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Holocausto brasileiro: das páginas para as telas da TV

25 / junho / 2021

Por Daniela Arbex*

Raimundo e Wanda são nomes fictícios dos personagens da série Colônia, que estreia nesta sexta-feira no Canal Brasil e na Globoplay, mas eles bem que poderiam se chamar Cabo e Sônia, pessoas reais cujas histórias foram retratadas no livro Holocausto brasileiro. Raimundo, Wanda, Juraci, Valeska, Elisa, Freitas, Gilberto e muitos outros personagens da série dirigida por André Ristum são o retrato de um Brasil onde cabem todas as exclusões. Das pessoas negras, dos militantes políticos, das mulheres silenciadas por insubmissão, dos homossexuais, dos indesejáveis sociais.

Com sensibilidade e contundência, Ristum usa a arte e em alguns momentos o humor para falar sobre uma das páginas de nossa história que mais nos envergonha: a do tratamento oferecido a todos aqueles que a sociedade julgava merecerem o extermínio. Ou melhor, o não tratamento. A série que ele criou não se omite diante do nosso passado. Escancara a nossa falta de humanidade para lidar com os sãos e com todos aqueles que recebem o estigma da doença mental.

A maior parte da trama se desenrola dentro do hospício de Barbacena, o cenário assustador do que foi o Hospital Colônia entre 1903, ano da sua inauguração, e 1980, quando os primeiros ventos da reforma psiquiátrica sopraram por lá. Colônia tem início com a história de Elisa, a filha solteira de um rico fazendeiro que é despachada de trem para o hospital após ter engravidado.

Assim como ela, outras milhares de Elisas foram colocadas no chamado trem de doido para expurgar no hospício os seus “erros” e tudo que era considerado fora das normas sociais. No Colônia, ela conhece Gilberto, expulso de casa por ser gay. Também se aproxima de Wanda e Raimundo. Relegados ao esquecimento social por serem negros e pobres, os dois passam décadas institucionalizados. Lá, Elisa ainda encontra Valeska, amante do prefeito da cidade. Aliás, é o político quem a interna no hospital com a conivência da medicina e do diretor da instituição.

O uso do eletrochoque sem finalidade terapêutica também é denunciado na série de Ristum, bem como a violência dos guardas para a manutenção da ordem e a venda de cadáveres. Também estão em cena os banhos frios, a substituição das camas por capim, a pouca comida, a ausência completa de alguma forma de atenção. Em meio a tantas dores, Elisa encontra na amizade de Wanda e de outros pacientes uma maneira de se salvar da loucura que lhe foi imposta, já que a sanidade dela é colocada em xeque a cada reviravolta da história.

Colônia, que será exibida em dez capítulos no formato preto e branco, tem fotografia assinada por Hélcio Alemão Nagamine, e traz ainda cenas inesquecíveis sobre a luta de muitos internos contra a desumanização. Aliás, resistir à ordem vigente, à loucura dos normais, é um imperativo na série — que é de uma atualidade assustadora. Ela nos coloca frente a frente com um Brasil que nega a realidade, com os tabus que sustentam a exclusão. Escancara o racismo, os nossos fantasmas e nos conecta com o que verdadeiramente somos. Homenageia, enfim, os 60 mil mortos que não tiveram a chance a uma vida digna. Dignidade e talento, aliás, são o que se encontra na interpretação de Fernanda Marques, Arlindo Lopes Júnior, Andreia Horta, Rejane Faria, Bukassa Kabengele, Marco Bravo, Naruna Costa, Augusto Madeira, Eduardo Moscovis e outros grandes nomes.

Preparem-se para mergulhar no Brasil profundo, onde a esperança nunca morre.


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