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Patricia Highsmith: Como a mestre dos thrillers moldou a literatura LGBTQI+

18 / junho / 2021

*Por João Lourenço

Fonte: Getty Images

Há cem anos nascia a americana Patricia Highsmith, no estado do Texas. A autora ficou conhecida por grandes suspenses psicológicos, como O talentoso Ripley, relançado agora pela Intrínseca em novo projeto gráfico e com acabamento especial. Mas, antes de fazer sucesso como Highsmith, a autora assinava como Claire Morgan, pseudônimo com o qual publicou o romance LGBTQI+ The Price of Salt em 1952 — posteriormente relançado como Carol e adaptado para os cinemas em 2015.  

O livro foi escrito quando Highsmith trabalhava em uma loja de sapatos. Recém-formada na prestigiosa Barnard College, em Nova York, o trabalho como vendedora era uma alternativa para a autora conseguir pagar as sessões de psicanálise. Na época, ela enfrentava problemas amorosos e não tinha certeza se casaria com o então noivo. De acordo com as biografias da autora, o período em que escreveu The Price of Salt coincide com o momento em que ela tentava compreender a própria sexualidade.

Nos Estados Unidos dos anos 1950, a homossexualidade ainda era vista como doença, um desvio moral e de caráter. O país passava pelo macarthismo, época marcada por censura e violação dos direitos civis. Embora as obras de Alfred Kinsey, lançadas no final da década de 1940, tenham derrubado vários mitos e preconceitos sobre identidade sexual, as discussões sobre o papel de gays e lésbicas na sociedade ainda se restringiam ao contexto intelectual e acadêmico. O livro de Highsmith surgiu como uma espécie de divisor de águas para a cultura LGBTQI+.

O romance ajudou a mudar os rumos das discussões sobre a homossexualidade. The Price of Salt foi o primeiro romance gay que tratou a sexualidade das protagonistas com naturalidade. Ao contrário de outras obras com temática queer, que retratavam o homossexual como personagem secundário, alguém em conflito eterno e com tendências suicidas (como em A Cidade e o Pilar, de Gore Vidal), Highsmith oferece um equilíbrio, uma noção de possibilidade para milhares de leitores que temiam as possíveis situações de rejeição e isolamento acarretadas pela vida LGBTQI+. Ao proporcionar um final feliz para as protagonistas, o livro de Highsmith funciona como uma carta de liberdade, uma espécie de autorização para os leitores se assumirem e explorarem sua sexualidade. 

Em seguida, Highsmith escreveu os romances de Ripley e nunca mais encontrou dificuldade para ser publicada. Cinco romances acompanham a trajetória do ambicioso Tom Ripley. Por ter sido adaptado algumas vezes ao cinema, O talentoso Ripley, primeiro volume da série, ainda é o mais conhecido da autora. Ainda hoje o título é motivo de discussões calorosas sobre a moralidade e sexualidade do personagem.

Na obra, temos um grande observador do comportamento humano. Ripley utiliza essa habilidade para transitar entre pessoas poderosas. Mestre do disfarce, ele vive uma vida de performance, na qual interpreta o personagem certo para cada situação. Pense em uma pessoa que sempre sabe o que dizer na hora certa e, assim, consegue driblar qualquer dificuldade.

Ripley sonha em ter uma vida fácil. Após realizar vários truques em Nova York, embarca para uma temporada na Europa. Na costa italiana, faz amizade com um jovem casal de americanos, Dickie e Marge. Ao se deparar com o mundo glamoroso do casal, Ripley encontra uma oportunidade para assumir a identidade e a vida que tanto almeja. Aos poucos, Ripley desenvolve uma obsessão por Dickie e passa a imitá-lo na personalidade e nas roupas. O comportamento gera desconforto entre Dickie e Marge, que começam a se afastar de Ripley. Encurralado, ele reage de forma imprevisível.

Highsmith narra com riqueza de detalhes os maneirismos e as contradições da alta sociedade. Todos os personagens do romance são mantidos em uma nuvem de mistério. Ripley, por exemplo, é um personagem ambíguo e aparenta certa atração por Dickie, mas a autora nunca definiu a sexualidade do seu personagem mais famoso. Levantar bandeiras não a interessava. Assim, cabe ao leitor encontrar suas pequenas insinuações. Enquanto a sexualidade dos personagens era mantida nas entrelinhas, a narrativa de Highsmith nunca utilizou tom moralista para julgar aqueles que fugiam da ordem vigente.

Independentemente da sexualidade ou motivação, os personagens de Highsmith recebem a mesma atenção, e isso se reflete na enorme empatia que o leitor criou com esses personagens. Ripley vai além de um vilão assassino e calculista. Quando torcemos pelo personagem, torcemos por sua coragem e determinação. Ele reflete os desejos primitivos de autotransformação do homem.

Ao todo, Patricia Highsmith escreveu 22 livros e vários contos que estão distribuídos em uma carreira de cinquenta anos. Apesar de ter utilizado elementos da cultura queer em vários títulos, The Price of Salt foi o único romance abertamente LGBTQI+ da autora, que era tão controversa quanto seus personagens. É interessante perceber que uma das maiores escritoras do século XX se correspondia com os leitores e os aconselhava em seus conflitos de identidade sexual. Mas, na vida pública, devido à homofobia, ela evitava falar sobre a própria sexualidade. Hoje, temos autores e histórias queer em diferentes  formatos e plataformas. A importância da representação das diversas configurações do amor continua a salvar vidas, especialmente em países como o Brasil. Amar é uma loteria, mas é possível jogar, apostar as fichas e não temer o resultado. Uma parcela dessa liberdade leva o nome de Patricia Highsmith.

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. 

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Comentários

Uma resposta para “Patricia Highsmith: Como a mestre dos thrillers moldou a literatura LGBTQI+

  1. Interpretação simplificadora demais à medida que tenta equalizar a produção de Highsmith com o pensamento atual. Um pouco de perspectiva histórica ajudaria a equilibrar melhor a percepção de um leitor atual da obra da autora.

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