Diogo Bercito

Escrevi um romance para encontrar meu bisavô sírio

14 / julho / 2022

Diogo Bercito*

Comecei a escrever Vou sumir quando a vela se apagar para me conhecer melhor. Talvez isso seja um clichê, uma dessas coisas que os escritores dizem com um cigarro entre os dedos, olhando para o horizonte. Mas é verdade, também. Quando planejei o romance, minha ideia era reimaginar a história da minha família e suprir com ficção o buraco que os fatos não preenchiam.

Minha avó nunca conheceu o pai. A mãe, uma imigrante espanhola chamada Remédios, só dizia que ele era um caixeiro-viajante de Damasco. Um sírio que tinha passado por São Paulo e depois desaparecido no mundo, deixando para trás um nome abrasileirado: Jayme Cume.

Sempre me apeguei a essa história, que é quase uma lenda familiar. Estudo o Oriente Médio há mais de uma década, falo árabe e morei em diversos países da região. A ideia de que tenho um bisavô sírio — talvez até parentes escondidos em algum recanto do país — é tentadora demais. Ter esse bisavô poderia justificar a conexão sentimental que tenho com a cultura árabe. Também me ajudaria a responder por que decidi me dedicar à região.+

Só que ninguém sabe nada sobre o Jayme. Não temos documentos nem memórias. Sobrou apenas aquilo que minha bisavó contava, diluído pela passagem do tempo. Um mascate sírio que passou por São Paulo, os dois se apaixonaram, ele prometeu levar Remédios para Damasco — e sumiu.

Perguntei a respeito dele na comunidade síria de São Paulo. Aproveitei uma viagem a Damasco para investigar. Reli jornais árabes publicados no Brasil no começo do século passado, procurando por seu nome. Inspecionei listas de bordo, relatos de viagem, álbuns de família. Nunca encontrei seus vestígios. Não poucas vezes duvidei da minha bisavó e pensei que ela tinha inventado toda aquela história.

Cheguei a fazer um apelo no epílogo do meu livro Brimos, uma não ficção sobre a história da imigração sírio-libanesa para o Brasil e a trajetória desses homens até a política. Pedi ajuda para encontrar Jayme. Por enquanto, ninguém me procurou com a boa notícia de que conhecia o meu bisavô.

Como historiador, estou acostumado com esses abismos, becos sem saída. Às vezes seguimos os fios e perdemos o rastro. Como escritor de ficção, porém, tenho um poderoso recurso: a imaginação. Decidi que fantasiaria a história de Jayme, sua vida na Síria, sua viagem para o Brasil, seu encontro com a espanhola Remédios — uma linha conduzindo até o meu nascimento. Fingiria a ponto de me convencer de que tinha solucionado o mistério, daria o caso por encerrado.

No meio do caminho, me perdi. O Jayme, que chamei de Yacub no livro, foi se transformando em outra pessoa. Tomou controle do texto, fez suas próprias decisões. O Yacub que inventei em Vou sumir quando a vela se apagar decidiu emigrar para São Paulo à procura de um jinni — uma criatura fantástica da tradição árabe. Conheceu minha bisavó Remédios, mas não se apaixonou por ela. Encantou-se por outra pessoa, um rapaz. Foi seguindo rotas inesperadas. Assim, a cada linha, meu bisavô foi desaparecendo outra vez. Nem na ficção consegui encontrá-lo.

 

*Diogo Bercito é formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid e pela Universidade Georgetown, na qual cursa um doutorado em história com especialização na história do Oriente Médio. Colabora com a Folha de S.Paulo e escreve sobre literatura árabe e israelense para a revista Quatro Cinco Um. É autor das HQs Remy e Rasga-Mortalhas – esta, indicada ao Prêmio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinhos. Também publicou o livro de não ficção Brimos, que aborda a participação de imigrantes sírios e libaneses e seus descendentes na política brasileira.


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