testeMalorie, sequência de Caixa de pássaros, ganhará filme da Netflix

Caixa de pássaros, thriller de Josh Malerman que inspirou o filme Bird Box, um dos maiores sucessos da Netflix, ganhará uma continuação nos livros e também nas telinhas! Em entrevista ao Inverse, o autor confirmou que a adaptação de Malorie já está em desenvolvimento.

Desde que as criaturas tomaram conta do mundo, não abrir os olhos se tornou uma regra incontestável para Malorie. Doze anos após a perigosa viagem de barco no rio, o universo permanece dominado pelo caos e ela ainda se lembra com clareza da violência indescritível que presenciou. 

Quando uma notícia que parecia impossível chega trazendo esperanças à família, Malorie precisa fazer uma escolha difícil: viver de acordo com as regras de sobrevivência que funcionaram tão bem até então, ou se aventurar na escuridão mais uma vez?

Estão animados? Malorie chega às lojas no dia 21 de julho, em lançamento mundial. Use o cupom MALORIE10 na Amazon e garanta o seu exemplar com desconto especial! 

testeLivro de estreia de Kurt Vonnegut ganha nova edição

Piano mecânico retorna às livrarias com novos projeto gráfico e tradução após mais de 40 anos fora do mercado brasileiro

“Pela primeira vez, depois do imenso banho de sangue da guerra, o mundo estava realmente limpo de terrores não naturais: fome, encarceramento, tortura, assassinato. Objetivamente, o know-how e a legislação global estavam recebendo sua tão esperada chance de transformar a Terra em um lugar agradável e conveniente para se aguardar o Juízo Final.”

Nas primeira páginas de seu livro de estreia, Kurt Vonnegut apresenta uma trama de ficção científica que parece uma utopia futurista, mas que aos poucos se revela uma distopia opressora: Piano mecânico se passa em um futuro não muito distante quando, enfim, as máquinas venceram.

Após a Terceira Guerra Mundial, o mundo se reconstruiu e se reinventou. Quase tudo foi automatizado e a sociedade se dividiu em um novo sistema social, não mais baseado em dinheiro, mas em inteligência. Os indivíduos são classificados e registrados de acordo com seu QI e capacidade intelectual; a posição social – um destino de glória ou esquecimento – de cada um é definida exclusivamente a partir da análise desses dados.

Do lado dos privilegiados, o dr. Paul Proteus leva uma vida confortável. Mas a visita inesperada de Ed Finnerty, seu inquieto e inconformado ex-colega de trabalho, abala sua rotina cômoda e previsível. Após esse encontro, Proteus começa a questionar a hierarquia e a imaginar se uma vida mais simples e sem privilégios não seria uma forma de voltar a se sentir humano.

Mais do que uma crítica ao progresso desenfreado das tecnologias, Piano mecânico é um livro sobre o desconforto que toda estrutura social causa ao homem. A obra compartilha da ansiedade do pós-guerra presente em 1984, de George Orwell, e explora o medo de que, em tempos de paz, as nações venham a se submeter a níveis de controle social quase paranoicos.

Publicado originalmente em 1952, Piano mecânico chegou ao Brasil em 1973 com o título Revolução no futuro. No ano seguinte, ganhou uma reedição pela editora Círculo do Livro, mas está fora das prateleiras desde então. Agora, mais de 40 anos depois, o livro de estreia de Vonnegut retorna às livrarias pela Intrínseca.

Com tradução de Daniel Pellizzari e seguindo o projeto gráfico de Matadouro-Cinco e Café da manhã dos campeões, Piano mecânico ganhará uma edição especial, com capa dura e pintura trilateral. O livro chega às livrarias em 27 de agosto.

testeContinuação de M, o filho do século explora a aliança entre o fascismo e a Igreja

Novo livro de Antonio Scurati foca os anos centrais do regime fascista e investiga a atuação da Igreja no governo de Mussolini

Primeiro volume de uma trilogia, M, o filho do século já vendeu mais de 10 mil exemplares no Brasil e ganhará uma continuação em breve. M, L’Uomo della Provvidenza, dá prosseguimento ao relato da trajetória de vida e política de Benito Mussolini, agora com enfoque no período de consolidação do regime fascista na Itália.

Abordando o período de 1925 a 1932, Antonio Scurati mostrará as consequências das leis fascistas que desmantelaram o Estado italiano até o aniversário de 10 anos da Marcha sobre Roma. Permeando aspectos da vida social, política e espiritual do país, a obra abordará os anos centrais do fascismo e a importância de sua aliança com a Igreja católica.

A expressão “Homem da providência”, que dá título à edição original do livro, vem das declarações do alto clero e do papa Pio XI ao se referirem a Mussolini. O ditador foi o principal responsável pelo acordo que transformou o Vaticano em um Estado independente após assinar o Tratado de Latrão. Por esse feito, ele recebeu das mãos do papa a Ordem da Espora de Ouro, a mais alta distinção concedida pelo Vaticano. A relação entre a Santa Fé e o líder fascista também foi explorada em O papa e Mussolini, de David I. Kertzer, biografia ganhadora do Pulitzer em 2015 e publicada pela Intrínseca em 2017.

Ainda sem título em português, M, L’Uomo della Provvidenza, será publicado em setembro na Itália e ainda não tem previsão de lançamento no Brasil.

testeComo nasce a ideia de um livro?

