Diogo Bercito

Cinco romances para ler antes da vida adulta

3 / agosto / 2022

Diogo Bercito*

Yacub, o protagonista do meu romance Vou sumir quando a vela se apagar, está entrando na vida adulta. A tragédia que vive na Síria e a viagem que o leva até São Paulo nos anos 1930 fazem com que ele  amadureça bem rápido. É um crescimento aos solavancos, um estirão que dói demais. Nos últimos meses, isso tudo me fez pensar sobre quais livros marcaram a minha juventude e me fizeram, acho, amadurecer antes da hora. É uma lista que escrevo enquanto estou de férias no interior de São Paulo, na casa dos meus pais, olhando a estante da minha adolescência.

 

O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë (1847)

Sempre gostei de ir em sebos. Era mais gostoso ainda quando a gente não tinha internet no celular nem nada. Eu chegava na loja e ia passando pelas estantes, olhando os títulos, sem nenhum plano concreto. Me lembro até hoje de quando topei com O morro dos ventos uivantes em um sebo que já nem existe mais, na avenida Paulista. O título gótico me seduziu. Deitei em uma espreguiçadeira, no clube, e li o livro quase de uma vez só. Para meu coração adolescente, a história do amor trágico de Catherine e Heathcliff era uma ferida que uivava.

 

O Egípcio, de Mika Waltari (1945)

Outro achado de sebos foi O Egípcio. Também me lembro de quando o encontrei. Gostei tanto que um dia achei uma edição em alemão — língua que eu nunca falei — por R$1 e acabei comprando só por comprar. A história, escrita pelo finlandês Mika Waltari, se passa no Egito antigo durante o reinado do faraó Aquenáton. O protagonista é um médico chamado Sinuhe. É um desses livros longos, que acompanham o herói por toda a sua vida. Gostei tanto que fiz uma das minhas melhores amigas ler também, e a gente até se chamava pelos nomes dos personagens.

 

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar (1951)

Um outro romance histórico que me marcou muito foi o Memórias de Adriano. É a história do imperador romano Adriano, que reinou no século 2 d.C. A escritora belga Marguerite Yourcenar acompanha toda a vida dele, em especial seu romance com o jovem Antinoo. Adriano amava tanto Antinoo que, quando o rapaz morreu, mandou construir estátuas dele por todo o império. O livro tem um peso, uma tristeza particular. Vale ler em dias nublados, com jeitinho de nostalgia.

 

O Senhor dos Anéis, de J.R.R.. Tolkien (1954)

Sei que muita gente torce o nariz para fantasia, mas O Senhor dos Anéis é uma obra-prima. Eu li quando tinha uns 12 anos e fiquei tão obcecado que ia fantasiado aos eventos de fãs. Eu tinha também um site dedicado ao livro, antes dos filmes serem lançados. Conheci alguns dos meus melhores amigos nessa época, gente que também queria conversar sobre elfos e anéis do poder. Cheguei a pensar que o livro só parecia bom porque eu era jovem demais, então decidi reler esses dias. Não me decepcionei — o texto continua lindo. Como adulto, uma das coisas que mais me tocam é a descrição que Tolkien faz de um mundo em ruínas, que está desaparecendo.

 

O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder (1991)

Neste livro, o norueguês Jostein Gaarder conta a história da jovem Sofia, que recebe cartas misteriosas por correio. Ela faz um curso de filosofia, e o leitor vai aprendendo com ela. Filósofo por filósofo, teoria por teoria. Só de escrever isso já sorrio. Eu lia sentado no chão, embaixo de uma primavera na casa dos meus pais, fazendo anotações — como se fosse uma aula mesmo. Muito do que ainda sei sobre filosofia veio dali. Me recordo de uma coisa em especial: a ideia de que os adultos se esquecem de olhar para o Sol e de pensar em como a natureza é surpreendente.

 

Conheça Vou sumir quando a vela se apagar


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