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O que um sobrevivente de um dos piores momentos da humanidade pode nos ensinar?

26 / agosto / 2021

Em 2019, uma palestra do TEDx ganhou o mundo. Eddie Jaku, um sobrevivente do Holocausto, então com 99 anos, falava sobre sua vida, os horrores dos campos de concentração da Alemanha nazista e por que, apesar de tudo isso, ele se considera o homem mais feliz do mundo.

Agora com 101 anos, Eddie expande sua mensagem, transmitida naquele vídeo de pouco mais de 11 minutos, em um livro: O homem mais feliz do mundo. Compartilhando memórias de sua infância, sua família e do período mais sombrio de sua juventude, ele traz importantes conselhos sobre a vida em uma obra inspiradora sobre o poder do amor, da gratidão e da gentileza.

Esse é um livro poderoso e emocionante, com uma lição de esperança que nos mostra que, mesmo após situações que parecem nos destruir, ainda é possível ser feliz e acreditar em uma vida melhor.

 

Leia um trecho:

Meu querido novo amigo.

Estou vivo há um século e sei o que é olhar o mal na cara. Vi o pior da humanidade, os horrores dos campos da morte, os esforços dos nazistas para exterminar minha vida e a de todo o meu povo.

Mas hoje me considero o homem mais feliz do mundo.

Ao longo de todos esses anos, aprendi o seguinte: a vida pode ser bela se você a torna bela.

Vou lhe contar minha história. Algumas partes dela são tristes, com muita escuridão e muita dor. Mas é uma história feliz no fim, porque felicidade é algo que podemos escolher. Cabe a você.

Vou lhe mostrar como.

***

Eu nasci em 1920, em uma cidade chamada Leipzig, na Alemanha Oriental. Meu nome era Abraham Salomon Jakubowicz, mas meus amigos me chamavam de Adi. Em inglês, pronuncia-se Eddie. Portanto, por favor, me chame de Eddie, meu amigo.

[…] Meu pai tinha grande orgulho de ser cidadão alemão, pois era um imigrante da Polônia que se estabeleceu na Alemanha. Deixou seu país natal como aprendiz de engenharia mecânica fina na empresa Remington, fabricante de máquinas de escrever. Como falava bem alemão, acabou indo para os Estados Unidos, trabalhando a bordo de um navio mercante alemão.

[…] Nada podia abalar o patriotismo e o orgulho de meu pai pela Alemanha. Nós nos considerávamos, em primeiro lugar, alemães; em segundo, alemães, e só depois judeus. Nossa religião não nos parecia tão importante quanto sermos bons cidadãos de nossa Leipzig. Praticávamos nossas tradições e celebrávamos nossos feriados, mas lealdade e amor tínhamos mesmo pela Alemanha. Eu tinha orgulho de ser de Leipzig, que, havia oitocentos anos, era um centro de arte e cultura: possuía uma das orquestras sinfônicas mais antigas do mundo e inspirou Johann Sebastian Bach, Clara Schumann, Felix Mendelssohn, escritores, poetas e filósofos como Goethe, Leibniz, Nietzsche e muitos outros.

Durante séculos, os judeus fizeram parte do tecido da sociedade local. Desde os tempos medievais, o grande dia do mercado era sexta-feira, não sábado, para permitir que os mercadores judeus participassem, já que o trabalho é proibido no sábado, o Shabat judeu. Proeminentes cidadãos e filantropos judeus contribuíram para o bem público, assim como para a comunidade judaica, supervisionando a construção de algumas das sinagogas mais bonitas da Europa. A harmonia fazia parte da vida. E era uma vida muito boa para uma criança. A cinco minutos de casa, a pé, tínhamos o Jardim Zoológico, famoso no mundo inteiro por sua coleção e por criar mais leões em cativeiro do que qualquer outro lugar do mundo. Você consegue imaginar como isso era impressionante para um menino pequeno?

[…] Meu pai trabalhava duro para nos sustentar, e levávamos uma vida confortável. Mas ele fazia questão de que entendêssemos que a vida era muito mais do que coisas materiais. Toda sexta-feira à noite, antes do jantar do Shabbos, minha mãe assava três ou quatro tranças de chalá, o delicioso pão usado em cerimônias religiosas, feito de ovos e farinha, que comíamos em ocasiões especiais. Quando eu tinha seis anos, perguntei a meu pai por que assávamos tantos pães se éramos uma família de quatro membros, e ele explicou que levava os outros à sinagoga, para dar aos judeus necessitados. Ele adorava a família e os amigos. Sempre trazia amigos para jantar conosco em casa, embora minha mãe batesse o pé e dissesse que não dava para ter mais de cinco pessoas por vez, pois não havia como apertar mais gente ao redor da mesa.

“Se você tem sorte o bastante para ter dinheiro e uma boa casa, pode ajudar aqueles que não têm”, dizia-me ele. “A vida é isso. É compartilhar sua boa sorte.” Meu pai me contava que há mais prazer em dar do que em receber, que as coisas importantes na vida (amigos, família, bondade) são muito mais preciosas do que o dinheiro. Um homem vale mais do que sua conta bancária. Na época, eu achava que ele era louco, mas agora, depois de tudo que vi nessa vida, sei que estava certo.

Mas havia uma nuvem sobre o cenário de nossa família feliz. A Alemanha passava por dificuldades. Havíamos perdido a última guerra, e a economia estava arruinada. As potências aliadas vitoriosas exigiam mais dinheiro em reparações do que a Alemanha podia pagar, e 68 milhões de pessoas estavam sofrendo por isso. Havia escassez de alimentos e combustível e uma pobreza desenfreada, sentida de forma aguda pelo orgulhoso povo alemão. Embora fôssemos uma família de classe média com uma vida confortável, não era possível encontrar muitos itens necessários, mesmo para quem tinha dinheiro em espécie. Minha mãe caminhava muitos quilômetros até o mercado para trocar bolsas e roupas que reunira em tempos mais fartos por ovos, leite, manteiga ou pão. No meu aniversário de treze anos, meu pai me perguntou o que eu queria, e pedi seis ovos, um pão branco (algo difícil de encontrar, porque os alemães preferem pão de centeio) e um abacaxi. Eu não conseguia imaginar nada mais impressionante do que seis ovos e nunca tinha visto um abacaxi. E, de alguma forma, ele arranjou um… Não faço a menor ideia de como, mas meu pai era assim. Ele fazia coisas que pareciam impossíveis só para pôr um sorriso em meu rosto. Fiquei tão empolgado que comi todos os seis ovos e o abacaxi inteiro de uma só vez. Eu nunca experimentara uma comida tão magnífica. Mamãe me avisou para ir com calma, mas eu a ouvi? Não!

A inflação era terrível, o que tornava impossível estocar alimentos não perecíveis ou fazer planos para o futuro. Meu pai chegava em casa, vindo do trabalho, com uma valise cheia de dinheiro que na manhã seguinte não teria valor. Ele me mandava à loja e dizia: “Compre o que puder! Se houver seis pães, compre todos eles! Amanhã não teremos nada!” Mesmo para os afortunados, a vida estava muito difícil, e os alemães se sentiam humilhados e irritados. As pessoas ficaram desesperadas e receptivas a qualquer solução. O partido nazista e Hitler prometeram uma solução ao povo alemão. E lhes ofereceram um inimigo.

 

 


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