Tal como uma tia-avó, que no dia seguinte ao casamento já começa a perguntar “quando chegam os filhos?”, bastou eu lançar O livro de Líbero para começar a ouvir perguntas sobre o próximo projeto. “Já começou? Está escrevendo?”.

A resposta é não. Mas também pode ser sim, dependendo do que se entende por “começar” ou “escrever”. Não, ainda não sentei em frente ao computador e comecei a despejar palavras formando frases e capítulos, mas essa imagem clichê talvez seja apenas uma simplificação, a última etapa de um longo processo disso que se chama “escrever”.

Imagino que cada escritor tenha seus métodos e manias, mas, no meu caso, o processo começa muito antes, com filmes a que vou assistindo, leituras que vou devorando, situações que vivencio, com todos esses fiapos de ideias que vou anotando e guardando na cabeça. Uma colcha de retalhos de imagens, sentimentos e referências que, com sorte, pode acabar frutificando e rendendo uma boa história.

Nesse sentido, então, já estou escrevendo.

Para mim, escrever é um estado de espírito, é estar atento, e estar ativamente em busca da próxima história é feito uma caçada, o que é bastante cansativo. Talvez essa fase de busca e pesquisa seja a mais trabalhosa e menos prazerosa. O que vem depois, apesar de toda a solidão e dedicação dos meses passados diante da tela do computador, é a parte boa e divertida, quando as peças começam a se juntar e os personagens ganham vida.

Em geral, pensamos nos artistas, incluindo os escritores, como pessoas banhadas pela luz da inspiração, que acordam certo dia com uma ideia genial e prontas para colocá-la em prática. Devem existir alguns sortudos desse naipe, mas não é o meu caso. É desesperadora a busca por uma boa ideia. Inclusive, uma das minhas frases favoritas sobre a escrita veio não de um escritor, mas de Thomas Edison: “O sucesso é constituído por 10% de inspiração e 90% de transpiração”.

Está na hora, então, de começar a suar a camisa. O problema é que em meio a todo esse caos da pandemia tem sido difícil me concentrar ― mas esse já é assunto para a próxima coluna.

testeConheça o novo livro da autora de A última festa

Quando foi enviado no clube intrínsecos, em dezembro de 2019, A última festa logo se tornou um dos favoritos dos assinantes. Desde que chegou às lojas em sua versão comercial, os fãs de thriller e adoradores de Agatha Christie também abriram um espaço em suas listas de leitura para conhecer a história dessa festa de ano-novo que não acabou nada bem.

Agora, quem gostou de A última festa ganhou mais um motivo para comemorar: o novo livro da autora, The Guest List, será publicado no Brasil pela Intrínseca!

Ainda não foram definidos o título em português e a data de lançamento, porém a nova obra de Lucy Foley promete fortes doses de mistério e tensão. Em The Guest List, a noite de réveillon de A última festa dá espaço a uma celebração de casamento e a neve é substituída por uma forte tempestade. Na história, a festa dos sonhos vira um pesadelo quando uma queda de luz deixa todos no escuro e, de repente, uma das pessoas presentes aparece morta. Quem estaria interessado em estragar o casamento e por quê?

Preparem-se, pois os novos mistérios estão só começando e todos são suspeitos mais uma vez…

Se você é fã de thrillers, mas ainda não leu A última festa, confira um trecho.

testeViva a ciência: dicas de livros para quem gosta de saber mais

“Quando me deparo com um enigma, não consigo deixá-lo.”

― Richard Feynman

Vivemos um momento no qual, mais do que nunca, a ciência se mostra tão necessária. Precisamos de pesquisas, experimentos, estudos… Precisamos questionar. Por isso, celebremos nossos cientistas!

Inspirados pelo Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador, comemorado no dia 8 de julho, convidamos os leitores a conferirem uma lista com algumas obras que reforçam a importância dos cientistas para o mundo:

 

Stephen Hawking

Stephen Hawking foi um dos físicos mais importantes do nosso tempo. Além de revolucionar a ciência com sua pesquisa sobre buracos negros e a origem do universo, ele era conhecido pelo senso de humor ácido presente em todos os seus livros, como Uma breve história do tempo e O universo numa casca de noz.

Um pouco antes de falecer, o cientista estava trabalhando em uma obra inédita, Breves respostas para grandes questões, na qual traz respostas para dez grandes mistérios da humanidade.

 

Medicina dos horrores

No século XIX, existiu um médico que uniu ciência e medicina. Estamos falando de Joseph Lister, o herói da cirurgia e o homem responsável por solucionar um dos maiores mistérios de sua época.

A partir de suas pesquisas, que sofreram duras críticas da comunidade médica da época, Lister identificou o motivo de haver tantas mortes nos ambientes hospitalares. A resposta? A descoberta da existência de micróbios! O médico também criou o método antisséptico, inspirou o desenvolvimento de produtos de higiene pessoal (como o Listerine) e fez descobertas cruciais sobre coagulação sanguínea e inflamações. Sua incrível história é contada no livro Medicina dos horrores, da doutora em história da ciência e da medicina Lindsey Fitzharris.

 

Recursão

Blake Crouch é um dos nomes mais relevantes da ficção científica contemporânea. O autor de Matéria escura ― livro em que um cientista é raptado e se vê em uma realidade que parece outra versão da sua vida ― está de volta com a obra Recursão.

