento de maio da Intrínseca.

 

* Nina Lua é editora assistente de livros estrangeiros da Intrínseca.

 

testeLançamentos de maio

Confira as sinopses dos lançamentos do mês: 

A profecia das sombras, de Rick Riordan Não bastava ter perdido os poderes divinos e ter sido enviado para a Terra na forma de um adolescente espinhento, rechonchudo e desajeitado. Não bastava ter sido humilhado e ter virado servo de uma semideusa maltrapilha e desbocada. Nããão. Para voltar ao Olimpo, Apolo terá que passar por algumas provações. A primeira já foi: livrar o oráculo do Bosque de Dodona das garras de Nero, um dos membros do triunvirato do mal que planeja destruir todos os oráculos existentes para controlar o futuro.

Em sua mais nova missão, o ex-deus do Sol, da música, da poesia e da paquera precisa localizar e libertar o próximo oráculo da lista: uma caverna assustadora que pode ajudar Apolo a recuperar sua divindade — isso se não matá-lo ou deixá-lo completamente louco.

Agora e para sempre, Lara Jean, de Jenny Han Em Para todos os garotos que já amei, as cartas mais secretas de Lara Jean — aquelas em que se declara às suas paixonites platônicas para conseguir superá-las — foram enviadas aos destinatários sem explicação, e, em P.S.: Ainda amo você, Lara Jean descobriu os altos e baixos de estar em um relacionamento que não é de faz de conta. Na aguardada conclusão da série, Agora e para sempre, Lara Jean, a jovem vai ter que tomar as decisões mais difíceis de sua vida.

Em nome dos pais, de Matheus Leitão — Resultado de suas incansáveis investigações, que começam pela busca do delator e seguem com a localização dos agentes que teriam participado das sessões de tortura de seus pais. Passado e presente se entrelaçam nessa obra, que reconstitui com rigor eventos do início dos anos 1970 e, ao mesmo tempo, apresenta a emocionante peregrinação do autor pelo Brasil atrás de respostas. Uma história sobre pais e filhos, sobre reconciliação e responsabilidade, sobre encontros impossíveis. É também uma história sobre um país que ainda reluta em acertar as contas com um passado obscuro. 

As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez — Macabro, perturbador e emocionante, o livro reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, mostram-se estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo. Uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes do século XXI, Mariana Enriquez dá voz à geração nascida durante a ditadura militar na Argentina.

As garotas, de Emma Cline — Considerada pela Granta uma das melhores jovens autoras americanas da década, Emma Cline se inspirou no impacto causado pelos assassinatos cometidos pelo culto de Charles Manson, no fim da década de 1960, para escrever As garotas. O livro narra o processo de crescimento pessoal de um grupo de jovens — um retrato atemporal das turbulências, das vulnerabilidades e da força das mulheres em sua passagem à maturidade.

O caminho da porcelana, de Edmund de Waal — Do autor de A lebre com olhos de âmbar, uma jornada para entender a obsessão humana pela arte, pela riqueza, pelo talento e pelo poder. Através de um material tão precioso e inesperado quanto a porcelana, Edmund de Waal desenha um mapa do melhor e do pior da humanidade em diferentes séculos e continentes. Uma investigação que perpassa acontecimentos sombrios – como a produção de porcelana para os nazistas em um campo de concentração – e gloriosas – como a alquimia desastrada que reinventou a porcelana e deu origem à primeira fábrica do Ocidente.

O projeto desfazer, de Michael Lewis Em O projeto desfazer, o renomado autor de Moneyball e Flash boys conta a história da colaboração entre dois homens absolutamente diferentes, percorrendo a gênese da teoria que mais tarde, publicada em livro, se tornaria o best-seller Rápido e devagar: Duas formas de pensar. Daniel Kahneman e Amos Tversky escreveram uma série de estudos originais desfazendo todas as suposições da época sobre o processo humano de tomada de decisão. Os ensaios e artigos escritos por eles mostraram como nossa mente sistematicamente se engana quando obrigada a fazer escolhas em situações de incerteza.

