Luiza Mahin: uma mãe preta

Por Quintas pretas

9 / setembro / 2021

A Aline Najara da Silva Gonçalves é a convidada desta semana do Quintas pretas, projeto da Intrínseca que abre espaço semanalmente para pessoas negras pautarem conversas sobre temas fundamentais para a nossa construção como sociedade.

Por Aline Najara da Silva Gonçalves

 

“Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa da Mina (Nagô de Nação) de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio — era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolverse em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.”

(Luiz Gama)

As palavras na epígrafe são de Luiz Gama. Assim ele apresentou sua mãe, Luiza Mahin, na carta que escreveu para o amigo Lúcio de Mendonça, em 25 de julho de 1880. Esse é o primeiro registro em que o nome Luiza Mahin aparece. As menções posteriores foram, certamente, fundamentadas na escrita do poeta, que, depois de seguidas décadas sem ver a mãe, a descreveu com o olhar de um filho saudoso, como se buscasse na memória da infância as lembranças perdidas. Na carta, Gama afirma que a mãe “dava-se ao comércio”, que era quitandeira muito laboriosa e que, mais de uma vez, foi presa como suspeita de envolvimento em planos de insurreições de escravos. No trecho, ele nos apresenta dois elementos importantes para entender quem era Luiza Mahin: ela era quitandeira e era uma mulher insubmissa.

 

O “Trabalho de Ganho” e as Ganhadeiras

As quitandeiras eram figuras muito representativas da Bahia do século XIX. De fato, como afirmou Maria Cecília Soares no artigo As ganhadeiras: mulher e resistência negra em Salvador no século XIX, o chamado “trabalho de ganho”, que caracterizou as relações escravistas na Salvador de Luiza Mahin, era uma das formas de exploração da mão-de-obra escravizada. Os negros ganhadores e as negras ganhadeiras trabalhavam comercializando produtos e eram obrigados a repassar aos senhores uma parte pré-fixada de seus lucros. A maioria das mulheres montava quitandas.

É importante pontuar que, se por um lado, as ganhadeiras eram essenciais para o comércio e para a economia interna, por outro, suas atividades preocupavam muito as autoridades. A mobilidade peculiar aos trabalhadores e trabalhadoras de ganho, bem como a fixação nos “cantos” — lugar de trabalho e onde eles se reuniam —, fez com que essas trabalhadoras e trabalhadores fossem vistas/vistos como elementos capazes de promover a integração daquela população considerada perigosa pelas elites.

O controle social dos corpos negros nos centros urbanos era uma das principais preocupações do poder político no Império. Não, à toa, ganhadeiras foram acusadas de fornecer alimentos e conspirar junto dos rebeldes malês durante o Levante de 1835.

 

Luiza Mahin: revolucionária e mãe

É justamente à Revolta dos Malês que Luiza Mahin é comumente relacionada. Embora Luiz Gama nunca tenha afirmado que ela participou do levante, é como uma “revolucionária de 1835” que ela vem sendo representada na maioria dos escritos posteriores à carta, tanto na Historiografia quanto na Literatura.

Ainda que existam dúvidas sobre a trajetória de Luiza Mahin e que, para a Historiografia, ela seja uma personagem controversa — tendo em vista que não há outro documento além da carta escrita por seu filho que confirme sua existência —, ao afirmar que a mãe era uma ganhadeira, Luiz Gama nos apresentou a uma mulher empreendedora, inteligente, sagaz e, principalmente, uma mulher que foi a grande protagonista da sua história.

A carta escrita por Gama foi entregue a Lúcio de Mendonça acompanhada por um poema intitulado “Minha Mãe”, em que o autor a descreve como uma mulher muito carinhosa, zelosa e dedicada.

As representações de Luiza Mahin não se esgotam na carta autobiográfica de Luiz Gama e em seu poema. Para além desses registros, conforme analisei na dissertação Luiza Mahin entre ficção e História, a figura de Luiza parece passear entre a Historiografia e a Literatura, e foi nessa dinâmica ela que se tornou, para a memória histórica da população negra, um símbolo de luta, resistência, contestação à lógica escravista e afirmação de uma maternidade amplamente negada às mulheres pretas.

 

Outras mães… outras Mahins

Como lembrou Maria Nazareth Soares Fonseca no Prefácio de Ominíbú: maternidade negra em Um defeito de cor, de Fabiana Carneiro da Silva, o direito de vivenciar a maternidade e criar filhas e filhos era negado a muitas mulheres negras. Inclusive, era uma prática comum afastar as crianças das mães assim que chegavam à fase do desmame.

Se, no século XIX, palco da trajetória de Luiza Mahin, tantas outras mães lutaram para garantir a sobrevivência daqueles a quem davam a vida, hoje, passados 150 anos da Lei do Ventre Livre e 133 anos da abolição jurídica da escravidão no Brasil, mães pretas continuam se articulando para garantir a legitimação do direito à maternidade, ainda que de filhas/os não nascidas/os de seus ventres.

Maternar em conjunto com outras mulheres é uma dessas estratégias, especialmente entre as mulheres/mães/pretas/pobres. Montar uma rede de proteção e afeto para suas crianças tem sido uma forma de garantir o direito ao amor e ao cuidado em meio a tantas adversidades e atravessamentos, como aqueles referentes ao impacto do racismo e do machismo.

A experiência de criar filhas/filhos ainda é muitas vezes interrompida pela ação do Estado. Infelizmente, o genocídio de jovens negros é uma constante e muitas são as Mahins que perderam seus filhos e que, hoje, fazem simbolicamente a travessia de Kehinde, recompondo-se enquanto tentam reencontrá-los, ainda que seja lutando por eles e pela garantia de terem corpos e ventres, enfim, livres.

Dessa forma, Luiza Mahin vive e representa um coletivo de mulheres pretas que resistiram e ainda resistem à lógica senhorial. Sua trajetória mostra que a negociação era uma estratégia, assim como a dissimulação ou a resistência direta por meio das fugas, revoltas, formação de quilombos — os caminhos possíveis para o enfrentamento às opressões impostas pelo sistema escravista.

Luiza Mahin representa a luta pela garantia de direitos numa sociedade racista, que exclui e oprime. Ela nos alerta para a necessidade de guerrear contra o racismo, pela vida do povo negro.

 

Aline Najara da Silva Gonçalves é uma mulher preta, mãe, lésbica, candomblecista. É integrante da Rede de Historiadorxs Nagrxs e atualmente leciona na Universidade do Estado da Bahia como Professora Substituta no curso de História. É mestra em Estudo de Linguagens e doutoranda em História Social  pela UFRRJ. É autora do livro Luiza Mahin: uma rainha africana no Brasil e da Revista Luiza Mahin: a guerreira dos Malês.

Alguns livros fazem muito mais do que transportar a gente para dentro da história que contam; eles abrem nossa cabeça para realidades e pautas que não imaginávamos. A metade perdida, de Brit Bennett, é um desses livros. Ao explorar temas como colorismo, passabilidade e relações familiares influenciadas pelo racismo, o livro nos convida não só a refletir sobre esses assuntos, como também a buscar mais informações a respeito. Inspirados nisso, criamos a série “Quintas pretas”, em que teremos sempre uma convidada para falar semanalmente (em texto, vídeo ou através de obra visual) a respeito de alguns desses temas aqui no nosso blog e nas nossas redes. Vamos conversar mais?

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Comentários

2 Respostas para “Luiza Mahin: uma mãe preta

  1. Que texto excelente. Estabelece relação entre presente e passado, nos fazendo pensar o quanto que nossa sociedade avançou muito pouco e que temos um caminho de muita luta pela frente no combate ao racismo que segue a derramar nosso sangue através de agentes do Estado.
    Parabéns pelo texto, minha amiga!

  2. Que escrita transgressora e real. Altamente reflexiva para os dias de hoje, dos inúmeros atravessamentos que nos perseguem dia após dia no difícil ato de existir e ser principalmente mulher negra nesta sociedade.
    Máximo respeito, professora Aline!

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