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Perpétuos: os quadrinhos e a obra de Neil Gaiman

9 / agosto / 2021

Por Mário Feijó*

Neil Gaiman na SDCC em 2018 (Fonte). REBECCA CABAGE/INVISION/AP

Sou fã da Intrínseca por vários motivos. Talvez o principal seja o belíssimo trabalho que ela faz com a obra de Neil Gaiman, dispersa durante anos entre diversas editoras, que nem sempre tiveram o devido cuidado com o autor e com seus leitores. Isso mudou quando a Intrínseca lançou O oceano no fim do caminho em 2013; finalmente o fabuloso universo literário de Gaiman encontrou uma casa onde poderia reunir diferentes gerações, para recordar ou descobrir sonhos e medos. O catálogo completo ainda não está na Intrínseca, mas torço para que algum dia esteja. O leitor brasileiro merece. E agora, em julho de 2021, um novo presente chegou: um projeto inédito e exclusivo para os leitores brasileiros, reunindo contos do autor adaptados para a linguagem dos quadrinhos: a Biblioteca Gaiman. Quem pega o volume 1 nas mãos fica logo ansioso pelos próximos.

Meu relacionamento com Gaiman é antigo. Eu tinha vinte anos quando o descobri, lá na longínqua década de 1980, numa banca de jornais; foi um divisor de águas para mim e para muitos amigos que estavam migrando da adolescência para a vida adulta. Era o tempo do Gaiman raiz de Sandman, então publicado em gibis. Era revolucionário. Claro, havia aqueles que preferiam Alan Moore ou Hugo Pratt, mas mesmo estes sabiam que a saga Sandman era um ponto fora da curva, um material de excelência. Tão britânico e ao mesmo tempo tão universal. Era gibi, mas poderia ser literatura. Era gibi, era arte, era vida, morte, sonho, pesadelo, esperança, brutalidade, heresia, cânone, sincretismo total. Quanto maior o repertório de leitura, mais fantástica era a experiência daqueles quadrinhos que misturavam mitologias, folclores, música, cinema, diversidade, culturas, família, amizades, amores e mais família.

Faça uma lista dos temas mais badalados ou ousados do século XXI. Gaiman foi precursor de todos eles. Ao mesmo tempo que nos levava para a Grécia Antiga, para o Japão feudal, para a África tribal, para a Revolução Francesa, até para o Inferno, Gaiman explorava personagens e dramas que só ganhariam visibilidade décadas depois. Ou, como diziam alguns críticos na época: “Esse cara é muito doido.” Bem, o inglês doido dava medo, fazia pensar bastante e também emocionava com coisas simples. Difícil de explicar, mas fácil de sentir. Quando ele migrou dos gibis para os livros, muita gente achou que não daria certo. Deu.

O Neil Gaiman de hoje é o escritor premiado, consagrado e disputado pelos canais de streaming. Publicou para adultos, jovens e crianças, sempre com sucesso, sempre fazendo boa arte. Raramente voltou aos quadrinhos, mas suas sombrias narrativas literárias são perfeitas para o formato, se forem adaptadas por quadrinistas que compreendem a essência da atualização do discurso, do recontar o que já é conhecido com novos elementos e novos significados. Transformar palavras em imagens é para poucos. O time que costuma adaptar Gaiman sabe o que faz e para quem faz. Mesmo com essa matéria-prima da melhor qualidade, a equipe editorial da Intrínseca soube escolher muito bem o conteúdo do volume 1: Shane Oakley, Michael Zulli, Todd Klein, P. Craig Russell e John Bolton. Para o prefácio, a brasileira Cris Peter. Para a capa, síntese magistral das histórias adaptadas, o sensacional e brasileiríssimo Shiko. O projeto gráfico é de Antonio Rhoden e a tradução é de Stephanie Fernandes. A preparação de originais, do mestre Victor Almeida.

Capas originais das três primeiras histórias da coletânea. Texto © 2021 Neil Gaiman. Ilustrações © 2021 Shane Oakley, Michael Zulli, P. Craig Russell

A primeira narrativa, com adaptação e arte de Shane Oakley, tem um título exagerado… “As noivas proibidas dos demônios desfigurados da mansão secreta na noite do desejo sinistro”. Ufa! É que são duas histórias dentro de uma, recurso que Gaiman domina. É sobre literatura gótica, ou talvez seja sobre fantasia, sobre ansiedade e crise criativa. Com certeza é sobre terror, antigo ou contemporâneo, mas há terror. Desconcertante, às vezes incômodo. Os leitores que amam os grandes clássicos do gênero e que gostam de buscar citações e referências aqui e acolá irão se divertir. No final, o que importa é que tudo esteja em seu devido lugar.