Razões para continuar vivo, de Matt Haig  O mundo de Matt ruiu quando ele tinha pouco mais de 20 anos. Ele não conseguia achar uma maneira de continuar vivo. Essa é a história real de como Matt passou pela crise, triunfou sobre a doença que quase o destruiu e aprendeu a viver novamente. Uma análise comovente e delicada sobre como viver melhor, amar melhor e se sentir mais vivo, Razões para continuar vivo é mais do que um livro de memórias. É um livro sobre como aproveitar seu tempo no planeta Terra.

Deixei você ir, de Clare Mackintosh Partindo de vários pontos de vista, Clare Mackintosh faz em Deixei você ir um retrato preciso de uma grande investigação policial. Com habilidade singular, ela desenvolve personagens memoráveis e uma análise arrebatadora das excentricidades da vida no interior. Mas seu verdadeiro talento é a maneira como incorpora reviravoltas em uma trama cheia de mistérios. Mesclando suspense e thriller psicológico, Clare disseca a mente de seus personagens enquanto tece entre eles inesperadas conexões.

testeTop 10 de Pedro Gabriel

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Procurando por uma nova leitura? Confira as dez indicações de Pedro Gabriel, autor de Eu me chamo Antônio e Segundo: Eu me chamo Antônio. Os e-books de alguns títulos dessa seleção estão com preços promocionais na Google Play até a próxima quinta-feira, dia 3 de março. Confira aqui.

 

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Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr — Nesse romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2015, você vai conhecer Marie-Laure, uma garota que ficou cega aos seis anos e que vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural, e Werner, um menino alemão, órfão, que se encanta por um rádio encontrado em uma pilha de lixo e cuja trajetória o leva a uma escola nazista.

Combinando lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, Toda luz que não podemos ver é um tocante romance sobre o que há além do mundo visível. [+]

O árabe do futuro: uma juventude no Oriente Médio (1978 – 1984), de Riad Sattouf — Filho de mãe francesa e de pai sírio, o quadrinista Riad Sattouf conta o choque cultural que viveu quando foi, ainda bem criança, para a Síria e a Líbia, e fala também do retorno da família à França. Depois de viver em lugares tão diferentes, Riad se tornou um completo estrangeiro, com uma visão crítica, afiada e muito bem-humorada sobre o mundo.

Um relato literário pleno em forma de graphic novel, com traço simples e narrativa fluida e descontraída. Riad fornece ao mesmo tempo uma análise antropológica do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de sua própria infância plural. [+]

A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joël Dicker — Em 1975, na pequena cidade de Aurora, em New Hampshire, Nola Kellergan, de quinze anos, é vista pela última vez sendo perseguida na floresta e nunca mais é encontrada. Trinta e três anos depois, Marcus Goldman, jovem escritor de sucesso, vai a Aurora encontrar seu amigo e professor, o respeitado romancista Harry Quebert, na esperança de conseguir superar um bloqueio criativo. Durante esse tempo, ele descobre que seu mentor teve um caso com a adolescente.

Depois de encontrarem o cadáver da garota em seu jardim, Harry é preso, acusado de ter cometido assassinato. Marcus precisa correr contra o tempo para inocentar o amigo, descobrir quem matou Nola Kellergan e escrever um romance bem-sucedido. [+]

 

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Queria ver você feliz, de Adriana Falcão — O Amor, essa entidade mítica, obstinada e perfeccionista, desempenha o papel de narrador na história real do casal Caio e Maria Augusta, pais da autora Adriana Falcão. Com linguagem poética e ao mesmo tempo bem-humorada, Adriana revela para seus leitores aquilo que poderia ser descrito como uma história trágica protagonizada por dois personagens atormentados por seus demônios.

Apaixonados, Caio e Maria Augusta se casam no Rio de Janeiro da década de 1950 e têm três filhas. Todo o sentimento que eles compartilham não impede que a personalidade exuberante de Maria Augusta se torne mais obsessiva e asfixiante com o passar do tempo, apesar dos medicamentos e dos tratamentos psiquiátricos a que é submetida. Caio, por sua vez, aprofunda uma melancolia que existia nele desde a adolescência, e que culmina nos anos 1970 em tentativas de suicídio. Mais do que uma história com final dramático, trata-se de memórias afetivas que alternam momentos de intensa felicidade e outros tantos de dor. [+]

Pó de lua, de Clarice Freire — Filha de Wilson Freire, parceiro do compositor Antônio Nóbrega, Clarice cresceu rodeada por artistas. Ela própria compõem letras de músicas e toca violão. Não é à toa que conseguiu encantar o público com a delicadeza de seus pensamentos, seu humor sutil e o traço despretensioso, que combina desenhos e fragmentos de palavras.

