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Uma reflexão sobre as dores e alegrias da paternidade

14 / junho / 2021

Adriana Calcanhotto apresenta Crônicas de pai, obra que reúne textos afetivos de Leo Aversa

O que se espera de um pai nos anos 20 do século XXI? Como era ser filho nas décadas de 1970 e 1980? Crônicas de pai talvez não dê as respostas exatas a essas perguntas, mas os leitores vão, junto com Leo Aversa, abrir os armários e as gavetas da memória para refletir sobre elas. 

Leo é fotógrafo profissional desde 1988 e cronista do jornal O Globo. Em seu primeiro livro, entre crônicas já publicadas e inéditas, ele reúne as histórias que vão do nascimento à pré-adolescência de seu filho Martín e as da relação transformadora de ter sido cuidado e agora cuidar e acompanhar o pai. O resultado é um retrato de três gerações de homens unidos por laços de amor e cuidado. 

Em edição de luxo, com capa dura, pintura trilateral e projeto gráfico de Aline Ribeiro, Crônicas de pai ainda conta com as belas e sensíveis ilustrações da artista carioca Poeticamente Flor e apresentação de Adriana Calcanhotto, que é possível conferir com exclusividade a seguir:

Fui conhecendo Leo Aversa aos poucos. Primeiro como o crédito em fotos incríveis no jornal, mais tarde  pelas  suas  crônicas  no  mesmo  O  Globo entremeadas por nossos encontros para sessões de fotos, no começo para matérias no Segundo Caderno.  Daí  comecei  a  ser  fotografada  por  ele  para  algumas  revistas  e,  a  meu  convite,  para  ensaios  de  divulgação. Assim nos tornamos amigos, embora muita gente ache, e com razão, que nunca mais falei com ele desde  que  afogamos  um  violão  caríssimo  no  mar  de São Conrado por uma bela foto. Ao contrário, naquela  tarde  de  mar  agitado  quando  tomei  um  caldo  feio com o violão cheio d’água e por isso pesando tonelada e meia, nossa relação ficou mais cúmplice.

O  humor  do  Leo  fotógrafo  transforma  uma  sessão de fotos com uma cantora tímida que não sabe pra onde olhar numa tarde de gargalhadas de doer a barriga. Fora isso, tirou fotos antológicas dos meus ídolos, o que o coloca num lugar muito especial no meu coração.  Mas  ele,  a  respeito  dessas  fotos  de  gente  grande, diz  que  apenas  assumiu  o  posto  de  flanelinha  da  música  popular  brasileira,  porque,  diante  de  Paulinho  da Viola, Marisa Monte ou Chico Buarque, o que ele tem para dizer é: “Um pouquinho mais pra direita, parou, parou, aí!! Agora pra esquerda, levanta o queixo, foi demais, desfaz, desfaz, aí, aí! Click. Lindo!”

Só  que  lindo  mesmo  é  ver  como  ele  se  transforma,  concentrado,  o  olho  brilhando, acompanhando a luz com um jeito de quem a domina, mas sabe que ela não  será  a  mesma  nem  por  dois  minutos  inteiros.  Algumas vezes me fotografou com buracos gigantes no peito  que  só  eu  via  e  sentia,  inchada  de  chorar,  com dor de cabeça, com dor de cotovelo, enlutada, perplexa com  o  Brasil,  e  o  que  ele  captou  foi  sempre  a  face  de uma pessoa olhando pra câmera e só. Nunca mostrou os  buracos  e  as  tristezas  que,  imagino  —  com  nossos anos  de  amizade  —,  ele  também  viu  na  minha  cara, mas,  generoso  e  amigo,  deixou  de  fora  das  imagens, pelo que sou gratíssima.

Agora  leitora  assídua  das  suas  crônicas  afiadas  no  jornal, descobri mais um talento poderoso do escritor, dos mais raros, que é a capacidade de emocionar. Lendo as crônicas em que ele é um ex-herói para o filho com o Mal da pré-adolescência e quase um ex-filho para o pai com Alzheimer, chorei diversas vezes. A reunião dessas crônicas  torna  o  conjunto  muito  mais  denso  e  muito mais revelador do grande cronista que ele é, porque no jornal  lemos  as  crônicas  junto  a  assuntos  bem  menos  interessantes,  como  o  fascínio  do  Brasil,  em  pleno  século XXI, por combustíveis fósseis, a página que já foi de política e agora é a nova página policial, as crianças negras do Brasil sendo dizimadas por “balas perdidas” em manchetes diárias. De modo que dá um nó na garganta quando no jornal Leo se pergunta quanto tempo vai  levar  pra  que  o  pai  se  esqueça  definitivamente  de quem é ou de quem foi. Aqui, nesta reunião de textos, em  que  ele  é  pai  de  jogador  de  futebol,  filho,  amigo, marido,  cidadão  observador  da  cidade  e  inimigo  das convenções  pequeno-burguesas,  dá  pra  vislumbrar  a estirpe de homem que ele é e isso comove.

A  crônica  é  um  gênero  brasileiro  cujos  maiores representantes  alargaram  a  forma,  como  Machado de  Assis,  Clarice  Lispector  e  Rubem  Braga.  Pra  mim, Leo está nessa lista, porque a crônica, como a crítica, é escrita para embrulhar o peixe de amanhã, precisa ser efêmera. No caso do Leo, como no de Santo Antônio, os  peixes  e  os  textos  convivem  na  memória.  O  jornal vai e a crônica fica.

Não é possível passar batido por um pai sarcástico que  se  assusta  com  o  sarcasmo  do  filho,  a  gente  fica  querendo  botar  o  cronista  no  colo  e  dizer  “pronto, pronto,  passou,  passou”.  Cronista  que,  aliás,  nasceu como cronista ao ouvir na infância o pai lendo para ele o  jornal  da  época  com  textos  de  Carlos  Drummond de  Andrade,  João  Saldanha  e  Carlos  Eduardo  Novaes. Penso então que a crônica seja pra ele um exercício de afeto.

E assim, talvez, neste momento, alguém esteja lendo  este  livro  para  um  filho  ou  uma  filha,  e  a  crônica brasileira estará seguindo seu caminho de texto brasileiro, único, jornalístico, fotográfico. Click. Lindo!

O lançamento da obra está previsto para o dia 30/07 e já possível garantir na pré-venda.


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