Em “Criaturas da noite”, descobrimos um novo combo, pois são duas estranhas histórias pelo mesmo artista, Michael Zulli. Temos o Gato Preto, que é um nome próprio, e temos a Filha das Corujas, que poderia ser um nome próprio. De onde vieram? Nem as Hempstocks saberiam dizer. Bom, se você sabe quem são as Hempstocks, sabe que Gaiman adora gatos pretos em suas tramas, sendo que aqui o gato é o herói. Talvez um super-herói. Mais do que espantar o mal e proteger a casa, ele está lá para lutar, de verdade, pelo bem-estar da família humana que o acolheu. Quanto à Filha das Corujas, a menina desamparada e abandonada nos degraus da igreja, criada no convento onde não havia mais freiras, aparentemente indefesa diante da crueldade dos homens, era uma bela jovem que não sabia falar. Não podia contar sua triste história, mas as moradoras da vila fizeram isso por ela, e a lenda se espalhou.

Todo bom escritor remete a outro; estão sempre interligados de alguma maneira. Desde Sandman, sabíamos que Paraíso Perdido, de John Milton, era uma das fontes favoritas de inspiração para Gaiman. Pois no detetivesco “Mistérios divinos”, com adaptação e arte de P. Craig Russell, vemos essa influência ser retomada e aprofundada. Conheça Lúcifer de um jeito que você nunca viu. Se você é o tipo de leitor que gosta de prelúdios, prepare-se. Descubra que muito antes de tudo, antes mesmo de Sherlock Holmes, houve um investigador chamado Raguel, e ele era a Vingança. Como escrevi antes, Gaiman domina a técnica de contar uma história dentro de outra, então esta trama de mistério, terror e morte é sobre Tinkerbell Richmond, trinta e poucos anos, mãe de Susan. Pessoas chamadas Tinkerbell batizam suas filhas com nomes comuns, fáceis de lembrar ou de esquecer.

Capas originais das duas últimas histórias da coletânea. Texto © 2021 Neil Gaiman. Ilustrações © 2021 Michael Zulli, John Bolton

“A verdade sobre o desaparecimento da srta. Finch”, adaptação de Todd Klein e arte de Michael Zulli (olha ele aqui outra vez), merece um cálice de vinho do Porto, ainda que o narrador discorde disso. É que ele ficou um tanto quanto perturbado com os eventos vividos na noite em que a srta. Finch sumiu. A expressão “circo de horrores” pode ser batida, cafona, mas foi nesse tipo de circo que os personagens se meteram inadvertidamente. Parecia apenas brincadeira para adultos, com horrores fake como masmorras, gritos, correntes, guilhotinas, mesas de tortura, gente esquisita. Monstros, vampiros, zumbis, quem ainda acredita nisso? Smilodons e aepyornis podem ser mais interessantes. Os primeiros são tigres-dente-de-sabre, os segundos são dodôs. Para tentar entender, o leitor terá de percorrer as dez câmaras do circo. Em cada uma delas, um novo pesadelo, um novo encanto, uma nova fantasia.

Por fim, “Arlequim apaixonado”, arte de John Bolton. Imagino que este tenha sido o grande desafio para a tradução de Stephanie Fernandes, porque narrativa rimada nunca é fácil de passar do inglês para o nosso português, mantendo a graça e o estilo do original. Desafio aceito e missão cumprida. Gaiman gosta da italiana Commedia dell’Arte, quem o acompanha desde 1988 sabe disso. Assim sendo, cuidado ao abrir a porta, pode haver um coração pregado nela. É, um coração, rubro, escuro, quase marrom, cor de fígado. Se é dia de São Valentim, que lá na Inglaterra vale como Dia dos Namorados, tenha cuidado. Algo está errado. Sobrenatural ou não, cuidado com a paixão. Mas não tenha tanto medo, haverá do que rir, ou pelo menos motivo para sorrir, na dor do amor, no recomeço do ardor.

***

 

Ter começado pelos quadrinhos deu a Neil Gaiman uma base de leitores que ele carregou para outras mídias. Foram seus leitores originais que compraram os livros para si e para os filhos. Que levaram as crianças ao cinema para assistir a Coraline. Essa criançada está crescida e agora aguarda ansiosamente a estreia da adaptação de Sandman para a Netflix. Mas assistir streaming ficou mais fácil do que ler gibis publicados tantos anos atrás, sendo que muitos deles nunca nem chegaram ao Brasil. Os velhos leitores têm muita coisa guardada na memória afetiva das bancas de jornais e dos papos com os amigos. A publicação da Biblioteca Gaiman, com todos os volumes que virão, permitirá que eles reencontrem um conteúdo marcante e sempre relevante. Os mais jovens poderão descobrir e imergir em partes inexploradas desse universo ficcional perfeitamente equilibrado em estímulos emocionais e reflexões intelectuais, em que literatura e quadrinhos sempre estiveram juntos. Os Perpétuos, os sete irmãos mais antigos que o tempo, podem provar.

 

*Mário Feijó é doutor em Letras e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, onde ministra as disciplinas complementares “Gaiman: do terror ao infantil” e “O medo e a esperança na obra de Neil Gaiman”.

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