Nessa nova história, uma doença começa a assolar o mundo: a Síndrome das Falsas Memórias. De repente indivíduos passam a se lembrar com detalhes de vidas que nunca tiveram, o que os leva a tomar decisões catastróficas. Entrelaçando as perspectivas do policial Barry Sutton e da neurocientista Helena Smith, descobrimos que o tempo não é mais como o conhecemos. Agora, os dois precisam se unir se quiserem sobreviver e salvar a humanidade.

 

A grande gripe e Inimigo mortal

Os livros podem nos ajudar a entender os tempos de pandemia, descobrir como uma crise dessa magnitude é desencadeada, discutir o que pode ser feito para minimizar seus desdobramentos e até prevenir que outras epidemias aconteçam. Diante desse cenário, a ciência exerce um papel fundamental e tal assunto é abordado em dois livros muito instigantes.

Em  A grande gripe, o historiador e pesquisador John M. Barry conta como ocorreu o surto da gripe espanhola, uma das maiores pandemias da história, mostrando os esforços da comunidade científica para combater o vírus e fazendo uma análise extremamente atual de como situações como essa estão relacionadas à política, ao poder, à ciência e, sobretudo, ao acesso à informação.

Na obra Inimigo mortal, os autores Michael T. Osterholm e Mark Olshaker embarcam em uma viagem pelo mundo dos micróbios, analisando vírus, bactérias, príons e parasitas para explicar a guerra diária travada entre a humanidade e nossos adversários microscópicos. Afinal, para sobreviver em um mundo com tantos perigos, é preciso ser mais inteligente do que nossos inimigos invisíveis.

 

Ada Batista, cientista

Ninguém é pequeno demais para pensar grande! Esse é o caso de Ada Batista, cientista, que faz parte da Coleção Jovens Pensadores.

Ada só começou a falar aos três anos, e suas primeiras palavras foram: “Por quê?” A partir daí a menina curiosa não parou mais. Saber a origem e o nome das coisas era sua atividade preferida, e ela tinha todas as qualidades de uma grande cientista. Mas, quando seus experimentos vão longe demais, seus pais ficam preocupados…O que será que a mente cheia de ideias de Ada vai aprontar? Chame os pequenos para se encantar com essa história!

 

Endurance: Um ano no espaço

Scott Kelly já fez quatro viagens ao espaço, comandou a Estação Espacial Internacional (EEI) em três expedições e integrou a missão de permanência de um ano na EEI. Nessa missão, Kelly bateu o recorde de dias consecutivos passados no espaço e o de astronauta americano que mais tempo permaneceu no espaço em uma única missão.

No livro Endurance, ele compartilha os detalhes dessa experiência, desde os efeitos arrasadores no corpo, passando pelo perigo de colisão com lixo espacial até suas reflexões sobre o futuro da Nasa.

 

Aniquilação

Quatro mulheres ― uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga e uma bióloga ― formam a décima segunda expedição com destino a Área X, um lugar isolado do mundo há décadas onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Sua missão é mapear o terreno, identificar todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não se contaminarem.

Aniquilação inspirou o filme homônimo da Netflix estrelado por Natalie Portman e Oscar Isaac, já disponível na plataforma.

 

Só pode ser brincadeira, sr. Feynman!

Richard Feynman foi um gênio incomum. Sua notável capacidade intelectual se iguala ao seu impulso por aprender: instrumentos musicais, pintura, línguas, comportamento humano, biologia… O físico parece uma máquina de absorção de conhecimento, capaz de entender e explicar o mundo de forma inusitada aos seus leitores.

É possível conhecer um pouco mais sobre as fascinantes histórias desse professor ganhador do Prêmio Nobel de Física em Só pode ser brincadeira, sr. Feynman!, obra perfeita para todos aqueles que são apaixonados por ciências.

testeSol da meia-noite: Como nasce um lançamento simultâneo

*Por Suelen Lopes

Todos na Intrínseca são apaixonados por livros e é sempre muito incrível para a gente ver a movimentação dos leitores em torno de um título. Em 2005, quando Crepúsculo foi lançado nos Estados Unidos, eu ainda estava na escola e lia tudo da J.K. Rowling e da Meg Cabot (obrigada aos amigos que me emprestaram seus livros!). Crepúsculo chegou ao Brasil depois, em 2008, e era difícil não saber da existência dele. Nessa época, já na universidade, sendo aluna de um curso voltado para a produção de livros, era quase impossível.

A saga Crepúsculo é um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos tempos. Se pensarmos no universo dos livros jovens, então, ela tem ainda mais destaque. Hoje sou leitora de muitos tipos de obras e já editei os mais diversos livros, o que nunca teria acontecido sem as tantas séries que li na adolescência e seus autores, que acreditam na formação de leitores e se dedicam ao público jovem.

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Uma das nossas maiores alegrias é poder levar esses livros para vocês, na expectativa de que ler se torne um hábito para cada vez mais pessoas. Nada impede que um adulto goste de livros para o público jovem, ou que um jovem goste de livros literários. Isso independe de qualquer distinção elitista (e tão comum) entre gêneros. É uma questão de hábito, gosto e acesso. Não devemos ter vergonha do que gostamos de ler. Ler é incrível. Por isso, é ao mesmo tempo um desafio e um privilégio poder compartilhar com vocês como foi conduzir, após mais de uma década de espera, a chegada de Sol da meia-noite ao Brasil.