A obra segue o formato dos cadernos moleskine em que Clarice acostumou-se a exercitar sua criatividade. Inspirada pelas quatro fases da lua — minguante, nova, crescente e cheia —, ela trata em frases concisas e certeiras de sentimentos como a saudade, o medo, a paixão e a alegria, sempre em sua caligrafia característica, enfeitada com ilustrações singelas. [+]

O livro sem figuras, de B. J. Novak — Um livro sem figuras? O que tem de divertido nisso? Combinando simplicidade e criatividade de uma forma surpreendentemente engenhosa, O livro sem figuras inspira risadas toda vez que é aberto, criando uma experiência de diversão e interação entre adultos e crianças e apresentando aos pequenos leitores a poderosa ideia de que a palavra escrita pode ser uma fonte infinita de alegria e travessuras.

Um livro original e divertido capaz de transformar qualquer leitor em um verdadeiro comediante, que vai fazer as crianças implorarem para ouvir a história repetidas vezes. [+]

 

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Paris versus New York, de Vahram Muratyan — Vahram Muratyan é um jovem artista gráfico de origem armênia criado em Paris. Em 2010, depois de uma longa temporada em Nova York, ele criou o blog Paris versus New York como uma espécie de registro visual de suas experiências, um bem-humorado confronto entre duas das mais míticas cidades do mundo. O sucesso foi surpreendente e o blog teve mais de cinco milhões de visitas em um ano. A sofisticada batalha visual, travada por um amante de Paris vagando por Nova York, se transformou em livro e firmou o artista como um designer renomado, com uma carteira de clientes que inclui grandes nomes da moda, entre eles Prada e Chanel.

Este amistoso confronto artístico é dedicado aos amantes de Paris, de Nova York e àqueles que estão divididos entre as duas cidades. [+]

A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal — Um dos mais importantes ceramistas da atualidade, Edmund de Waal era fascinado pela coleção de 264 miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim guardadas no apartamento do tio-avô, que vivia em Tóquio. Nenhuma daquelas peças era maior do que uma caixa de fósforos e, no entanto, seu valor revelou-se grandioso.

Mais tarde, quando herdou estes netsuquês, Edmund descobriu que, além da riqueza artística, eles carregavam uma história muito maior: revelavam o passado de sua família e eventos cruciais do século XX. A partir dessa delicada coleção, A lebre com olhos de âmbar, obra vencedora do Costa Book Award na categoria Biografia e finalista do South Bank Sky Arts Award na categoria Literatura, transporta o leitor desde um império em Odessa — passando pela Paris do fin-de-siècle e pela Viena ocupada pelos nazistas — até o Japão e a Inglaterra contemporâneos. [+]

Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver — Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive.

Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável. [+]

Eu me chamo Antônio, de Pedro Gabriel — Em seu primeiro livro, Pedro Gabriel apresenta uma narrativa que transita por todas as fases de um relacionamento amoroso: com um estilo simples e acessível, mas nem sempre óbvio, o leitor acompanha os encontros e desencontros de Antônio. Percebe-se uma irreverência no tom de versos e trocadilhos como: “Invista nos amores à primeira vista”. Outras emoções são apresentadas de forma singela, quando há uma separação, por exemplo: “Você, distante, diz tanto sobre mim”. Enquanto a angústia, sentimento que faz parte da instabilidade de qualquer casal, também é citada no livro: “Na dança do amor: dor pra cá, dor pra lá”.

Antônio é um personagem sensível e verossímil, talvez seja por isso que os leitores cultivem a dúvida sobre até onde vai a linha tênue que separa a realidade da ficção. [+]

