testeO batismo de Paulina

Mosaico Miriam

A ideia de escrever Tempos extremos chegou para Míriam Leitão de forma inesperada e arrebatadora. Mesmo passando todo o dia absorvida por suas atividades jornalísticas, no meio da noite a autora era procurada pelos personagens, para que a história fosse escrita. A inspiração surgia com facilidade. Os nomes de cada personagem foram se apresentando, exceto o de Paulina, a escrava que almejava a liberdade.

O curioso é que a solução aconteceu durante uma visita guiada à exposição Registros privados da escravidão, apresentada na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Na última hora, quando o processo de desmontagem já havia começado, Míriam foi recebida na instituição e guiada pelas vitrines que exibiam documentos que muito revelavam sobre as condições de vida dos escravos nos lares brasileiros.

Ela se deparou com documentos, como a carta da sinhá que escrevia ao marido pedindo a alforria de sua escrava como presente de aniversário de casamento. Um nome se destacou entre os papéis e a escritora teve o insight. A escrava que não aceitara ser chamada de Efigênia (como Míriam pensara inicialmente) já tinha um nome: nascia Paulina, que carregaria consigo a esperança pela tão sonhada alforria, que só seria poderia se concretizar à custa de muito tempo e sofrimento.

testeGabo ficou um pouco em cada um de nós

Gabo ficou um pouco

Ele foi saindo devagar. Perdia a memória. Justo ela que nos ajudou tanto. Mesmo assim, quando Gabriel García Márquez saiu hoje, completamente, de cena, a sensação foi de orfandade. Lembro onde estava quando li cada um dos seus livros, e como eles me acalentaram nos períodos da minha solidão.

Na noite em que entrei em Macondo pela primeira vez com o Coronel Aureliano Buendía e aquelas vinte casas, decidi ficar mais tempo. Meu mundo era tão recente que eu ainda estudava no Colégio Caratinga. Fiquei tão hipnotizada que li a noite inteira e, de manhã, fui para a aula. A cabeça ainda em Macondo. Eu não entendia a vida. E depois foi apenas esperar chegar cada um dos livros dele. Ou então voltar ao começo, desde o “Relato de um náufrago”.

É como me sentia quando, de Débora Thomé, recebi um e-mail cruzando meu cotidiano de jornalista de economia. Transcrevo aqui porque são sentimentos irmãos:

“Estou em prantos. Talvez, se não fosse ele, não seria a metade do que sou hoje. Ou seria um eu irreconhecível.

“Não correriam companhias bananeiras e histórias fantásticas nas minhas veias. Talvez não tivesse o calor de Macondo, nem sentisse a poeira da terra.

“Talvez nunca tivesse um senso de latinamericanidade na minha vida.

“Vejo as gotas de sangue pingando dos Doze Contos, o primeiro livro de adulto que li.

“Vejo a máquina sendo roubada da vitrine durante o Bogotazo.

“Vejo o sinal de tormenta na residência de Felipe González.

“Penso também nos que sobreviveram – ou não – aos sequestros.

“No náufrago e na caravana da pobre Erêndira.

“É o mais querido da minha biblioteca. O único com espaço próprio, com edições em duas línguas, com tratamento de coleção. (O bom dos livros é que eles ficam até as traças.)

“Peço, pois, licença para este momento de drama compartilhado: é a minha latinidade nagô que um dia Gabriel me ‘enseño’.”

Texto publicado originalmente no Blog MiriamLeitão.com, com a jornalista Débora Thomé

 

testeEntre o passado e o futuro

Míriam escrevendo

Um vento leve entra pela janela aberta em frente à mata. Os pássaros já fizeram seu festival mais cedo, mas da mata saem os sons diversos da natureza viva. Minha mesa de trabalho fica encostada na janela. Ao lado, na tampa de um baú pintado de azul colonial, espalhei livros e pastas de consulta, organizados, pelos vários temas. Ao meu redor, HDs e tablets, onde tenho arquivos digitalizados, inclusive das entrevistas que já fiz. É parte do material que tenho estudado no trabalho de escrever meu próximo livro de não ficção.

Assim estou passando a maior parte das minhas férias. O silêncio, só quebrado pelos sons da mata, me ajuda na rotina de escrever e ler. Vou entrando e saindo dos capítulos, como se eles fossem quartos de um casarão.

Sei que a conjuntura brasileira está intensa nos últimos dias, com a prisão dos condenados pela Ação Penal 470. Vão se confirmando as previsões de baixo crescimento de 2013. Há alertas sobre os indicadores fiscais brasileiros. Em pontos do lugar onde estou, a internet é melhor e assim capturo notícias e me comunico com o mundo. Não quero estar longe dele, mas preciso desse distanciamento.

Ontem, a estante de livros de ficção me chamou de forma sedutora, mas resisti. Apenas peguei, por homenagem, o Carnê Dourado de Doris Lessing (que faleceu no último domingo, dia 17 de novembro). Mulheres Livres é o título do primeiro capítulo. Nós ainda estamos tentando, querida Doris. Com ela aprendi muito sobre o absurdo do racismo.

Depois manuseei um dos meus velhos amores. “É muito fundo o poço do passado.” Com essa frase Thomas Mann começa a tetralogia José e seus irmãos. Tem tanto significado! Apesar de o escritor alemão começar a coleção romanceando a história de Jacó, o pai de José e outros onze, aquela frase é perfeita, pensei. José conheceu o fundo do poço, literalmente, ao ser jogado lá pelos irmãos. Ele depois foi, como nos conta a Bíblia — texto no qual Mann se inspirou —, capaz de falar do futuro.

Dias atrás, sentei-me com Livia e Kathia (editora e preparadora da Intrínseca), no Rio, para olhar o trabalho de revisão de um capítulo de Tempos extremos, meu primeiro romance, que vai sair em maio. O livro é surpresa para mim também; eu não sabia que escreveria ficção algum dia, mas houve um momento em que a história se impôs. Ela se passa nos tempos atuais, mas é visitada por dois passados. E como é fundo, às vezes, o poço do passado!

Mas agora estou trabalhando com um olhar que tem que sobrevoar a conjuntura e fazer perguntas para o futuro. Será meu novo livro de não ficção, também a ser lançado pela Intrínseca. O trabalho em que estou mergulhada é imenso, desafiador e estimulante. Tenho que olhar para a frente. Às vezes, instintivamente, busco o horizonte levantando os olhos para a janela. Deparo-me com o verde sem fim e de vários tons das árvores da mata. Agora, a manhã vai alta, a mata fica mais silenciosa e Silvana me traz uma goiaba.

Alguns amigos me perguntaram se nas férias eu não deveria descansar, apenas, da rotina intensa do trabalho jornalístico em várias frentes: jornal, TV, rádio. Mas é assim que quero o meu tempo livre. Escrever é o que eu mais gosto. Escrever e ler. Esse livro que preparo agora exige muito: tenho prazo até o meio do ano para entregar e Bruno Porto, meu editor, tem feito perguntas delicadamente. Há capítulos com mais obstáculos que outros, admito. É um livro complexo, o que escolhi escrever, que exige que eu leia, entreviste, consulte dados e pense intensamente. Por isso, estas férias, que serão um pouco mais longas na televisão, me permitirão avançar. É a melhor chance que eu tenho, longe do inquieto cotidiano do jornalismo.

Escrever é prazer, mas é também uma difícil carpintaria. Há momentos em que você duvida que seja capaz. O segredo é nunca parar nas horas de dúvidas; e nunca parar de duvidar de si.

testeO Brasil do futuro: novo livro de Miriam Leitão é a maior aquisição da Intrínseca na Feira de Frankfurt 2012

Nada é trivial no Brasil de hoje e das próximas décadas, mas o país superou recentemente adversidades que pareciam intransponíveis na política e na economia. Terá de fazer escolhas decisivas e realizar um projeto para a prosperidade, modernidade e pluralidade num mundo em turbulência e marcado por transições de poder. Quais serão as vias e tarefas a seguir para o encontro com o futuro? Que alianças modernizantes poderá realizar? Quais são as tendências em campos estratégicos? Como isso é vivido pelas famílias?

Essas são algumas das questões investigadas em A história do futuro: o mapa do caminho do Brasil no século XXI, novo livro de Miriam Leitão, jornalista de economia e negócios das Organizações Globo e representada pela agência Villas-Boas & Moss, que acaba de ser adquirido pela Editora Intrínseca na Feira do Livro de Frankfurt — e que tem previsão de lançamento em 2014.

Escrito em linguagem acessível, a partir de reflexões de especialistas e das experiências de vida de brasileiros, A história do futuro dará ao leitor uma visão do que falta fazer e do que está em andamento, além dos perigos e das vantagens do projeto de modernização e crescimento do país.

“O Brasil tem extraordinárias vantagens e atrasos inconcebíveis na busca por seu projeto de prosperidade. É dono da maior biodiversidade do planeta. Tem a mistura ideal de terra, sol e água para a produção de alimentos, e pesquisas de ponta na genética animal e vegetal que suportarão os rigores das mudanças climáticas”, aponta Miriam.

Como pontos adversos, a autora observa questões estruturais: “o ambiente de negócios do país está prisioneiro de um cipoal de regras e gargalos irracionais. Tem uma população ainda jovem, que passará até o fim do século por fortes oscilações demográficas. No ranking educacional do mundo, o Brasil ocupa o vergonhoso 53° lugar”.

Com a expertise de quem noticia economia há mais de 27 anos em várias plataformas de informação — o que lhe valeu o apelido carinhoso de Multi-Miriam por Zózimo Barroso do Amaral —, a autora conjugará conhecimento de ponta e refinamento teórico a um tom de conversa com os leitores sobre temas pungentes como educação, patrimônio natural, democracia e modernização econômica.

Miriam Leitão é jornalista brasileira especializada na cobertura de assuntos econômicos e de negócios, e referência em diversas mídias das Organizações Globo: colunista diária do jornal O Globo e do Globo Online, apresentadora de programa no canal a cabo GloboNews, além de comentarista na TV Globo e da rádio CBN. Vencedora de vários prêmios, entre eles o Maria Moors Cabot Prize, da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia. Seu último livro, A saga brasileira, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria reportagem, teve mais de 100 mil exemplares vendidos e figurou por 20 semanas nas principais listas de best-sellers nacionais.

A VBM Agência e Consultoria Literária, com escritórios no Rio de Janeiro, em Nova York e Atlanta, representa autores de ficção e não ficção, e também catálogos de editoras e agências literárias nos Estados Unidos e na Europa. Em um mercado em expansão e constante mudança como o brasileiro, o primeiro objetivo da VBM é a valorização social da obra literária e do escritor. www.vbmlitag.com