 

Tudo é sigiloso

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Muitos pensam que nós da editora sabemos de tudo com muita antecedência, mas não é bem assim. Quando capítulos de Sol da meia-noite vazaram, lá em 2008, a autora decidiu não publicá-lo. Muitos fãs leram esse trecho vazado na internet e alguns acreditam (fiquei surpresa!) que esse livro já foi lançado pela Intrínseca anos atrás, mas isso não aconteceu. Nosso primeiro contato com Sol da meia-noite foi em 4 de maio de 2020, o mesmo dia em que vocês souberam que ele finalmente ia ser publicado.

A partir do anúncio, tudo se resumiu a alegria, correria, empolgação e… eu mencionei correria? Publicar um livro envolve muitos processos, e processos demandam tempo. Um livro, esse objeto que amamos e chega na nossa casa, traz consigo o trabalho de dezenas e dezenas de pessoas e, sem elas, ele simplesmente não existiria.

Para começar, precisávamos adquirir os direitos de publicação no Brasil. Todos os profissionais envolvidos nessa etapa correram contra o tempo, porque só depois de firmados os acordos receberíamos o material para dar início à tradução, e quanto mais demorasse para começar, menor a chance de conseguirmos nos aproximar do lançamento nos Estados Unidos.

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Ao passar de fase nesse jogo tão peculiar chamado lançamento simultâneo, adivinhem: você não pode contar nada para ninguém. Isso mesmo, você vai ler em primeira mão o que milhares de pessoas estão esperando há mais de uma década, mas não pode falar sobre isso com ninguém. Todos os envolvidos precisam assinar um termo de sigilo (também conhecido como NDA – Non disclosure agreement).

 

Tudo é uma correria

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Antes mesmo de começar a tradução, precisávamos da imagem de capa para o anúncio de que iríamos publicar o livro. Em um cenário normal, receberíamos os arquivos da editora estrangeira e faríamos a adaptação, mas não sabíamos quando iam chegar. Por isso, precisamos recriar a frente de capa com uma bela gambiarra (obrigada, A., designer que tantas vezes nos salva do caos!). E também tivemos que escrever o release que é enviado para as livrarias, para abrir a pré-venda (ainda com algumas informações provisórias, porque vocês são muito detetivões). Tudo isso foi devidamente aprovado com os agentes da autora.

Em paralelo, testes de papel estavam sendo feitos pela equipe de Produção Gráfica, para que conseguíssemos incorporar uma nova tecnologia ao livro, mantendo a qualidade do produto e o preço acessível, e também resolvíamos com o setor Administrativo a logística dos materiais necessários para trabalharmos no projeto de casa, em meio a uma pandemia (pois é!). Direitos Autorais, Editorial, Marketing, Comercial, Comunicação, Produção Gráfica e Administrativo já estavam todos a postos nesse comecinho.

 

Tudo é coordenado

you found a reason to stay — b99 meme: [1/15] things → amy + binders

Vamos ao livro! Para garantir o lançamento na data prevista, é preciso traçar um cronograma com todas as etapas do processo editorial, a fim de garantir que elas sejam realizadas com qualidade e dentro do prazo. Como vocês já sabem, Sol da meia-noite é bem grande, e quanto maior o livro, mais tempo de produção ele demanda. Foi uma tarde muito longa (e desesperadora, mas hoje digna do meme “O início de um sonho/Deu tudo certo”) fazendo o cronograma, a projeção de laudas, puxando células de Excel pra cá e pra lá, mudando detalhes, dividindo quem fazia o quê, calculando prazos e o número de colaboradores necessários. Cada dia era importante.

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Depois do NDA e de acertar o contrato, recebemos o manuscrito traduzível (isso mesmo, nem sempre é o final) e tínhamos que deixar tudo pronto para a tradução. Por se tratar de um título que faz parte de um universo de livros já publicados, precisamos realizar uma etapa a mais: o cotejo atento do livro novo, isto é, verificamos o que havia de igual no manuscrito em inglês de Sol da meia-noite e nos das outras obras da saga, para já agilizar isso para os tradutores e manter a coerência na tradução. Foi uma etapa trabalhosa (dividida com a Talitha, uma eterna Crepusculete), cuidadosa e demorada, mas interessante, porque ficou muito evidente para nós como a língua é dinâmica e as traduções envelhecem em alguns aspectos. É um processo natural. E, passada mais de uma década, tivemos que avaliar caso a caso o que seria mantido da tradução original e o que precisaria de ajustes na tradução de Sol da meia-noite. Tentamos ser fiéis nesse sentido sempre que possível.

Após tudo isso (é só o começo), já combinados os prazos com diversos colaboradores, tivemos que desenvolver um esquema para fazer o envio de materiais mantendo a segurança e o sigilo (oi, NDA, não esqueci de você, vou parar de falar por aqui), e o cronograma foi colocado em ação, envolvendo tradutores, preparadores, revisores, diagramadores, designer e a equipe do departamento Jovem (beijos, perfeitas!). Ah, sem falar, é claro, que no caso de um lançamento simultâneo todas as etapas vão acontecendo meio que… ao mesmo tempo.