testeA Vila Adriana e o missal da minha avó, por Leticia Wierzchowski

O colar da avó Anna

Coluna publicada no jornal Zero Hora, em 2 de maio de 2013

Tenho grande respeito por objetos. Coisas pequenas, aparentemente desimportantes, um dia podem evocar todo o contexto de um período da nossa vida. Por isso, guardo muita coisa — papéis, fotografias, desenhos infantis, dentes de leite, a primeira meia, o minúsculo cardigan que teci por sobre a barriga enorme, azul da cor do céu. Guardo conchas e guardo bilhetes. Dos arredores da Vila Adriana, uma vez eu trouxe uns pedregulhos que tenho numa caixinha. Sobre a minha mesa de trabalho, está o antigo livro de orações da minha avó Anna, com a sua capa de couro negro e os desenhos em dourado — às vezes passo os dedos pelas páginas comidas pelos cupins, amareladas de tempo, as frases escritas em polonês e incompreensíveis para mim, e fico pensando nas horas em que a avó com este livro rezou, no que pediu e no que agradeceu; e então me sinto inexplicavelmente perto dela, como me sinto perto do meu avô ao folhar seus antigos documentos — fotos, recibos, souvenirs da Segunda Guerra, as suas medalhas sobre o veludo.

Coisas… Dou valor a elas, mas não esse valor óbvio, monetário — penso-as como marcas de outrem, como recordações de um certo alguém que por aqui passou, e ansiou, sofreu e amou. Por isso, nunca menosprezo uma peça de tricô, um bordado, um tapete. Coisas feitas à mão são as depositárias do tempo de uma pessoa — os pensamentos de quem as fez ponto por ponto, de uma forma ou de outra, se gravam entre as laçadas, nos volteios da agulha… Por isso, gosto de bordar para os recém-nascidos uma coisinha qualquer, flor ou palavra, bicho ou árvore, gosto de enfiar a agulha no pano, de deixar a pegada do fio, e atrás dela o meu ensejo, o bom pensamento que eu dedico àquela criança, que seja feliz nesta vida — todo bordado é uma forma de oração. Não sei porque me peguei pensando nisso hoje, nas coisas que herdamos e nas coisas que deixamos por aqui. Talvez porque vi o pingente da minha avó na gaveta de joias. O pingente filigranado, com o seu pequeno rubi — quantas vezes este pingente arfou sobre o colo branco e morno da avó? Eu só o uso em ocasiões especiais, como se convidasse Anna a ir comigo, quando quero comemorar ou preciso da sua ajuda.

E lá vem Sophia de Mello Breyner na minha cabeça — ela, que também amava a Vila Adriana, e que escreveu este poema de igual nome: “… tempo da fina areia agudamente medido, os séculos derrubaram estátuas e paredes, eu destruída serei por breves anos. Mas de repente recupero a antiga divindade entre as colunas.” Porque sim, as coisas que fizemos e tocamos evocam um pouco de nós.

Confira outras colunas de Leticia Wierzchowski:

Dois livraços
A história dos caroços
Um verão indiano
Tudo junto e misturado
O mais bonito

Leticia Wierzchowski assina uma coluna quinzenal no blog da Intrínseca.
Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Seu romance mais conhecido é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

Seu próximo livro, ainda sem título definido, será publicado em junho pela Intrínseca.

testeDois livraços, por Leticia Wierzchowski

 

Coluna publicada no jornal Zero Hora, em 21 de fevereiro de 2013.

A minha biblioteca costuma guardar lugar de honra para os romances, mas, neste verão, picada por algum bichinho, curiosamente eu me pus a ler uma série de livros de memórias, e dois deles me emocionaram muitíssimo – A lebre com olhos de âmbar, ed. Intrínseca, e Só garotos, Cia das Letras.

Edmund de Waal é um dos mais importantes ceramistas da atualidade, mas em A lebre com olhos de âmbar ele mostra que tem talento – e quanto talento! – para moldar palavras também. Ao herdar de seu tio-avô Iggie, que vivia em Tóquio, uma coleção de 264 netsuquês (miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim), Edmund decide refazer o caminho das miniaturas que o tio lhe deixou, e se empenha numa inacreditável e fantástica viagem pelo tempo através de três gerações da sua família paterna – os Ephrussi, os maiores exportadores de cereal do mundo, que deixaram Odessa no século XVII para espalharam-se pela Europa – Paris, Londres, Viena – transformando-se num dos mais sólidos pilares financeiros da sua época, até que guerras e desenganos dilapidassem sua sorte e fortuna, seus sonhos e a sua fabulosa herança, da qual sobraria apenas essa coleção de miniaturas que viajaram pelo mundo até voltarem ao seu lugar de origem, o Japão. Uma viagem que, nas mãos de Edmund de Wall, ganha a dimensão de uma fabulosa narrativa, uma verdadeira saga familiar, mais fantástica do que qualquer ficção.

Só garotos foi escrito por Patti Smith, e a poeta e cantora americana dispensa maiores apresentações. Só garotos não é, a priori, um livro de memórias. É a história da relação amorosa entre Patti Smith e Robert Mappelthorpe (polêmico e talentoso fotógrafo que morreu de aids em 1989), a quem Patti prometeu, no leito de morte, escrever esse livro – e aqui, quando falo de relação amorosa, falo de uma coisa maior do sexo, e houve sexo entre aqueles dois antes que Robert descobrisse seu desejo por outros homens, e Patti deixasse a sua cama sem nunca deixar de ser a sua musa e mais íntima amiga. Recém-chegada a Nova Iorque, sem dinheiro nem endereço certo, Patti deu de cara com Robert, e esse encontro fortuito haveria de marcar o destino de ambos. Só garotos é como um sussurro, um relato íntimo e amoroso da história dessas criaturas irmãs, e é também a história da viagem que Patti Smith e Robert Mappelthorpe fizeram, do anonimato e da pobreza em Nova Iorque, até o sucesso e a fama internacional. Um livro lindo e comovente que, sob o pano de fundo da cena cultural nova-iorquina dos anos 60 e 70, conta de uma relação de inesquecível cumplicidade.

Leticia Wierzchowski assina uma coluna quinzenal no blog da Intrínseca.
Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Seu romance mais conhecido é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

Seu próximo livro, ainda sem título definido, será publicado em junho pela Intrínseca.

testeO Dia D

Em 6 de junho de 1944, o desembarque de mais de 150 mil soldados das tropas aliadas nas praias da Normandia, no noroeste da França, foi o golpe fundamental para a derrocada do poder nazista. No aniversário do Dia D, o Dia da Decisão, indicamos algumas obras que revivem os difíceis anos desde a ascensão de Hitler na Alemanha, passando pela perseguição aos judeus e pelas ações políticas que levaram à Segunda Guerra Mundial.

No jardim das feras, não ficção do jornalista , reconstitui a chegada de Hitler ao poder pela singular perspectiva do então embaixador norte-americano em Berlim e de sua filha Martha — uma jovem que se envolve com importantes homens do Terceiro Reich, como o primeiro chefe da Gestapo, Rudolf Diels.

Além do cotidiano de milhares de alemães às vésperas do grande conflito, a Viena ocupada pelos nazistas ressurge em A lebre com olhos de âmbar. A fantástica — e verídica — narrativa dos antepassados de Edmund de Waal, um dos mais importantes ceramistas ingleses da atualidade, passa por eventos cruciais do século XX e revela como as abastadas famílias judias tiveram seus bens expropriados.

No entanto, coube à ficção retratar uma infância vivida em torno do culto a Hitler. A trajetória de Liesel Meminger, a protagonista de A menina que roubava livros, de Markus Zusak, abarca o período de 1939 a 1943 e é narrada pela Morte — uma figura perplexa diante de tamanha violência.

testeBem-vindo 2012! Veja o que 2011 lhe reservou

Uma lista com os melhores livros publicados em 2011 nos apresenta mais do que uma retrospectiva do ano que se despede, é também um indicativo das expectativas reservadas para o próximo. Além da habitual seleção entre as obras já publicadas, escolhidas conforme a recepção do público e da crítica, as listas internacionais de final de ano são um bom termômetro para medir o impacto do que chegará por aqui. Em meio aos livros destacados por alguns dos veículos de maior prestígio em 2011, estão alguns títulos que publicaremos: The Art of Fielding, de Chad Harbach, presente nas listas do The New York Times e da Amazon; State of Wonder, de Ann Patchett, destaque na Publishers Weekly, no The Washington Post e na revista Time; In the Garden of Beasts (No jardim das feras), de Erik Larson, o 10° livro de não ficção mais vendido nos EUA e indicado na seleção da Amazon; The Night Circus (O circo da noite), de Erin Morgenstern, também entre os 10 mais da Amazon; e Inferno, de Max Hastings, presente na lista da Time.

