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Quem é George Soros, o bilionário filantropo envolvido em inúmeras teorias da conspiração?

6 / agosto / 2021

Por Alexandre Sayd*

Judeu húngaro, sobrevivente da invasão nazista e da posterior ocupação soviética, financista de carreira meteórica que se tornou um dos homens mais ricos do mundo com uma fortuna de bilhões de dólares. Esse é o polêmico George Soros, que ficou famoso pelas ações filantrópicas realizadas por sua organização, a Open Society Foundations, com atuação em dezenas de países; e também por conta do grande número de teorias da conspiração envolvendo seu nome —  geralmente originadas da direita política, para quem o magnata nonagenário é uma espécie de mestre da manipulação que governa o mundo indiretamente por trás dos panos.

É possível que essas teorias da conspiração  sejam o motivo principal para Soros ter ficado tão conhecido. Muitas delas são bastante superficiais e se disseminam em correntes de WhatsApp, grosso modo, acusando-o de tentar implantar um comunismo mundial — ou até mesmo de já ter feito isso!

Outras, mais elaboradas e menos delirantes, afirmam que Soros financiou as caravanas de imigração para os Estados Unidos partindo da América Central em 2017, ou que se beneficiou da Segunda Guerra Mundial ao colaborar com o regime nazista. Boa parte dessas teorias tem alguma dose de antissemitismo.

Apesar de tudo o que se diz sobre ele, George Soros é um notório defensor do liberalismo e da economia de mercado. Sua personalidade não poderia ser de fato relacionada a nenhuma forma de comunismo. Sua defesa de ideais progressistas e seu combate a regimes totalitários também não combinam com supostos planos de dominação global.

 Não se pode negar, entretanto, que o bilionário seja poderoso o bastante para influenciar grandes acontecimentos políticos e econômicos, como ficou demonstrado, entre outras coisas, pela atuação de sua ONG na abertura de países do leste europeu, mesmo antes da extinção da União Soviética, e também em manobras financeiras que marcaram a história, como a “quarta-feira negra”, de 1992, quando Soros vendeu mais de 10 bilhões de libras esterlinas em aberto, levando à quebra do Banco da Inglaterra.

 Então, apesar dos exageros conspiracionistas, é razoável enxergar Soros como um ator importante do teatro global, sendo alguém que promoveu a legalização das drogas em vários estados norte-americanos, elevou Viktor Orbán a presidente da Hungria, atrapalhou os planos imperialistas de Putin e lucrou com crises financeiras orquestradas por ele mesmo.

 Soros nasceu em Budapeste em 1930, registrado como György Schwartz. Seu pai foi um próspero advogado que combatera na Primeira Guerra Mundial e passara anos como prisioneiro em um campo da Sibéria. Era um homem muito inteligente e dinâmico, que fundou e dirigiu uma revista literária em esperanto e foi responsável pelo salvamento de muitos judeus quando os alemães invadiram a Hungria em 1944.

 Segundo George Soros, que então tinha 13 anos, ele teve muita sorte, porque seu pai entendeu depressa a natureza no regime nazista, percebeu que eram tempos anormais e que quem agisse normalmente conforme as regras estaria em risco. Assim, providenciou documentos falsos e esconderijos para toda a família, e também para muitos outros judeus, a maioria dos quais sobreviveu.

Poucos anos depois, em 1947, Soros conseguiu deixar a Hungria socialista e foi estudar na Inglaterra, onde foi aluno do filósofo Karl Popper, que o influenciou profundamente. Popper era um entusiasmado defensor das democracias liberais — o que chamava de “sociedade aberta” — e é mais conhecido no Brasil por ter apontado o “paradoxo da tolerância”, segundo o qual uma sociedade, a fim de se manter tolerante, não pode tolerar as ideias intolerantes.

 Após concluir os estudos, Soros começou a trabalhar para bancos e a experimentar com as finanças antes de criar seu próprio fundo de investimentos. Em 1969, criou seu primeiro hedge fund e ficou conhecido pelas suas manobras agressivas e de grande retorno financeiro. Através da Soros Fund Management, sua empresa de investimentos, ele foi capaz de multiplicar seu patrimônio até se tornar multibilionário, tendo chegado a ser o 29º homem mais rico do planeta em 2017, antes de doar 80% de seu dinheiro para sua organização filantrópica.

