Quintas pretas

Nossos pratos vêm de longe: a alimentação brasileira numa afroperspectiva

11 / novembro / 2021

Bruna Oliveira é a convidada desta semana do Quintas pretas, projeto da Intrínseca que abre espaço semanalmente para pessoas negras pautarem conversas sobre temas fundamentais para a nossa construção como sociedade.

Por Bruna de Oliveira

 

 

Descolonizar os debates em torno do entendimento sobre alimentação e a cultura alimentar brasileira é um processo necessário e urgente. O caminho para descolonizar nossos pratos passa pela descolonização da nossa mente, conduzindo-nos a lugares que nos permitem sentir e conhecer diferentes perspectivas na concepção dos significados de comer e nutrir. Assim, chegamos num momento histórico que se assemelha a estarmos numa feira no horário da xepa, onde, além dos vegetais ali disponíveis, há uma abundância de ciências e sabedorias que são deixadas de lado para apodrecerem nas calçadas quando não são mais rentáveis.

A marginalização e invisibilização da participação africana diaspórica na culinária brasileira é histórica e cotidiana e se revela por meio da subalternização de mulheres negras e seus trabalhos culinários desde a época da escravização. Subverter é reconhecer que tanto a história da alimentação quanto os fazeres alimentares e o trabalho culinário no Brasil são fenômenos construídos por meio do protagonismo indígena e africano, lido e interpretado, historicamente, por lentes racistas e colonizadoras da casa-grande branca. Inspirada pela antropóloga Lélia Gonzalez, afirmo: a xepa vai falar, e numa boa.

Ao me tornar (ainda estou nessa caminhada) uma negra pesquisadora da cultura alimentar brasileira, não consigo me contentar com a história que vem sendo contada e assumida por autores brancos. De Luis da Câmara Cascudo a Carlos Alberto Dória, não compactuo com os pressupostos apresentados para descrever e analisar a gênese social da cultura alimentar no Brasil. Utilizar a alimentação para sustentar o mito da democracia social, minimizar ou destituir a atuação de pessoas negras na formação alimentar deste país e, até mesmo, sugerir a inabilidade criativa de um povo com cultura e história milenares – o que também envolve seus sistemas alimentares -, é, no mínimo desonesto. Eu prefiro, porém, chamar de racismo essa distorção dos fatos, mais precisamente epistemicídio culinário, com base na análise proposta por Aparecida Sueli Carneiro, segundo a qual a construção do outro como não ser fundamenta o ser. Uma das perversidades que herdamos da escravização foi a infantilização e animalização sistemática da população negra (ainda que no nível inconsciente), que deprecia sujeitos negros, dotados de acúmulo histórico e cultural, desacreditando-os de suas  competências cognitivas e subjetivas para atuar na formação culinária deste país.

Quanto mais me aproximo das verdades propostas por nossos ancestrais ligadas à alimentação e à saúde, e do ser subjetivo que eu poderia ter sido se tivesse me econtrado com essas perspectivas ainda na infância, mais cresce em mim um sentimento de vazio, tão imenso quanto a extensão da travessia do Atlântico até Benim ou Angola. Todo o conhecimento branco que adquiri até aqui sobre a importância estrutural da comida na organização social de um povo e na construção subjetiva de uma pessoa faz com que eu me sinta essencialmente sequestrada. Compreender as interfaces da alimentação enquanto um fenômeno político, econômico, social, cultural e étnico é tão relevante quanto contarmos a história alimentar vinda do continente africano para o americano há quatrocentos anos.

É preciso construir uma rede de sustentação teórica, mental e emocional para organizar o que foi intencionalmente desorganizado, apagado, extinto. Quanto menos sabemos sobre os conhecimentos produzidos em África, menos sabemos sobre nós mesmos enquanto sujeitos de direito à vida e à alimentação adequada. Quanto menos conhecemos o desenvolvimento das sociedades ancestrais africanas, menos sabemos sobre como fortalecer nosso povo. É por isso que a fome de mais de 19 milhões de famílias, principalmente as chefiadas por mulheres negras, é um crime tão alarmante e revoltante. A fome, assim como a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, os desertos alimentares, o silenciamento e múltiplas barreiras de acesso a espaços de construção de conhecimento estão conectados por um projeto epistêmico, subjetivo e político de extermínio. E nesse mosaico, a morte das nossas capacidades de arquitetar uma sociedade a partir de pressupostos ancestrais se aproxima velozmente.

