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Quando uma sequência de coincidências se torna uma conspiração?

11 / fevereiro / 2022

Por Gabriel Trigueiro*

Raça e mistério no Brooklyn

A ideia de Sydney é simples: lidar com o luto do término de um relacionamento abusivo ao mesmo tempo que se fortalece e se reconecta às suas raízes. Mas uma sensação estranha toma conta do seu estômago quando sua vizinhança natal, um bairro predominantemente negro no Brooklyn, em Nova York, começa a ficar descaracterizado. Construções históricas e membros tradicionais da comunidade somem repentinamente. Esse é o mistério a ser solucionado no thriller Quando ninguém está olhando, de Alyssa Cole.

O livro trata de temas como classe, privilégio, gênero e, claro, racismo. Todas essas coisas se relacionam a partir do pano de fundo da história: a gentrificação de um bairro, observada pelos olhos de uma mulher negra, Sydney, e de um homem branco, seu vizinho Theo.

À medida que os dois pesquisam arquivos históricos e entrevistam moradores antigos, Sydney e Theo começam a notar o sumiço abrupto de lideranças importantes da comunidade e a lidar com a hipótese de que talvez exista algo mais estranho do que uma mera expansão imobiliária e um embranquecimento do local. “Quando uma sequência de coincidências se torna uma conspiração?”: essa é a pergunta principal ao longo da obra.

 

Hipsterismo e privilégio branco

A autora Alyssa Cole trata o racismo nos EUA de um jeito sutil: é menos o racismo do caipira do Sul ou do Meio-Oeste, o racismo caricato que todos estamos acostumados a ver em livros e filmes, e mais o racismo do hipster que mora em um bairro liberal e que, portanto, acha que não pode ser racista — mas é.

O grande vilão do livro é a supremacia branca. E, como em todo grande livro, o vilão é complexo e pouco previsível. Um dos personagens comprometidos com o processo de gentrificação do lugar, ironia das ironias, tem uma foto da ex-primeira-dama Michelle Obama em um porta-retratos em cima de uma mesinha. O bar onde tradicionalmente tocava jazz agora toca Radiohead. Na birosca onde se vendia litrão agora se vende kombucha.

 

Um thriller político que também fala sobre saúde mental e dinâmicas de raça, gênero, classe e poder

Se a protagonista Sydney Green, uma jovem afro-americana, procurava um lugar de acolhimento próximo à sua rede de amigos, ela acaba se deparando com a expansão imobiliária predatória: responsável não apenas pela inflação do metro quadrado, como também pela atração de um novo tipo de vizinhança — branca e completamente alheia à cultura local.

Quando decide preservar a história da sua comunidade, criando um roteiro turístico focado nas contribuições de personagens negros para a identidade do bairro, Sydney ganha a ajuda de Theo, um dos novos vizinhos brancos, que se voluntaria nessa empreitada. Então, o livro é organizado a partir desses dois pontos de vista: o de um homem branco e o de uma mulher negra. Cada capítulo é dedicado à perspectiva de um personagem, e se alternam — o que é um negócio bem legal, porque fornece ao leitor mais informações do que os próprios personagens. Sydney precisa confiar em Theo, e Theo precisa confiar em Sydney, mas ambos têm dificuldade de enxergar com clareza não apenas o outro, mas também aquilo que está acontecendo em um contexto maior naquele lugar.

 

Luto e saúde mental

Sydney é uma personagem muito bem desenvolvida — é uma mulher negra forte, complexa, inteligente e sensível. Mas, ao mesmo tempo, talvez esteja no momento mais vulnerável de sua vida: lidando com depressão, ansiedade e o luto por um relacionamento. É interessante como a autora Alyssa Cole, através de um thriller político e de teorias da conspiração, consegue dar um tratamento profundo a temas como saúde mental, usos políticos da história, silenciamentos e dinâmicas de raça, gênero, classe e poder.

Quando ninguém está olhando é um exercício habilidoso e delicado de comentário social a partir da boa e velha literatura de gênero. Chega em excelente hora aqui no Brasil, em edição caprichada da Intrínseca.

 

*Gabriel Trigueiro é doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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