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A tradução é, sem dúvida, a etapa crucial. Se ela começa mal, a chance de o projeto dar certo diminui bruscamente, e aumentam os suspiros e as lágrimas do editor. Felizmente foi uma etapa bem-sucedida, e fica aqui meu agradecimento a todas as tradutoras, que se comprometeram muito com o projeto, atentas a todos os prazos e a todas as orientações. Nada disso seria possível sem vocês.

Após a tradução, o livro passou pelas preparadoras de texto (sem palavras!), que cotejaram a tradução com o manuscrito em inglês, fazendo intervenções para adequar o texto traduzido no que fosse necessário, atentando também a coerência, coesão, fluidez, padronização, entre tantas outras coisas. Inserimos ainda mais uma leitura do texto no Word, realizada por outra preparadora (N., saudades sempre!) e pela editora (eu!). Foi uma das etapas mais prazerosas, porque o texto já estava bem encaminhado, dentro do prazo, e pudemos aproveitar mais o fato de estarmos participando de um projeto tão incrível. Relemos os livros, revimos os filmes (fim de semana? O que é isso?), tudo para ter certeza de que a tradução estava adequada à saga. Poder ler Sol da meia-noite inteiro, agora em português, foi indescritível, quase tão bom quanto finalizar as etapas editoriais antes do prazo. (Trilha sonora: “Miracles Happen”, de Myra.)

Mademoiselle Loves Books: 10 gifs que traduzem perfeitamente os ...

Conforme íamos liberando os capítulos para as diagramadoras (sempre incríveis e ágeis!), o livro foi ganhando a forma que os leitores conhecem, com o texto já disposto no seu projeto gráfico. A prova diagramada seguiu para os revisores (maravilhosos!) e depois a equipe interna do editorial leu o texto, avaliando as sugestões dos revisores, e tudo isso com outras demandas e títulos sendo tocados em paralelo. Nesse meio-tempo, também chegou o manuscrito final de Sol da meia-noite, então chequei as diferenças entre o manuscrito traduzível e o final, traduzi todos os novos trechos e inseri na nossa edição, para que tudo ficasse certinho (ufa!).

Após a liberação da revisão, seguimos as etapas tradicionais do processo editorial (batida de emendas, checklist) e houve mais uma leitura do livro inteiro (porque a editora é virginiana e isso é uma maldição). Contamos também, em paralelo, com a leitura de Crepusculetes incríveis (e preciosas!) do Marketing da Intrínseca (todo mundo assinou NDA, tá?), que nos trouxeram o olhar de fã para possíveis ajustes no texto final, e partimos para as últimas etapas: aprovação com os agentes e fechamento de miolo e capa. E então estava tudo pronto para que a Produção Gráfica se preparasse para a impressão, a Produção Digital tocasse o e-book, a Comunicação se programasse com a imprensa e o Marketing (sem nem um dia de descanso) continuasse respondendo os fãs nas redes e seguisse com a campanha.

 

(E com afeto)

best-book-gif ⋆ BYT // Brightest Young Things

Do recebimento do manuscrito traduzível ao fechamento do livro, passaram-se cerca de 45 dias. Acreditem, isso é muito pouco. Foi um desafio enorme para todos, ainda mais em uma nova estrutura de trabalho. Lembrem que por trás dos livros há sempre muitas pessoas (de dentro e de fora da editora), e elas leem o que vocês escrevem, se importam com o que vocês dizem. São profissionais que se dedicam a algo que eu, pessoalmente, considero fundamental. Os livros mudaram a minha vida e ainda mudarão muitas outras.

Sabemos como Sol da meia-noite é aguardado pelos fãs e desejamos que a leitura seja inesquecível. Agora é só começar a contagem regressiva, porque tenho certeza de que o Edward mal pode esperar para contar essa história para vocês.

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*Suelen Lopes é editora na Intrínseca. Tem dormido muito pouco desde 4 de maio de 2020, mas espera que muitos sonhos se realizem a partir de 4 de agosto.

testeMinha saudade parece ser maior do que eu

Hoje, acordei com SAUDADE em caixa-alta. Sei lá, minha saudade parece ser maior do que eu. E, justamente por não caber mais em mim, fica ali — a meu lado — feito alma. Uma espécie de puxadinho, extensão invisível de memórias e afetos. E, justamente por não caber mais em mim, ela faz morada no espaço que me envolve, toma posse de todo o meu redor. Quero roer essas imagens. Posso? Esse aperto tão perto de mim agora tem nome. E esse nome ora traz angústia, ora traz bonança. 

Toda palavra tem uma história, um peso, uma leveza, uma intenção. Mas, no caso de saudade, eu sinto que ela é uma história que tem uma palavra. Saudade sozinha não pesa nada, não levita tanto, não demonstra intenção alguma. É vazia. Diferente de silêncio — palavra-próxima no dicionário —, saudade precisa ser povoada de pessoas ou lembranças. Divergente de solidão — outra vizinha não muito distante —, saudade exige certa existência alheia. É perfeitamente possível ser sozinho só. É praticamente impossível sentir saudade sem ter nada além de si. Ela carece de outro alguém, de outro algo ou de qualquer outro interlocutor — não necessariamente humano — presente nessa interação. Saudade é o corpo que segura em suas mãos, de um lado, o passado; do outro, o futuro.

