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Respire: A nova ciência de uma arte perdida

7 / abril / 2021

Por João Lourenço*

Sim, este é mais um artigo que diz que você está fazendo algo errado: asma, alergias, ansiedade, apneia do sono e vários outros problemas de saúde podem ser evitados se você aprender a respirar. Mas, desta vez, a solução é simples e não custa nada. Em Respire: A Nova Ciência de Uma Arte Perdida, o jornalista James Nestor apresenta a evolução biológica e cultural da respiração e defende que respirar corretamente melhora nossa saúde física, emocional e sexual. 

O interesse pelo assunto surgiu quando Nestor passava por um período de forte ansiedade e sem perspectiva de mudança. Seu médico recomendou que procurasse por uma aula de respiração. Além de fortalecer os pulmões, essa seria uma opção para acalmar a mente agitada do jornalista. Logo na primeira aula, Nestor atingiu uma tranquilidade que não experimentava havia anos e percebeu que esse era um assunto a ser explorado — afinal, todos respiram, mas poucos sabem respirar. 

A pesquisa de Nestor começou de maneira informal. Colaborador de revistas como The Atlantic e Scientific American, ele viajou para a Grécia para escrever um artigo sobre mergulho livre. Lá, conheceu mergulhadores que permaneciam até 12 minutos debaixo d’água, sem auxílio de equipamentos. A curiosidade do jornalista aumentou. Ele queria entender como era possível ficar sem respirar por tanto tempo. E foi assim que Nestor entrou no mundo dos “pulmonautas”. 

 

Pulmonautas


As pesquisas relatadas no livro vão além de estudos feitos em universidades e centros de referência. Respire se concentra principalmente nas técnicas e ensinamentos dos “pulmonautas” — denominação cunhada pelo autor para se referir a pessoas que utilizavam a respiração para ajudá-las em suas profissões: cirurgiões da época da Guerra Civil, treinadores de natação, místicos indianos, cantores de ópera. São técnicas e ensinamentos que foram comprovadas cientificamente faz pouco tempo.

 

Descobertas

Entre as descobertas do autor, vale citar a respiração rápida provocada por ansiedade ou medo. É instintivo. Nessas situações, você respira o máximo que consegue para aliviar a tensão. A longo prazo, porém, essa respiração rápida causa ainda mais estresse e cansaço. Isso ocorre porque, ao respirar rápido, o sistema nervoso simpático é estimulado. Mas a mudança é simples. Basta respirar lentamente. A respiração lenta está associada ao relaxamento, pois, ao permitir maior entrada de ar nos pulmões, o corpo imediatamente entra em um estado de tranquilidade. 

 

Desevolução

Darwin estava errado. Quando se trata de respiração, o ser humano regrediu. Das 5.400 espécies de mamíferos, somos os únicos a ter dentes e mandíbulas desalinhados, além de mordida cruzada. Nestor entrevistou um dentista pediátrico de Chicago que passou os últimos quatro anos radiografando crânios. A pesquisa revelou que crânios antigos tinham mandíbulas enormes e viradas para a frente. Assim, crânio e boca grandes resultam em vias aéreas maiores. E provavelmente seus donos não chegaram a sofrer com problemas de respiração crônica, afinal, as vias áreas eram grandes demais para que qualquer coisa as obstruísse. A conclusão do estudo é que nem sempre evolução significa progresso. 

Hoje, em vez de evoluir de acordo com a sobrevivência do mais apto, estamos em um processo chamado de “desevolução”. Além disso, somos responsáveis por causar um efeito parecido em cachorros domésticos. Muitas vezes, por motivos estéticos ou comerciais, esses animais são submetidos a inúmeros cruzamentos. Pense no pug ou no bulldog francês. O focinho curto e achatado e as narinas pequenas dificultam a respiração do animal. Por isso, assim como nós, eles sofrem de problemas respiratórios — digo isso por experiência própria, meu cachorro ronca mais do que eu. 

 

Visão Ayurveda

Em Respire, o autor aborda muitas visões antigas do Oriente, que estão cada vez mais incorporadas no Ocidente. A respiração é um dos pilares da cultura milenar do Ayurveda (do sânscrito: ciência da vida). A terapeuta ayurvédica Rislene Rissi notou um aumento significativo pela procura de técnicas védicas nos últimos anos. “A procura aumentou muito após a pandemia. É como se todo mundo tivesse encontrado tempo para prestar atenção em coisas básicas, como respirar”, conta. 

Em Respire, Nestor conta que as emoções afetam os padrões respiratórios. Ou seja, cada emoção é responsável por um padrão respiratório diferente. “Os padrões de respiração funcionam como um elo de comunicação entre o corpo e as emoções. Então, podemos utilizar as técnicas de respiração a fins terapêuticos para trabalhar questões e órgãos específicos”, explica Rissi. 

Apesar de atender um público diverso, as queixas mais comuns no consultório de Rissi são agitação mental e ansiedade. “Dependendo da variação de respiração, o nosso corpo passa a funcionar em uma frequência diferente”, explica. Tudo que é demais é ruim. Até respirar demais é ruim. Assim, as técnicas de respiração, também conhecidas como Pranayamas, servem para encontrar um equilíbrio nos padrões nocivos. “As respirações que demandam muito oxigênio envelhecem o corpo mais rápido. Uma boa respiração é tão importante na rotina de autocuidado quanto qualquer sérum rejuvenescedor. E melhor: não custa nada!” Há técnicas para tudo: resfriar ou esquentar o corpo, acalmar a mente, melhorar capacidade digestiva, aumentar a libido. “Independente do problema, o básico é praticar a respiração consciente. Manter a boca fechada. Inspirar e expirar pelo nariz, praticar a respiração abdominal”, ensina Rissi. 

 

Marketing do sono 

Como já era de se esperar, a respiração agora é vendida como artigo de luxo. São inúmeros os programas de meditação, vitaminas, fitas adesivas, entre outros, que prometem regular a respiração. Apesar de não ser um guia marcado por passo a passo, o livro de James Nestor oferece dicas valiosas para quem está disposto a se reprogramar. O autor afirma que a respiração faz parte de quem somos, é gratuita e que não deveria ser explorada pela indústria farmacêutica. O autor sugere uma retomada para tempos mais simples, para uma arte perdida, para aquilo que esquecemos. 

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

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