De acordo com o próprio Soros, foi ao se ver rico que ele se deu conta de que poderia repetir as ações de seu pai, mas numa escala gigantesca. Inspirado pelas ideias de Karl Popper, criou a organização chamada Open Society Foundations, com os objetivos de abrir sociedades fechadas, viabilizar as sociedades abertas e desenvolver o pensamento crítico. Esse último objetivo resultou na fundação da Universidade Centro-Europeia, sediada em Budapeste, com a finalidade de fomentar a democracia e o desenvolvimento científico em países que integraram o extinto bloco soviético.Inicialmente, a Open Society Foundations atuou em países subdesenvolvidos, como a África do Sul, onde tentou combater a política de apartheid, e países que compunham a União Soviética, onde procurava meios de abrir aquelas sociedades totalitárias. A ONG ajudou a financiar movimentos dissidentes por todo o leste europeu. Eventualmente, começou a se envolver com organizações de defesa de direitos civis e justiça social também em países desenvolvidos, abordando causas progressistas como o combate ao racismo, a revisão das políticas de imigração e de refugiados, a descriminalização das drogas e o direito à eutanásia.

Com um orçamento anual que atualmente ultrapassa a cifra de um bilhão de dólares e uma pauta que muitas vezes vai no sentido oposto à dos países onde atua, não é de surpreender que em muitas ocasiões a OSF tenha enfrentado a resistência de governos, chegando a ser recentemente banida da Rússia.

Além da filantropia, Soros também participa ativamente da política através do financiamento de partidos, candidatos, organizações e programas de governo. Nos Estados Unidos, o investidor é um apoiador do Partido Democrata e ajudou a financiar as campanhas de Obama e Hillary Clinton, além de ter doado dinheiro para programas sociais governamentais.

Em outros países, em especial onde a OSF atua, Soros ocasionalmente também se envolve com a política local, em alguns casos de maneira desastrada, obtendo resultados contrários aos planejados, como ocorreu na Hungria e na Geórgia. No caso da Hungria, por exemplo, Soros investiu na formação e promoção pública de Viktor Orbán, acreditando que ele seria uma peça importante para libertar o país do jugo soviético, e chegou até mesmo a pagar para que Orbán fosse estudar na Inglaterra, em 1989. Após ascender ao poder, entretanto, Orbán deu uma guinada radical para a extrema-direita e iniciou uma campanha pública de difamação contra George Soros e a OSF, que por pouco não acabou banida do país.

Outro apoio desastrado foi dado ao político georgiano Mikheil Saakashvili, um opositor dos interesses russos na Geórgia. Após eleito, Saakashvili se viu envolvido em vários casos de corrupção, e a OSF se tornou a principal voz de oposição ao governo. Paralelamente, Vladimir Putin acusou a OSF de ser o dinheiro por trás da eleição de Saakashvili e aumentou a pressão contra a ONG na Rússia.

Com mais de 90 anos de idade e após ter acumulado tantas polêmicas (e dinheiro), George Soros deixará um legado ainda incerto, mas ele tem planos para que a OSF e a Universidade Centro-Europeia continuem em atividade após sua morte.

Pessoalmente, Soros afirma não se considerar um samaritano ou uma pessoa particularmente generosa. Pelo contrário, já declarou ser um indivíduo autocentrado e egoísta, cujas ações filantrópicas servem sobretudo à sua própria satisfação e vaidade. Ele explica também que não há contradição entre ser rico e ser um filantropo, pois a primeira característica é um pré-requisito para a segunda: não é possível fazer filantropia se você não for rico.

Alguns milionários colecionam arte, patrocinam times de futebol, dão festas em iates com modelos da Playboy a fim de obter alguma realização pessoal. George Soros optou por tentar fazer do mundo um lugar melhor (ainda que de acordo com seus próprios parâmetros), e isso fez com que atraísse para si o tipo de atenção que as pessoas ricas costumam evitar. Se tivesse apenas desfrutado de sua fortuna, dificilmente haveria tanto interesse a seu respeito.

*Alexandre Sayd é jornalista com passagem pela Tv Globo e Tv Brasil.

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