A saudade que me chega agora se parece intensamente com meu avô. Já escrevi tanto sobre ele que tenho medo de esgotar todo esse sentimento. Não sei se as lembranças são feito um pneu que se desgasta no tempo. Espero que não. Não quero economizar a imagem que guardo dele. Não quero jamais abandonar a emoção ao recordar de sua pequena cicatriz no nariz. Meus olhos se enchem d’água. Sinto que vou me afogar. Eu nunca me despedi do meu avô.

Lembrar de forma seca não é saudade. É um simples pensamento insensível de momentos passados. O dia que eu pensar no senhor sem me emocionar, você terá morrido de vez. Será sua segunda morte. Mas você ainda está vivo! É preciso tantas outras despedidas para aceitar que alguém realmente se foi. Se ainda tenho seu relógio guardado na gaveta da mesinha de cabeceira, ainda tenho seu tempo comigo. O pneu ainda está em movimento, a SAUDADE não se desgastou…

Podemos ir comprar soldadinhos de chumbo na Feira de Ipanema?

testeA ansiedade, por Mariana Enriquez

Por Mariana Enriquez*
Tradução de Elisa Menezes

Mando um e-mail. Preciso resolver uma questão administrativa de trabalho. Respondem, resolvendo mais ou menos rápido, e a pessoa que me atende acrescenta, antes de se despedir, “ISSO parece um conto seu”.

ISSO é a pandemia, claro.

Respondo com um “obrigada” lacônico, sem menção alguma à observação sobre os meus contos que, de fato, são de terror. Não sei o que dizer. Isso acontece quase o tempo todo, e constantemente me pedem para dizer algo. Uma coluna sobre como estou lidando com o confinamento. Uma opinião sobre a natureza mutante do vírus. Acho bonitas as cidades vazias e parcialmente retomadas pelos animais? Tudo é contraditório e angustiante. Um escritor, um artista, deve poder interpretar a realidade, ou ao menos tentar. Como alguém que trabalha com a linguagem, eu deveria colaborar com o debate público. Pensando, escrevendo, interpretando. Mas, a cada dia que passa, pensar nessa pandemia se torna uma neblina densa: não enxergo, estou perdida, mal consigo distinguir minhas mãos se as estendo. A escritora Carla Maliandi comenta em seu Facebook que o filósofo Karl-Otto Apel, amigo de sua família, contou, entre uma empanada e outra, que “durante a Segunda Guerra Mundial precisou prestar serviço militar na Alemanha. Sua tarefa era patrulhar as ruas dentro de um tanque de guerra enquanto do lado de fora bombas explodiam e o mundo era o próprio inferno. Ele nos disse que foi um momento muito importante em sua formação e que graças àquela clausura pôde ler e estudar Aristóteles, Kant e Hegel pela primeira vez”. Maliandi se pergunta como é possível uma concentração assim, a propósito de uma nota em que diversos escritores se dizem incapazes de ler, de ver filmes, ansiosos e hiperalertas e passam a metade do tempo em vídeo-chamadas ou checando se parentes e amigos precisam de alguma coisa.

Por que tenho que ser intérprete desse momento?

Porque escrevi alguns livros? Me rebelo ante essa demanda por produtividade quando tudo que sinto é perplexidade. Poder, poder, poder, o que podemos fazer, o que podemos pensar. Conversando com uma amiga, eu disse, sinceramente: “penso curto”. É verdade. Não encontro reflexões. Encontro: como (não) usar internet banking com bancos que oferecem sistemas hostis, não atendem o telefone e são implacáveis na cobrança de pagamentos. Encontro: como evitar o medo cada vez que meu companheiro sai para comprar a nossa comida. O que farei se ele ficar doente. É muito pouco provável que isso aconteça, digo a mim mesma e me dizem os especialistas. Tudo o que repito não me serve de nada e tenho pavor de que ele termine em um hospital de campanha. Ou minha mãe. De outro veículo, recebo uma série de perguntas: “Quais medos o isolamento gera? Que traumas ele provoca? O que vai acontecer com a humanidade? Como construir o novo normal?”

Todas as perguntas me deixam muda. Todos os traumas, todos os medos, não sei o que vai acontecer com a humanidade, como pensar em “humanidade”, o que isso significa, por que temos que pensar na nova normalidade se a pandemia acabou de começar, pelo menos na Argentina. Todas essas palavras que escuto, todo esse barulho feito de opiniões e dados e metáforas e recomendações e lives no Instagram e a continuidade das atividades em formato virtual, toda essa intensidade não seria, por acaso, puro pânico? Que buraco se tenta tapar? Qual fantasia de extinção? Penso em insetos escapando da mão que ergue o veneno. A barata que corre e corre e consegue se esconder atrás da máquina de lavar.

Sinto como se tivesse acabado de sofrer um acidente de carro. Vejo a fumaça saindo do motor, sinto o cheiro de queimado, não sei se haverá uma explosão, meu corpo dói porque o impacto é muito recente e, do outro lado da janela, vinte pessoas me perguntam: “Vai comprar um carro novo? Acha que esse aí tem conserto? Vai conseguir levar uma vida normal se uma perna for amputada? As pessoas do outro carro sobreviveram ao acidente? Você vai ajudá-las financeiramente caso tenham sequelas? Vai pagar o enterro se tiverem morrido? Seu filho, que estava no banco do carona, estava usando cinto de segurança?” É assim todos os dias.