Última retrospectiva de 2011 — Os melhores títulos publicados

Entre os 50 títulos publicados em 2011, A lebre com olhos de âmbar — relato de Edmund de Waal sobre a trajetória de sua família que tem como ponto de partida uma coleção de netsuquês (miniaturas japonesas entalhadas em madeira) — foi considerado pela crítica nacional um dos melhores livros do ano. Em meio aos personagens dessa história real está Charles Ephrussi, merchant que serviu de inspiração para Marcel Proust na criação do esteta Swann de Em busca do tempo perdido. Proust também é referência em Como Proust pode mudar sua vida, livro do filósofo Alain de Botton, reeditado em 2011, que analisa os ensinamentos presentes na obra e na correspondência do autor francês. De Botton, a propósito, esteve em novembro no país para lançar o inédito e polêmico Religião para ateus, uma defesa ao reconhecimento de conceitos religiosos como importantes aliados para mudanças culturais na sociedade contemporânea.

Grito de guerra da mãe-tigre, da sino-americana Amy Chua, também foi destaque no ano. A professora de Direito da Universidade de Yale chocou a opinião pública ao apresentar os métodos rígidos utilizados na educação das duas filhas, estudantes brilhantes. Mais um relato real, só que direto da zona de conflito, é Guerra, do jornalista Sebastian Junger. Além do livro, sua experiência de quinze meses no Afeganistão, ao lado das tropas americanas, resultou no documentário Restrepo, indicado ao Oscar. Outras disputas norte-americanas, agora nos bastidores da corrida presidencial, foram retratadas em Virada no jogo – Como Obama chegou à Casa Branca, de John Heilemann, colunista da revista NewYork, e Mark Halperin, da Time.

Entre as ficções que se sobressaíram, muitas foram — ou estão sendo — adaptadas para o cinema. É o caso da história do casal Dexter e Emma, personagens do romance Um dia, de David Nicholls, cuja versão cinematográfica estreou recentemente em circuito nacional. Precisamos falar sobre o Kevin, romance de Lionel Shriver vencedor do Prêmio Orange de 2005, entra em cartaz em 27 de janeiro, e a protagonista, Tilda Swinton, está concorrendo ao Globo de Ouro de melhor atriz. Em 2011 publicamos outro livro da autora, Dupla Falta, que explora a relação de um casal de tenistas e as consequências da competição extrema entre marido e mulher. Já a adaptação do thriller O hipnotista é dirigida pelo sueco Lasse Hallström e tem estreia prevista para este ano. No primeiro título da trilogia de Lars Kepler, a única testemunha de um massacre está traumatizada demais para falar e, na tentativa de solucionar o caso, o detetive Joona Linna recorre a um ex-hipnotista.

Em  2011 também tivemos Bienal do Livro no Rio de Janeiro, em que Alyson Noël  lançou Infinito, o sexto e último título da série Os imortais. A autora, que já vendeu mais de 300 mil exemplares no Brasil, embarcou em uma turnê de lançamentos pelas cidades de Brasília, Campinas, Curitiba, Salvador e São Paulo. Ainda para os jovens leitores, foram publicadas duas obras de Rick Riordan, o ex-professor de história que se transformou em fenômeno editorial. As aventuras foram O herói perdido, da série Os heróis do Olimpo, e O trono de fogo, de As crônicas dos Kane.

Fechando o ano, A parisiense – O guia de estilo de Ines de la Fressenge, de Ines de la Fressange e Sophie Gachet, tornou-se o hit do verão. No guia, que já vendeu mais de 300 mil exemplares em todo o mundo, a modelo exclusiva de Chanel nos anos 1980, atual rosto internacional da L’Oréal e ícone da elegância na França conta o que aprendeu sobre estilo e beleza durante décadas de experiência na indústria da moda.

testeEstante Intrínseca

Conheça os próximos lançamentos e os títulos que foram publicados em setembro pela Intrínseca:

A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal

Lançamento em 3/10

Edmund de Waal, um dos mais importantes ceramistas da atualidade, era fascinado pela coleção de 264 miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim, guardadas no apartamento do tio-avô, que vivia em Tóquio. Nenhuma daquelas peças era maior do que uma caixa de fósforos e, no entanto, seu valor revelou-se grandioso.

