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Walter Isaacson, o biógrafo da inovação

20 / maio / 2021

Por Vanessa Corrêa*

“A curiosidade é a principal característica das pessoas que me fascinam, de Benjamin Franklin a Albert Einstein, a Steve Jobs e a Leonardo da Vinci… E talvez esse instinto — curiosidade, pura e simplesmente — seja o que vai nos salvar”, diz Walter Isaacson no livro A decodificadora: Jennifer Doudna, edição de genes e o futuro da espécie humana.

É esse fascínio pela curiosidade que move a diversa e bem-sucedida carreira de Isaacson, um dos mais importantes biógrafos da atualidade, que completa 69 anos hoje. 

Nascido em Nova Orleans, nos Estados Unidos, em 20 de maio de 1952, Isaacson estudou nas universidades de Harvard e Oxford e começou sua carreira como jornalista, trabalhando no jornal The Sunday Times, de Londres. 

Foi editor da revista Time, presidente e CEO da rede de televisão CNN e presidente e CEO do Aspen Institute, organização internacional dedicada a promover uma sociedade mais livre, justa e equitativa. Atualmente é professor de história na Tulane University e sócio-consultor da Perella Weinberg, uma empresa de serviços financeiros com sede em Nova York.

Desde 1986, quando lançou com o escritor Evan Thomas o livro The Wise Men — sobre um grupo de funcionários do governo dos Estados Unidos com atuação importante na política externa do país —, Isaacson dedica-se a traçar retratos detalhados de algumas das personalidades mais brilhantes e influentes da história, em biografias que invariavelmente chegam às listas de mais vendidos.

Suas obras podem ser consideradas uma longa história da inovação humana ao longo dos séculos. Além dos nomes listados na abertura deste artigo, Isaacson escreveu sobre a vida do político Henry Kissinger e sobre os idealizadores do computador e da internet, em Os Inovadores: Como um grupo de hackers, gênios e geeks criou a Revolução Digital.

Em sua mais recente obra, A Decodificadora, Isaacson conta a vida da bioquímica Jennifer Doudna, conhecida por seu trabalho pioneiro na edição de genes, pelo qual recebeu o Prêmio Nobel de Química em 2020. Mais do que a trajetória de Doudna, A Decodificadora é uma biografia do CRISPR (ferramenta revolucionária que tornou possível a edição do DNA) e uma reflexão sobre as delicadas questões éticas trazidas por esta possibilidade. 

Para escrever sobre a cientista e as técnicas empregadas em seu trabalho, Isaacson não se limitou a entrevistar Doudna e as pessoas com quem ela conviveu. No livro, o autor conta que, para aprender o processo de edição de genes humanos, passou um dia inteiro em um laboratório com uma cientista da equipe de Doudna, e recorda seu interesse pela ciência bioquímica na juventude, despertado pela leitura de A dupla hélice, de James Watson. 

“Ler o livro me fez, como no caso de Doudna, querer me tornar bioquímico. Diferentemente dela, segui outro caminho. Mas, se tivesse que fazer tudo de novo — e aqui prestem atenção, estudantes que estejam lendo —, teria me concentrado muito mais nas ciências da vida, especialmente se estivesse chegando à vida adulta no século XXI”, escreve Isaacson.

É possível encontrar semelhanças entre Isaacson e outros de seus biografados. Em um artigo para o jornal The Wall Street, ele fala sobre a habilidade de Leonardo da Vinci para combinar arte e ciência em obras como o “Homem Vitruviano”. Mas a mesma qualidade também pode ser vista no escritor: capaz de reunir harmonicamente história, ciência e literatura nas suas biografias. 

Em seus livros e em entrevistas à imprensa, Isaacson não esconde a admiração que sente por seus biografados, nos quais identifica um traço comum fundamental para alcançarem feitos extraordinários: “O melhor conselho que aprendi com Leonardo da Vinci é o poder da curiosidade pura. Todos podemos ser mais curiosos. Todos já fomos mais curiosos quando crianças, e o segredo de homens como Einstein e Da Vinci é que eles nunca superaram essa fase da curiosidade em suas vidas.”

Leonardo da Vinci é para mim o ápice da tentativa de escrever sobre a criatividade que surge da valorização das conexões entre artes, ciências e humanidades. Todos nós temos algo a aprender com ele sobre como levar uma vida mais criativa e intelectualmente satisfatória”, diz Isaacson. 

Em Steve Jobs, Isaacson enxergou o talento para conectar diferentes áreas em sua busca por inovação, comparando-o a Walt Disney e Pablo Picasso: “Tento ver cada pessoa sobre quem escrevo na diversidade de seus múltiplos interesses. É preciso um verdadeiro gênio para unir arte, emoção e tecnologia”, define o autor.   

E no A Decodificadora explica que, “assim como Leonardo da Vinci, o trabalho de Doudna também exemplifica como a chave para a inovação é conectar a curiosidade em relação à ciência básica e o trabalho prático de inventar ferramentas aplicáveis na vida real: levar as descobertas dos laboratórios para dentro de casa”.

“Como jornalista e historiador, aprendi que há muitas pessoas inteligentes no mundo, e com o tempo você percebe que o mais importante é as pessoas serem inovadoras, capazes de dar um salto de criatividade em um determinado assunto. Steve Jobs, Leonardo da Vinci, Benjamin Franklin e Albert Einstein não necessariamente eram os mais inteligentes em seus círculos, mas certamente eram os mais criativos.”

Para aqueles que veem neste homem — capaz de contar de forma tão envolvente as vidas de pessoas extraordinárias — alguém digno de uma biografia própria, Walter Isaacson alerta: “Aqueles de nós que escrevem sobre pessoas notáveis não devem cair na presunção de que também estamos sob holofotes e merecemos ter nossas histórias de vida escritas”.

 

Vanessa Corrêa é jornalista e apaixonada por livros, cinema e fotografia. 

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