Às vezes consigo sentir algo que me ultrapassa em outro sentido que não o do transbordamento diário. Algo sublime, profundo. Um silêncio no mundo causado por esse agente que não está vivo nem morto, que precisa de um hospedeiro para viver até que se cansa dele ou o mata. Certa irmandade global. Dura pouco. Tenho medo de ter apendicite e não ser operada e morrer porque os leitos estão ocupados por pacientes com coronavírus. Tenho medo de ser terrivelmente mesquinha e pouco solidária. Tenho medo de ver nas ruas da periferia de Buenos Aires as mesmas cenas de Guayaquil, os cadáveres nas calçadas, as pessoas sufocadas arrastando-se nas emergências, o homem que deixou a mãe morta em um banco e usou um guarda-sol para proteger o corpo envolto em um pano colorido. Os caixões de papelão. Não quero atravessar esse horror de jeito nenhum, nem como espectadora nem como testemunha nem como cronista nem como vítima. Em alguns dias acordo e penso que não vale a pena viver assim, e em outros, digo a mim mesma que tudo passa, que sempre que choveu parou, que os vírus têm ciclos, que as pandemias acabam, que as vidas se reconstroem. Ontem estava alegre por ter vivido intensamente, por todas as viagens, todos os shows, todas as drogas, todos os amantes. Como se me despedisse do mundo. É um estado de luto. Mas não sei bem o que morreu. Ou se está morrendo. Não sei. Continuam me perguntando, e eu não sei. O que estou lendo? Nada. Comecei, porque trabalho remotamente de casa, A condessa sanguinária, de Valentine Penrose, e a história da assombrosa Erzsébet Báthory me entretém, talvez porque ela tenha vivido em um mundo infinitamente mais cruel e mais difícil, com doenças à espreita atrás de cada árvore, com bruxas da floresta que sequestram crianças para fazer poções com seus corações. O que estou assistindo? Twin Peaks, porque mergulhar no pesadelo alheio é uma estranha espécie de alívio. Não muito mais do que isso: passo o restante do tempo ao telefone ou diante de telas ou trabalhando com uma lentidão espantosa ou lendo notícias até enlouquecer. Sei que devo ler menos notícias e que toda essa informação não serve para nada, mas sinto alguma ilusão de controle e além do mais não se fala de outra coisa e, perdão, mas não tenho a presença de espírito nem o distanciamento nem o equilíbrio para começar a ler Eurípides. Admiro os que se sentam com A montanha mágica e os que aprendem receitas e sobretudo os que se entediam.

Não é do meu feitio.

Não tenho essa força.

Talvez esteja deprimida: a terapia nesse momento também é virtual e não sei se tenho coragem de começar uma medicação hoje, em face da recomendação de não chegar perto de hospitais. Também: minha própria crise emocional me parece idiota. É idiota. Estou em um canto, de joelhos, esperando que isso passe, que vá embora, que se apague. Não fui feita para crises. Tento me lembrar de outras. 2001-2002: um ano ou mais recebendo metade do salário e morando com minha mãe em uma vizinhança perigosa; todas as noites ouvíamos tiros e, se tarde da noite eu precisasse comprar cigarros, ia correndo até a avenida porque os assaltos eram comuns e também por causa do risco de acabar no meio de um tiroteio. A adolescência com hiperinflação, 1989, crise energética, cortes de luz programados, pais desempregados, dormir no sofá porque não tinha cama e não havia dinheiro para comprar uma nem lugar para colocá-la. Há outras, algumas pessoais, que não faz sentido e nem quero tornar públicas. Nenhuma me preparou para isso? Nenhuma me preparou para isso.

Chega outro e-mail, outra entrevista, outra mensagem. O que acho disso enquanto escritora de terror. Como ressignificar o medo. Queremos sua opinião sobre o medo que todos sentimos.

Tento ser irônica e ensaio algumas linhas: as pandemias são do terreno da distopia, não escrevo esse subgênero, gosto dele, mas não o li tanto (tudo verdade). Apago o que escrevi. Tudo bobagem. Leio um artigo fabuloso do pintor e escritor Rabih Alameddine sobre quando recebeu o diagnóstico positivo para HIV. Morava em São Francisco enquanto em sua terra natal, o Líbano, a guerra civil rugia. Contudo, decidiu voltar, porque sentia medo e não queria morrer sozinho. Em pouco tempo estava de volta à Califórnia. Começou a jogar futebol. Metade do time morreu. Ele continua vivo, hoje, e disse não se lembrar de quantas pessoas viu morrer. Recordo os dias terríveis da aids, eu era muito nova, lembro o medo que o bairro sentia dos possíveis infectados, lembro os amigos da minha mãe que morriam sozinhos porque, além de tudo, tinham sido rejeitados pela família. Aquilo foi muito cruel. A coragem deles. Minha vergonhosa covardia. Penso nas vítimas dos tsunamis, das guerras, dos naufrágios no Mediterrâneo, do narcotráfico, da violência institucional, de outras epidemias, da fome. A morte em larga escala e trágica e solitária é a regra. Me dou conta do meu privilégio. Sinto vergonha dele, principalmente neste continente. Não consigo deixar a autorreferência e isso me angustia porque tento evitar esse eu eu, mim mim. Reclamar é patético. Não reclamo em voz alta. Tento, mas estas palavras devem ser uma reclamação.