 

“Nossos pratos vêm de longe”

Esta é uma afirmação feita a partir da proposição de Jurema Werneck que demarca de maneira plural e complexa a presença africana na culinária brasileira pelo protagonismo de mulheres pretas. A diáspora africana no Brasil de maneira resistente e resiliente materializou diferentes realidades deste país. O lastro histórico da culinária brasileira vem de práticas africanas, das memórias e saberes associados aos alimentos que também fizeram essa travessia diaspórica. Ainda que existam estudos que tentam mitigar a presença africana da formação culinária brasileira, é impossível dissociar a nutrição das senzalas ou cozinhas das casas grandes de mãos negras de mulheres. Como Beatriz do Nascimento nos alerta: “É tempo de falarmos de nós mesmos não como ‘contribuintes’ nem como vítimas de uma formação histórico-social, mas como participantes dessa formação.”

São vários os alimentos que vieram do continente africano. Apenas para citar alguns exemplos: coco, inhame, feijão guandu, quiabo e dendê atravessaram o Atlântico. É sempre bom lembrar que África não é um país, são muitas as suas culturas alimentares. Igualmente, a experiência culinária da diáspora africana está presente em todo o nosso país, não somente na Bahia.  

 

Mulheres negras no centro do debate

É por tudo isso que a xepa precisa falar, a xepa que também é formada por corpos repletos de subjetividades de mulheres pretas, a carne mais barata do mercado. Porque quando se evidencia que as vozes autorizadas para contar os capítulos da história alimentar brasileira são de homens brancos, é preciso gritar e escrever por todos os lugares denunciando essa barbárie. Cozinhar é, dentre tantas coisas, profissão e ciência que deve ser contada por quem as vive e escreve ao longo da história. Gênero, raça e classe são uma triangulação analítica imprescindível para compreender cozinhas, panelas e trabalho. Comida, cozinha, ciência popular sempre se fez nas bordas, às margens. E são desses lugares que somos e é a partir deles que falaremos. São as mulheres, sobretudo mulheres negras, que alimentaram e alimentam este país com mãos, seios, vidas. Mulheres mercadoras, que compraram a liberdade de tantos irmãos e irmãs. Mulheres que ainda hoje são subalternizadas pela gastronomia proposta para as elites. Mulheres pesquisadoras e ativistas que com seus trabalhos acadêmicos e ativismo enegrecem a cena acadêmica e gastronômica. Estou de pleno acordo com Rute Costa ao afirmar que a história alimentar no Brasil está incompleta e que é preciso denunciar o mito da democracia racial nas relações brasileiras desde os sabores da feijoada.

Deslocar nosso olhar para as ciências africanas nos campos da alimentação e da cultura é um exercício diário onde tenho dado meus passos. As descobertas deixaram de ser uma profunda dor para se tornar uma motivação; deixou de doer como uma chaga para pulsar como um compromisso de conexão com o meu passado para criar um novo futuro mais belo e nutrido para o povo preto. Hoje, ainda que com reflexões iniciais, tem sido uma tarefa de muita honra ser participante da história que precisa ser ecoada pelo tempo. Sem romantização, entendendo esse caminho como uma disputa de narrativa, um enfrentamento da hegemonia posta pela supremacia branca e racista no que diz respeito à presença africana na construção da cozinha brasileira.

É preciso aquilombar. É necessário que nos aproximemos de toda a sabedoria de África para fortalecermos nossas vidas em todas as dimensões. A ciência branca não nos serve e não atua para nossa vida. Por isso registro que este texto não foi escrito por uma única mulher, cada palavra escrita emerge dos meus encontros e encantamentos semanais com mulheres incríveis e inspiradoras que me ensinam tanto com suas práticas em diferentes localidades do Brasil. Quando entendi que precisava me aquilombar para não sucumbir, comecei uma série de lives no meu perfil no instagram (@brunacrioula) para conhecer, ouvir e aprender com mulheres negras também comprometidas com alimentação e ancestralidade africana.

Conversas radiantes como o sol que povoaram meu imaginário com suas histórias como pesquisadoras, cozinheiras e ativistas alimentares. Meu principal desejo com essas lives é ampliar nossa consciência, reconhecendo valores, princípios, filosofias e ciências oriundas do acúmulo vivencial milenar do povo africano. Desde junho de 2020, converso com mulheres inspiradoras que fazem deste mundo um lugar mais solidário e nutrido. As conversas são realizadas, majoritariamente, com mulheres negras que, contando suas histórias de vida, permitiram-me mergulhar na diversidade de realidades que nutrem e gestam futuros melhores.

 

Bruna de Oliveira é nutricionista, comunicadora popular e coletora urbana. Está mestranda em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Ativista e pesquisadora alimentar, atua na popularização da biodiversidade brasileira. É empreendedora social, sócia fundadora da Crioula | Curadoria Alimentar, empresa que cria soluções ecológicas em sistemas alimentares.

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