Mais tarde, quando herdou estes netsuquês, Edmund descobriu que, além da riqueza artística, eles carregavam uma história muito maior: revelavam o passado de sua família e eventos cruciais do século XX. A partir dessa delicada coleção, A lebre com olhos de âmbar, obra vencedora do Costa Book Award na categoria Biografia e finalista do South Bank Sky Arts Award na categoria Literatura, transporta o leitor desde um império em Odessa — passando pela Paris do fin-de-siècle e pela Viena ocupada pelos nazistas — até o Japão e a Inglaterra contemporâneos.

Leia o primeiro capítulo.

 

O hipnotista, de Lars Keplen

Lançamento em 10/10

O massacre de uma família nos arredores de Estocolmo abala a polícia sueca, e o detetive Joona Linna exige investigar os assassinatos. Com o criminoso foragido só há uma testemunha: o filho de 15 anos, que sobreviveu ao ataque. Quem cometeu os crimes o queria morto: ele recebeu mais de cem facadas e está em estado de choque.

Desesperado por informações, Linna só vê uma saída: hipnose. Ele convence o Dr. Erik Maria Bark – especialista em pacientes psicologicamente traumatizados – a hipnotizar o garoto, esperando descobrir o assassino através das lembranças da vítima. É o tipo de trabalho que Bark jurara nunca mais fazer: eticamente questionável e psicologicamente danoso. Quando ele quebra a promessa e hipnotiza o garoto, uma longa e aterrorizante sequência de acontecimentos tem início.

O hipnotista, thriller que se tornou um fenômeno internacional, também será adaptado para os cinemas. Com estreia prevista para 2012, o filme é dirigido pelo também sueco Lasse Hallström, diretor indicado ao Oscar por Regras da vida e Minha vida de Cachorro, e protagonizado por Mikael Persbrandt, ator de Momentos Eternos de Maria Larssons e Em um mundo melhor.

Veja a entrevista com os autores, o casal Alexandra e Alexander Ahndoril, que assinam a obra sob o pseudônimo Lars Kepler:

Ecos da morte, Kimberly Derting

Lançamento em 26/9

No primeiro livro da série The Body Finder, Violet Ambrose tem o dom secreto de encontrar cadáveres, mas não todos: apenas os das vítimas de assassinato. Aos dezesseis anos, ela está confusa com os novos sentimentos em relação a seu melhor amigo de infância, Jay. É quando um serial killer começa a aterrorizar a pequena cidade onde mora e Violet sabe que talvez seja a única pessoa capaz de detê-lo. +

Leia o primeiro capítulo.

Bela Maldade, de Rebbecca James

Lançamento em 19/9

Após a tragédia que devastou sua família, Katherine se muda para uma nova cidade em busca do anonimato. Mas seu plano é frustrado quando conhece a linda e sociável Alice, com quem começa uma intensa amizade. No entanto, ao conhecê-la melhor, Katherine percebe que sua encantadora amiga tem um lado muito sombrio. +

Leia o primeiro capítulo.

 

Ratos, de Gordon Reece

Lançamento em 8/09

No thriller que se tornou best-seller na Austrália e na Inglaterra, Gordon Reece leva o bullying para além das fronteiras da escola e da idade. Em Ratos, Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Têm consciência disso, mas não sabem como reagir — são como ratos, sempre entocadas e coagidas. Porém, até mesmo os ratos têm um limite, e o delas vai se revelar. +

Leia o primeiro capítulo.

Guia do herói para vencer dragões mortais, de Cressida Cowell

Lançamento em 1/09

No sexto volume da série infantil Como treinar o seu dragão — cujas aventuras inspiraram a adaptação cinematográfica dos estúdios DreamWorks —, Soluço, o desajeitado aspirante a herói viking, e seu desobediente dragão Banguela têm uma nova missão: roubar um precioso livro da Biblioteca Pública dos Cabeças-ocas, protegida pelo terrível Bibliotecário Cabelo Assustado e por centenas de Guardas Guerreiros Cabeças-ocas armados com seus Dragões-brocas. + Leia o primeiro capítulo.

Não basta ser bom, é preciso querer ser bom, de Paul Arden

Lançamento em 08/09

Com base em sua experiência, Paul Arden (1940-2008), lenda da publicidade mundial que atuou como executivo e diretor de criação da agência Saatchi & Saatchi por 15 anos, escreveu Não basta ser bom, é preciso querer ser bom, uma obra que alia slogans e imagens para desconstruir mitos sobre fracasso, criatividade e reputação. +

Leia o primeiro capítulo.