Este texto serve? É exagerado? Por que dizer: não consigo dizer? Aqui é só a minha ansiedade falando. E a sensação de iminência. É possível que hoje eu seja feita apenas de ansiedade. Ela me deixa muda e imóvel na poltrona, aprisionada. Não aprisionada em casa, isso não importa. Aprisionada em minha cabeça.

 

*Texto originalmente publicado em abril de 2020 no site Página12.

testeÀ espera de um recomeço

A última vez que saí de casa foi no dia 17 de março. Eu tinha 35 anos e os cabelos curtos. Meus passos ainda não sabiam a dimensão de tudo o que está acontecendo com esse mundo. Assim que se tocaram, eles imediatamente se entocaram e resolveram nunca mais se arriscar fora do espaço existente além das grades do Edifício Grace.  

Michele me avisa que passamos o outono inteiro dentro do nosso apartamento. Não tinha me atentado a este fato. Foi um espanto! Claro que eu sabia que estávamos há meses isolados fisicamente das pessoas que amamos e dos lugares que gostamos. Mas quando nomeamos o que estamos vivenciando, os sentidos se redimensionam, parecem ganhar outra importância. Falar estamos há 3 meses dentro de casa – por mais que signifique exatamente a mesma coisa soa diferente do que dizer passamos o outono inteiro sem pisar na rua. Nesse caso, o impacto maior. Assusta mais. Não? A mim sim.

Passamos o outono inteiro sem pisar na rua. Logo o outono! A estação que eu mais amo no ano! Não pude pisotear em nenhuma folhinha seca sequer no meu percurso rotineiro até a livraria na avenida Moema. Aquele barulho (imagine a onomatopeia de uma folha seca sendo esmagada) é terapêutico. Equivale ao plástico-bolha dos presentes que chegam (chegam?) pelos Correios. Olha aí, a humanidade sempre buscando a sensação de paz na destruição de algo sem forças para revidar… 

Particularmente, tenho uma queda pelo outono porque gosto do calor, mas não tanto. Porque amo o frio, mas não tanto. Porque amo a chuva, mas não tanto. Porque amo a ventania, mas não tanto. Porque gosto dos dias e das noites com a mesma duração, mas não tanto. Porque gosto do tom amarelado, mas não tanto. Porque gosto da solidão, mas não tanto. Porque gosto dos ciclos que se encerram, mas não tanto. Porque gosto dos recomeços, mas não tanto. Porque… Chega! Já tô tonto de tanto tanto

Passamos o outono inteiro sem pisar na rua. Essa é a nossa realidade. Uma estação inteira estacionada no nosso apartamento. Como se tudo estivesse à espera de um recomeço. Outono é tempo de mudança, de renovação. Queda de folhas, frutos, colheita… Mas, aqui dentro, não há nada a colher. Talvez poeira, caspa, unhas, migalhas de pão – sobras do café da manhã – que se espalham pelo chão, debaixo da mesa da sala, bem perto dos meus pés. O outono mora com a gente há 3 meses e não se oferece sequer para ajudar no condomínio, pagar uma conta de luz, gás ou, sei lá, uma pizza aos sábados?

No quarto de dormir, uma leve infiltração começa a despertar. O concreto também guarda o peso da sua aflição em estado líquido. As lágrimas não estão em quarentena. Elas podem sair sem pena, cair a qualquer momento desses olhos emparedados. 

No escritório, o papel de parede se solta da superfície no canto inferior direito. A cola aos poucos perde seu efeito. Ela parece querer desrespeitar as recomendações da Organização Mundial da Saúde e descolar uma fuga para revestir a rua. Ela também parece estar cansada de ficar trancafiada. Quem não está? 

Na cozinha, o grande susto de uma pequena explosão! O micro-ondas deu curto-circuito após quatro anos de contribuição ininterrupta descongelando sopas, esquentando lasanhas e aquecendo jantares preparados com as sobras do almoço do dia anterior. Sinto que as coisas vão pifando com mais frequência quando passamos a conviver mais tempo com elas. Numa rotina normal, os eletrodomésticos quebram e a gente mal percebe. No amor também é assim?

Até fiquei mais velho nesse período. Já não tenho 35. Rolou uma festa high-tech, com direito a brinde no Zoom: 40 minutos de muito amor com família e amigos. Viva a tecnologia! Viva a comemoração digital! Viva a passagem de tempo virtual… Opa, opa, pera lá… O tempo só passa realmente, meu jovem. Portanto, é real: envelheci!

Gilberto Gil disse recentemente numa live: Quem não morre, envelhece. Outras pessoas já disseram algo semelhante, mas quando Gil diz, as palavras nos acertam de forma diferente. Aliás, nascemos no mesmo dia – 26 de junho. Em décadas diferentes, claro. Gosto de saber que, de certa forma, envelheço no mesmo ritmo que Gil – o artista que mais admiro. Ele fez 78 e parece tão mais moço do que eu. 

Da próxima vez que eu sair de casa, terei 36 anos e os cabelos mais ou menos na altura dos joelhos. O que esperar desse inverno?