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Bienal 2021: eu fui, eu tava, eu fiz

13 / dezembro / 2021

Por Heloiza Daou* 

Créditos: Rafaela Cassiano

Escrevo este texto ainda no calor do momento, com o sangue quente e a adrenalina pulsante que só a segunda-feira de cinzas pós-Bienal pode nos proporcionar. Esse dia traz sempre uma mistura inebriante de sentimentos: a satisfação do trabalho intenso realizado, o resultado em vendas fácil de medir — 15% de crescimento e a maior da história — e algo como uma comichão mágica, difícil de calcular ou definir e que sempre está presente em feiras literárias de forma geral, mas que este ano tomou um corpo maior, diferente e dominante. É sobre ele que quero falar.

Foram inúmeras as vezes que eu me vi emocionada durante os últimos quinze dias. Em alguns discursos, no meio de fala em mesas na Arena, em papos sinceros no caixa, observando a movimentação dos corredores ou as crianças pequenas sentadas no chão lanchando no meio da tarde. Eu poderia colocar na conta da gravidez, mas percebi aos poucos que não era só eu. Do primeiro dia que pus os pés no Riocentro ainda na montagem e senti o cheiro do pavilhão até ontem, no adeus ao estande, vi muita gente dividindo os mesmos sentimentos que me atravessavam: coração acelerado, sorrisos, olhos brilhantes e chorosos, que ganharam destaque neste ano de evento onde metade do nosso rosto ficou encoberto.

Créditos: Rafaela Cassiano

Que Bienal histórica. O primeiro grande evento no Rio de Janeiro em quase 2 anos de pandemia foi uma celebração dos livros, da leitura, da cultura e da educação, deixados tão à deriva nos últimos meses e anos neste país. Quantas vezes, ao olhar para as pessoas nos corredores e dentro dos estandes todas de máscara, eu só conseguia pensar nas fotos emblemáticas do que isso significa hoje e do que vai significar no futuro. Como bem lembrou Marcos Pereira, presidente do SNEL, durante a abertura do evento, há 15 meses os pavilhões do Riocentro foram usados como hospital de campanha da Covid-19. Ter pisado pouco tempo depois no mesmo local onde tanta gente sofreu e lutou pela vida, só que desta vez para celebrar a literatura e o privilégio do nosso reencontro, é comemorar também a força da nossa resiliência, paciência e resistência, tão testadas e moídas nos últimos meses.

Passa dia, passa ano, passa crise, pandemia (há de passar) e eu ainda me impressiono com a força e o poder dos livros. Estamos falando de um objeto de tecnologia esplêndida, criado há mais de 500 anos e que não fica obsoleto. Quando tudo parece desmoronar, quando nós parecemos completamente perdidos, não é que o livro sobrevive ao caos e fica mais forte? A gente se agarra aos clássicos, pessoas que nunca leram passam a ler e quem já lia enxerga na literatura mais que um prazer: ela vira um bote salva-vidas mesmo, capaz de trazer escapismo, afago, magia e reflexão. Quantos depoimentos pude testemunhar nestes dias de pessoas que foram salvas por livros, pelas histórias, pela comunidade e pela sensação de pertencimento que eles nos trazem. Que máquina infinitamente poderosa temos nas mãos.

Créditos: Rafaela Cassiano

Cada hora dos últimos dez dias foram incríveis: crianças e jovens espalhados pela feira, alegria contagiante de pegar uma fila com os amigos para pagar um livro em conjunto, pilhas e pilhas de histórias levadas para casa, reposições diárias de livros— foram mais de 40.000 unidades vendidas só na Intrínseca —, muitos marcadores, bótons, muitas bolsas e a presença de um monte de gente. Um monte mesmo. 

Muito se fala de propósito e intenção no trabalho e para mim ele está exemplificado quando me fazem a seguinte pergunta: “Este livro é sobre o quê?” Parece que por milissegundos o mundo fica estático para me dizer que tudo faz sentido e eu fico com aquela tal comichão mágica que ao mesmo tempo dá frio na barriga e um puta prazer. Agora pensa que durante a feira as porções desse sentimento são cavalares e quase ininterruptas. Pois é, estamos falando de overdose. Taí a resposta para quem me pergunta o porquê de eu gostar tanto de Bienal: é químico e viciante. 🙂

Heloiza Daou no túnel intrínsecos Créditos: Rafaela Cassiano

Já que as palavras voam e os escritos é que permanecem, fica o registro do agradecimento a cada pessoa que passou por esse evento, pelo estande da Intrínseca (novamente referência em point de melhor foto com nosso túnel colorido, vai!), que trocou uma ideia, que trouxe comida, presente, abraço e afeto em dias de tanto trabalho e ao mesmo tempo tanta alegria e satisfação. Uma Bienal é feita de muita gente, frentes, muita mão, muito pé doendo, caixa carregada, trabalho e parceria além dos dez dias públicos de evento. Neste dezembro de 2021 reaprendemos o quanto o poder dos livros é imensurável: são eles a estrutura, o arcabouço e, ao mesmo tempo, as estrelas do evento, que nos mostrou de forma corajosa e emocionante o quanto ele tá vivo, resistente, ressignificante e transformador. Que essa marca na página da História seja lida no futuro com alegria e compaixão por nós e pelos nossos. Do meu lado fico com a certeza — tanto como alguém que trabalha no mercado editorial como principalmente leitora — de que há poucos “Eu fui, eu tava, eu fiz” que farão tanto sentido no meu livro da vida quanto esse. Obrigada você, obrigada Bienal do Livro Rio. Até a próxima! 

*Heloiza Daou é movida a palavra. Obsessiva por boas histórias, sejam elas de livros, dos filmes ou da vida. É também mãe do Tomás, o job mais insano que já teve o prazer de tocar.

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Comentários

Uma resposta para “Bienal 2021: eu fui, eu tava, eu fiz

  1. Parabenizo pela narrativa, que conta a história de quem empreende e constrói com sentimento, uma Nação mais digna em favor da evolução do Espírito do Homem.

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