testeAs garotas: O lado sombrio da adoração

“O desejo das pessoas chegava a esse ponto – a vontade de ter certeza de que suas vidas tinham de fato acontecido, de que a pessoa que um dia haviam sido continuava a existir dentro delas.”

No verão de 1969, Evie Boyd era apenas mais uma garota de quatorze anos, perdida e entediada. Até que foi arrebatada pela visão de um grupo de garotas no meio de um parque, autoconfiantes, felizes e, acima de tudo, livres. Essa fascinação leva a jovem a seguir as garotas, que embarcam em um peculiar ônibus preto e desaparecem da cidade por dias.

Sem conseguir tirar de seus pensamentos a imagem de Suzanne, líder do grupo, Evie finalmente tem uma chance de experimentar a sensação de liberdade pela qual tanto esperava quando as garotas a encontram por acidente e a levam para um rancho escondido nas colinas. Lá, elas e dezenas de outras pessoas vivem em uma comunidade alternativa, guiadas por Russell, um homem carismático e perigoso. Sem saber da tragédia que se aproxima, Evie começa a passar cada vez mais tempo no rancho, em uma jornada de autodescobrimento com as garotas que mudariam para sempre sua vida, talvez não para melhor.

Inspirada pelo impacto e pela comoção dos assassinatos cometidos pelo culto de Charles Manson nos Estados Unidos no fim da década de 1960, Emma Cline – eleita pela Granta entre os melhores jovens autores dos Estados Unidos – mostra em As garotas, seu romance de estreia, um retrato atemporal das turbulências, das vulnerabilidades e da força das mulheres em sua passagem à maturidade – e de como, com apenas um passo errado, tudo pode acabar da pior forma possível. O livro chega às livrarias brasileiras em 25 de maio.

testeComo frustrações e preconceitos podem destruir uma família

Por Luana Freitas*

A partir da trágica história de uma menina morta, Tudo o que nunca contei revela os segredos mais bem guardados de uma família de ascendência chinesa nos Estados Unidos na década de 1970

Eu adoro trabalhar no texto dos livros, pois cada um é um mergulho ímpar em uma nova realidade e traz uma série de descobertas. O último que me deixou fascinada foi Tudo o que nunca contei, de Celeste Ng (autora também de Pequenos incêndios por toda parte). Como o título já entrega, ele é centrado em uma série de segredos que sustenta a tensa relação de uma família. Tudo é permeado de silêncios, omissões e até fingimento. Quando Lydia, a filha preferida do casal Lee, some e depois se descobre que ela está morta, o tênue equilíbrio que mantinha o véu de suposta harmonia da família se desfaz, e agora cada um empreende sua busca por respostas sobre quem realmente era a adolescente e o que poderia tê-la levado a assumir um comportamento tão perigoso que culminou na sua morte.

Mas há um detalhe importante aqui: a história se passa na década de 1970, então estamos falando de uma investigação pré-revolução da telefonia celular e outras tecnologias. Nada de Instagram, Facebook e troca de mensagens de WhatsApp para tentar descobrir qual de fato era a personalidade de Lydia e com quem ela mantinha contato. Nada de celular com GPS para rastrear seus últimos movimentos. Câmeras em ruas e lojas que pudessem registrar seu comportamento e humor? Esqueça.

Também há uma questão de suma relevância para o drama de nossos personagens: James Lee, pai de Lydia, é filho de chineses chegados ilegalmente aos Estados Unidos. Apesar de ser americano, ele carrega consigo o peso do preconceito contra asiáticos na década de 1970 e a dor de nunca se sentir integrado, aceito. São os risos e dedos apontados na rua, a promoção que não veio, a necessidade de se casar em um estado que não considere crime a união de pessoas de raças diferentes. Isso porque Marilyn, sua mulher, é branca, a típica menina americana da década de 1970, criada para ser uma boa dona de casa, esposa e mãe — lembremos que nessa época a presença da mulher no mercado de trabalho ainda não era algo comum. Só que Marilyn tem um sonho: ser independente, ter uma carreira de sucesso como médica. E ela quase chegou lá: conseguiu entrar para a faculdade, estava se dando bem nas disciplinas, mas justo quando faltava pouco para se formar ela se vê grávida.

Crédito: Kevin Day

Isso tudo faz de Lydia, a filha do meio desse casal com uma história tão conturbada, alguém que precisa encontrar estratégias para lidar com o fato de ser diferente em uma época especialmente cruel com aqueles que não se enquadravam no padrão americano de aparência — e em uma fase da vida por si só complexa: a adolescência. Como se isso não bastasse, ela se vê obrigada a compensar os pais pelas frustrações, anseios e inseguranças que cada um carrega, violentando a própria identidade na tentativa de ser quem eles desejam que ela seja.

Para mim, a grande surpresa do livro foi descobrir que ele não é exatamente um thriller: não importa tanto quem ou o que matou Lydia e logo na primeira linha o leitor já sabe que ela está morta. O interessante é acompanhar a dinâmica que compõe essa família, ver como as relações e principalmente o background cultural da época moldaram cada personagem, levando-os à ruína. Se há medo aqui, é o de se identificar com algumas dores dos personagens, já que eles sofrem visceralmente com questões que nos afligem ainda hoje, como aceitação, integração, a pressão gerada pela expectativa dos outros e, o pior, o temor de descobrir que o sonho que o mantém vivo, aquilo que se acredita determinar quem você é, não passa de ilusão, apenas faz de você um ridículo.

*Luana Freitas é editora assistente de ficção e não ficção estrangeiras. Estuda tradução e até hoje se espanta com o universo de descobertas que faz ao trabalhar com livros.

testeTesouras afiadas na alta sociedade

A modelo Marina Montini (Fonte)

Jean-Luc Bernard, o cabeleireiro francês que morreu nesta quarta-feira, dia 8 de fevereiro, aos sessenta e sete anos, foi trazido de Paris para o Rio de Janeiro na década de 1970 por Zózimo Barrozo do Amaral, um de seus clientes no famoso salão Carita, no Faubourg Saint-Honoré.

O colunista apresentou Jean-Luc a Jambert, o espanhol naturalizado brasileiro que era o preferido das cabeças elegantes do high society carioca. Adoraram-se. A favor da permanência de Jean-Luc no Rio, havia o fato de ele ser fanático por caça submarina. Jean-Luc virou sócio de Jambert e abriu o braço masculino da grife. Foram felizes por alguns anos até que, grandes divas das tesouras, brigaram. Cada um com suas brilhantes carreiras, mas solo, foram em frente.

Jean-Luc mantinha até morrer um salão na rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. Dizia que por várias vezes tentou tirar o bigode de Zózimo, mas sem sucesso. Sua tesoura descia até o ombro do colunista, que tinha o tórax muito cabeludo.

Cabeleireiros — e não só Jambert e Jean-Luc — brigavam muito, mas pelo menos mantinham a elegância de deixar as tesouras de lado.

O cabeleireiro Silvinho (Fonte)

Jambert esteve envolvido em outra briga com um colega. Seu oponente dessa vez era Silvinho, que ficou famoso por ter cabelos enormes, ser muito bonito e participar do júri do programa do Chacrinha na TV. Silvinho era funcionário do salão de Jambert. Não se conformava que, embora popular na mídia, não conseguisse colocar em sua cadeira as madames vipadas que se entregavam às mãos de tesoura do patrão. Jambert conversava em francês enquanto cortava. Já a grande cliente de Silvinho era Elke Maravilha.

Finalmente rompido com Jambert, Silvinho foi em frente com salão próprio. Na busca pelo crédito de qualidade, reconheceu em Zózimo um inimigo. Achava que nas suas notinhas o colunista era mais generoso com Jambert. Silvinho aliou-se a outros jornalistas.

Num dos rounds dessa pugna, ele teve como parceira a modelo Marina Montini, famosa por posar nua para uma série de mulatas pintada por Di Cavalcanti. Quando o pintor morreu, ela tentou vender alguns desses quadros e Zózimo publicou os preços alardeando espanto, pois os julgava muito acima do mercado. A intenção comercial de Marina fracassou e ela resolveu se vingar do colunista juntando-se ao amigo cabeleireiro.

Silvinho fez nela um penteado bem ao estilo anos 1980, com um enorme aplique que dava ao cocoruto de Marina ares de uma juba de pantera, a grande moda escandalosa do período. Quando um repórter de uma revista de celebridades perguntou a Silvinho qual o nome daquela sua nova obra, ele não teve dúvida:

— O penteado chama-se Cascata Zózimo Barrozo do Amaral, porque pra fazer um é preciso muita imaginação.

Não era uma homenagem, mas uma tesourada de humor mau. Como se sabe, em gíria jornalística, colunista que inventa notícia é chamado de “cascateiro”.