Artigos

Como Amor, sublime amor revolucionou a Broadway e se tornou um clássico

14 / dezembro / 2021

Por João Lourenço*

Amor, sublime amor conta uma história que vem sendo adaptada desde o século XVI. Antes de se tornar livro, o romance de Tony e Maria sofreu a influência da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, que por sua vez se inspirou em um poema narrativo de 1562 intitulado The Tragical History of Romeu and Juliet. Séculos depois, em meados de 1940, Romeu e Julieta serviu de base para o dramaturgo Arthur Laurents e os compositores Leonard Bernstein e Stephen Sondheim criarem um dos musicais mais revolucionários da cultura  americana contemporânea: West Side Story (Amor, sublime amor). O livro já está disponível no Brasil pela Intrínseca. 

Amor, sublime amor acompanha o romance proibido de Tony e Maria, dois jovens que se apaixonam à primeira vista após trocarem olhares e passos de dança em um baile. Mas antes mesmo de vivenciar esse primeiro amor, Tony e Maria descobrem que fazem parte de realidades diferentes. Maria é uma imigrante recém-chegada a Nova York e irmã do líder dos Sharks, uma temida gangue de porto-riquenhos. Tony é um dos fundadores da gangue rival, os Jets, formada por brancos norte-americanos. Embora esteja empenhado em dar um novo rumo à sua vida, Tony ainda mantém fortes laços com os Jets, e esse vínculo será decisivo para definir o rumo do romance com Maria. Pode um amor puro sobreviver à violência e ao preconceito que os cercam?  

A rivalidade entre os Sharks e os Jets, encenada nos Estados Unidos do pós-guerra, continua atual na sociedade supostamente  “pós-racial” da era  Obama. Por trás de discussões violentas de jovens, temas importantes ganham espaço nas músicas de Bernstein e Sondheim. Cantada pelos integrantes das duas gangues, a música America apresenta questões que ainda incomodam os americanos e todos aqueles que fizeram dos Estados Unidos um lar. “Se você pode lutar na América, a vida é boa na América. Você pode ser livre na América se você é branco. Você é livre para ser o que escolher. Livre para servir mesas e engraxar sapatos”, entoam os personagens porto-riquenhos, refletindo os sonhos e as desilusões de imigrantes que, ao chegarem à “terra prometida”, veem-se obrigados a renunciar à própria identidade  para se encaixarem no modelo americano ideal. 

Essa e outras músicas de Amor, sublime amor inspiraram a maioria dos musicais que foram lançados a partir da década de 1960. “Amor, Sublime Amor rompeu fronteiras para a Broadway com seus números de dança integrados e uma variedade de ritmos populares. Ousado, atrevido e sombrio, a peça nos levou de uma comédia musical educada para uma tragédia apaixonante e selvagem em larga escala”, comenta Garnett Bruce, diretor de óperas. Bruce trabalhou por uma década nas produções de Bernstein e afirma que ele, em parceria com Sondheim, tentou criar uma ponte entre a música erudita, o jazz e a música popular. “Pela primeira vez, temos compositores que misturaram o otimismo americano com o ritmo latino e levaram isso para um palco da Broadway”, afirma. 

Um dos maiores trunfos de Amor, Sublime Amor está na composição das músicas e nas letras, que permitem que qualquer um consiga cantar sem dificuldades. “Bernstein criou contrapontos complicados, fugas e diversos ritmos que todos podiam cantar. Isso é um momento mágico teatral, pois em algumas músicas temos quarenta garotos no palco cantando contraponto em cinco partes, sendo que a maioria desses jovens nunca cantaram antes”, explica Bruce. 

Ao contrário da peça e do filme, que precisam seguir o ritmo das músicas, o livro Amor, sublime amor oferece uma visão detalhada das motivações e desejos de Tony e Maria. Os personagens secundários também ganham novas camadas. Esse é o caso de Anita, melhor amiga de Maria. Imortalizada no cinema pela atriz Rita Moreno, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel, a personagem representa a tensão intrínseca à condição de mulher imigrante. Enquanto Maria acredita que o amor cura todos os males, Anita atua como ponto de equilíbrio para a ingenuidade da amiga.

A trama de Amor, sublime amor se passa nas ruas do lado oeste de Manhattan, em Nova York, onde os personagens transitam em uma cidade marcada por crimes e pela falta de confiança nas autoridades. A narrativa traduz a desilusão da juventude, manifestada no conflito de classes e identidades, e, além disso, demonstra os perigos de ser mulher em um mundo dominado por homens. 

Hoje, após diversas adaptações, discute-se até que ponto Amor, Sublime Amor representa a experiência latina. Pensando nisso, Steven Spielberg, diretor da nova adaptação cinematográfica da história, procurou ouvir a opinião de porto-riquenhos imigrantes antes de produzir o filme. O longa, que chegou em dezembro aos cinemas, promete honrar as questões identitárias da história. 

Apesar de não cobrir com exatidão a experiência latina, Amor, Sublime Amor foi concebida por autores que compartilhavam do sentimento de exclusão dos personagens. Vale lembrar que a peça foi escrita por dois homossexuais quando a homossexualidade ainda era considerada crime. Além disso, Bernstein e Sondheim eram filhos de imigrantes judeus e transportaram as experiências pessoais de perseguição, racismo e desenraizamento para os palcos da Broadway.

Os autores de Amor, Sublime Amor estavam em busca de paz em meio ao mundo discordante e barulhento de meados do século passado. “Após duas guerras mundiais causadas por ódio e racismo, Bernstein esperava que a nova geração valorizasse a paz, que não a encarasse como uma garantia”, diz Garnett Bruce. Ainda estamos longe de encontrar o equilíbrio almejado pelos criadores de Amor, Sublime Amor. Até chegar o momento da virada, só nos resta dançar, sonhar e amar!

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design.

Tags , , , , , , , .

Saiba mais sobre os livros

Leia mais Artigos

Referências da cultura pop inspiradas por The Outsiders

Referências da cultura pop inspiradas por The Outsiders

Tornar-se artista

Tornar-se artista

Bienal 2021: eu fui, eu tava, eu fiz

Bienal 2021: eu fui, eu tava, eu fiz

Contra o feminismo branco e a verdadeira quarta onda do feminismo

Contra o feminismo branco e a verdadeira quarta onda do feminismo

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *