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A meritocracia e a perversão da democracia nos Estados Unidos

3 / setembro / 2021

*Por Gabriel Trigueiro

  1. A meritocracia como um sistema de castas

A expressão “meritocracia” foi criada pelo sociólogo britânico Michael Young, em sua sátira The rise of the meritocracy [A ascensão da meritocracia], de 1958. O livro é uma fantasia distópica, na linha de 1984 e Admirável mundo novo, e o termo originalmente tinha uma conotação negativa: descrevia um regime no qual o acesso da população a escolas, universidades e empregos era condicionado a rigorosos testes de habilidades aplicados desde cedo. O fato de que a ideia posteriormente tenha adquirido uma conotação positiva pareceu a Young uma ironia perversa e a sátira da sátira. Hoje, a meritocracia usa a educação e a qualificação de ponta do mesmo modo com que a aristocracia usava a terra: como criação e validação de uma casta intocável. O investimento desproporcional das elites na educação de seus herdeiros desequilibra qualquer noção de igualdade de oportunidades e é um mecanismo sofisticado de transmissão de privilégios.

 

  1. Educação de elite e o fim do sonho americano

No livro A cilada da meritocracia, Daniel Markovits demonstra o fato de que no atual sistema, tal qual ele está organizado nos Estados Unidos pelo menos desde os anos 1970, as crianças da classe média perdem oportunidades para as crianças da elite na mesma razão em que os adultos da classe média perdem no mercado de trabalho para os adultos da elite de formação superqualificada.

A meritocracia bloqueia as oportunidades da classe média e “culpa aqueles que perdem a competição por renda e status – competição que, mesmo quando todos fazem tudo certo, só os ricos podem ganhar”.

 

3. Aristocratas disfarçado

F. Scott Fitzgerald, um dos maiores cronistas do sistema de classes norte-americano, em seu romance de estreia Este lado do paraíso (1920), descreve a entrada do protagonista Amory Blaine na Universidade de Princeton: e com isso todas as desventuras, tropeços e confusões que só poderiam ocorrer em uma sociedade que olha para si própria como democrática e igualitária, mas, no entanto, sempre teve a nostalgia de uma aristocracia romantizada. A casta alta da meritocracia norte-americana é, por incrível que pareça, uma classe que tem mais em comum com os antigos aristocratas do que em geral se supõe e se é capaz de afirmar em voz alta.

 

*Gabriel Trigueiro é doutor em História Comparada pela UFRJ

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