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Seja um viajante, não turista: a volta ao mundo irreverente de Anthony Bourdain

28 / outubro / 2021

Por João Lourenço*

Anthony Bourdain em Hanói, Vietnam, durante a 8ª temporada de Fora do Mapa (Foto: CNN)

A jornada para casa é um dos temas fundamentais relacionados às questões humanas e artísticas. Em uma das passagens mais marcantes da literatura, o personagem de O quarto de Giovanni reflete: “Talvez o lar não seja um lugar específico, mas sim uma condição irrevogável.” É isto: o lugar que ocupamos no mundo vai muito além de limitações geográficas. E o chef e apresentador Anthony Bourdain foi o exemplo perfeito dessa busca incessante pelo próprio lugar no mundo.

A jornada de Bourdain foi interrompida em 2018, mas a admiração por ele continua. “A real grandeza de seu impacto cultural só ficou clara para mim depois de sua morte”, relata Laurie Woolever, amiga, assistente e co-autora de Volta ao mundo: Um guia irreverente. Na introdução, Woolever conta que o livro começou a ser escrito quando ela percebeu a saudade que os fãs sentiam.

A história de Anthony Bourdain começa na cozinha, longe dos holofotes, em longas horas de trabalho como chef. Embora tenha trabalhado em inúmeros restaurantes disputados de Nova York, ele nunca ganhou o status de chef renomado. Ao contrário de colegas que ostentavam estrelas Michelin, ele estava mais interessado no senso de comunhão gerado pela comida e em melhores condições humanas. Bourdain tinha fome de justiça social.

Nos anos 1980, enquanto batalhava contra o vício em drogas, Bourdain fez um curso de escrita criativa com o controverso editor Gordon Lish – responsável por lapidar nomes como Raymond Carver. Para o chef, a escrita surgiu como uma ocupação para os dias de folga, uma fuga saudável. Na década seguinte, a carreira como contador de histórias começou na revista The New Yorker, para a qual submeteu um ensaio sem muita esperança de ser publicado. Para surpresa dele, “Don’t Eat Before Reading This” [Não coma antes de ler isto] se tornou um dos maiores sucessos da revista e, logo, serviu de base para o livro que viria a ser best-seller internacional, Cozinha confidencial. “Ser um chef é muito parecido com ser um controlador de tráfego aéreo: você constantemente precisa lidar com a ameaça do desastre”, escreveu Bourdain em seu famoso ensaio.

Após promover o livro, o chef foi convidado para o seu primeiro programa de televisão, A Cook’s Tour. Suas observações afiadas e bem-humoradas ganharam popularidade; o resto é história. Em uma carreira de quase duas décadas na TV, Bourdain apresentou diversos programas e acumulou os mais variados prêmios do jornalismo e do entretenimento, entre eles o Emmy e o Peabody.

Em Volta ao mundo, percebe-se um lado melancólico de Bourdain que nem sempre transparecia nas telas, quando era visto como um homem extrovertido, destemido e capaz de topar tudo ao menos uma vez. Ele interpretou bem a imagem que criaram dele. Porém, as histórias relatadas pelos amigos próximos desenham um Bourdain diferente: cansado, humano, introspectivo.

Após anos na estrada, longe da filha e da esposa, veio o esgotamento. Até a paixão pela comida e pelo desconhecido diminuiu. Nas últimas temporadas de Lugares Desconhecidos, vemos um apresentador contando histórias de “pessoas reais”, mas que parecia não conseguir se distanciar da realidade. Os lugares majestosos não mais lhe interessavam. Era em cidades como a devastada Porto Príncipe, no Haiti, que procurava encaixar as peças para as histórias de resiliência que apresentava na tela. “Essas viagens o transformaram fundamentalmente. Ele passava tempo significativo com as pessoas, tinha empatia por elas, mas no final do dia não sabia o que fazer com tudo aquilo”, relata David Chang, amigo e aprendiz de Bourdain, no documentário Roadrunner, ainda inédito no Brasil.

Em muitas dessas visitas por lugares inóspitos, a equipe de Bourdain oferecia comida para a população carente local. Mas nunca era suficiente. Brigas e conflitos surgiam com frequência. Nesse documentário, lançado recentemente nos Estados Unidos, temos a imagem de um homem exausto e que não sabia como lidar com as atrocidades do mundo. Começou a apresentar sintomas de agorafobia. Mas o combustível de Bourdain surgia dessas trocas com o desconhecido. Ele precisava das cores e texturas desses lugares para sobreviver, mas era exatamente disso que ele também passou a se esconder.

A Volta ao mundo de Bourdain pode ser lida como cartas de um amigo próximo, repleta de sentimentos, piadas e dicas. Entre elas, ele recomenda ao leitor ser um viajante, não turista. Ao chegar em um lugar pela primeira vez, Bourdain visitava os mercados para observar quais itens eram mais vendidos. Ao perceber o que os locais estavam comprando, ele era capaz de identificar os traços e as particularidades de cada cultura. E ressalta que é preciso estar disposto a comer alguns pratos ruins antes de saborear os que ficarão gravados na memória.

(Foto: David S. Holloway, CNN)

Volta ao mundo não pretende ser um guia definitivo de viagem. Nele, Woolever faz um intenso trabalho de pesquisa e reúne trechos de entrevistas, ensaios e transcrições dos principais programas apresentados por Bourdain. O resultado é uma grande colcha de retalhos, distribuída em pequenos capítulos, que conta com anedotas e histórias inéditas de pessoas que cruzaram o caminho do apresentador. Woolever foi assistente de Bourdain por mais de uma década e essa aproximação é mostrada em seu relato pessoal, mas a autora faz uma óbvia distinção entre a sua perspectiva e a voz de Bourdain e de seus amigos.

Os capítulos são divididos por países e passam por lugares conhecidos, como França e Portugal, e outros que não costumam estar em roteiros mais tradicionais de viagem, como Butão e Omã. No capítulo sobre o Brasil, há o relato da primeira vez que foi a Salvador, onde comeu acarajé e provou azeite-de-dendê. “Adoro azeite-de-dendê. Mas leva algum tempo para se acostumar. A primeira vez que estive aqui foi assim: você come e caga sem parar durante horas. Mas, depois de se acostumar, sem problemas! Eu adoro.” Por esse tipo de observação, sagaz e honesta, Bourdain conseguiu criar um laço de amizade com telespectadores e fãs ao redor do mundo.

Agora que podemos pensar em retomar as viagens, esse guia é uma ótima pedida para enfrentar as longas horas em aviões e aeroportos. Para aqueles que ainda não podem viajar, talvez a leitura ajude a eliminar o medo do desconhecido. Independentemente do local que você escolher para a próxima viagem, Bourdain lembra que “todos nós, quando viajamos, olhamos para os lugares para onde vamos, as coisas que vemos, com outros olhos”. Aprendemos muito sobre nós e sobre o outro quando dividimos uma refeição, seja ela em um restaurante reconhecido com estrelas ou em uma barraca de feira. É este o legado de Bourdain para os leitores: abraçar o desconhecido e aprender a se conectar com o outro e consigo mesmo. Cheers!

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design.

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