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Jerry Seinfeld é o maior gênio vivo da comédia e eu posso provar

29 / abril / 2021

Por Gabriel Trigueiro*

(George Lange/NBCU Photo Bank)

Segundo Christopher Hitchens, todo o fundamento do humor judaico e do seu sentido particular de ironia começou quando Maimônides assentiu que o Messias um dia virá, embora “talvez ele se atrase”. Para Hitchens, o humor judaico é uma tradição de humor encapsulada naquele dar de ombros “meio esperançoso, meio pessimista”, presente em gente como Lenny Bruce e Woody Allen. Com Jerry Seinfeld não é diferente.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer o óbvio: a grande obra-prima de Seinfeld é a sua série homônima, cocriada com outro gênio, Larry David. Sua estreia foi em 1989 e os efeitos revolucionários na TV norte-americana ainda não foram exaustivamente mensurados. Se “revolucionários” a princípio pode soar como uma hipérbole, a gente pode aproveitar e examinar mais de perto alguns pontos em que Seinfeld foi, e ainda é, uma série divisora de águas.

Até Seinfeld, a estrutura narrativa de um episódio regular de uma sitcom era mais ou menos a seguinte: havia duas histórias, X e Y, além de uma piada principal e recorrente, que atravessava o episódio meio que do início ao fim. Essa piada também funcionava como elemento narrativo, porque contava pelo menos um fiapo da história. Seinfeld acabou com isso, porque apresentava cada episódio com sei lá quantas storylines diferentes e autônomas, mas que se encaixavam feito peças de um quebra-cabeça intrincado. Isso fica claro por exemplo em um episódio como “The Contest” (décimo primeiro episódio da quarta temporada), no qual os quatro personagens principais (Seinfeld, George, Kramer e Elaine) apostam para ver quem consegue ficar mais tempo sem se masturbar: cada personagem tem uma storyline com um desenvolvimento próprio, particular. No fim do episódio, as quatro storylines convergem para um final cômico que é maior do que a soma das partes.

Além de ser conhecido como “um show sobre nada”, Seinfeld já foi definido pelo próprio Jerry como um programa em que não há “a hora do abraço”. Nesse sentido, é irônico pensar que uma série excessivamente americana — ou melhor, excessivamente nova-iorquina — também tivesse uma sensibilidade análoga à de certos diretores na nouvelle vague europeia. O cinema de Antonioni e Truffaut, por exemplo, sempre focou em coisas pequenas, mundanas, comezinhas mesmo. Em um humanismo e uma sensibilidade do homem comum. Tanto Antonioni como Truffaut já foram acusados, talvez inadequadamente, de niilistas morais. Não é porque a linguagem adotada em Seinfeld é a da comédia, e não a de um drama mais ou menos sisudo europeu, que não dá para observar as mesmas coisas. Ou talvez a melhor analogia seja com outro nova-iorquino: John Cassavetes. É isso, Seinfeld é o Cassavetes da comédia norte-americana.

Seinfeld representou mais um ponto de inflexão formal na linguagem clássica das sitcoms americanas quando foi, aos poucos, mudando de uma sitcom multicâmera padrão (método normalmente feito com quatro câmeras fixas, dando a impressão de uma peça filmada) para uma série que preferencialmente se valia da técnica de câmera única, muito mais afim ao cinema, por exemplo. Seinfeld foi tão revolucionária quanto Twin Peaks e The Sopranos, mas infelizmente é incomum que seja citada ao lado dessas duas, no mesmo fôlego.

 

A carta de amor mais bonita e engraçada já escrita para a comédia

(NETFLIX/Divulgação)

Além de Seinfeld, outro projeto de importância imensa é o Comedians in Cars Getting Coffee, iniciado como websérie e posteriormente comprado pela Netflix. No momento já está na décima primeira temporada, e consiste em passeios de carro e cafés de Jerry com comediantes que ele admira: gente nova e gente da velha guarda. Muitos nomes importantes já passaram por lá: Eddie Murphy, Sarah Silverman, Ricky Gervais, David Letterman, Chris Rock, Louis C.K., Tina Fey, Steve Martin e Dave Chappelle.

Comedians in Cars é um programa essencialmente metalinguístico: são comediantes conversando sobre o ofício da comédia, e essa é a graça. Em um dos melhores episódios (nono episódio da primeira temporada), assistimos a Mel Brooks comendo pastrami na casa de Carl Reiner, e ambos contando piadas antigas, “causos” de Hollywood etc. etc. Em outro excelente episódio (décimo segundo episódio da décima temporada), Seinfeld visita Jerry Lewis para uma longa conversa sobre a sua carreira e os fundamentos da comédia. Lewis faleceu poucos dias depois da entrevista.

É um episódio muito bonito, porque nele vemos Seinfeld, normalmente cínico e blasé, se comportar como um fanboy, cheio de brilho nos olhos por estar conversando com o seu ídolo. Seinfeld, antes de ser um comediante, é um nerd de comédia. Sabe tudo e mais um pouco do riscado. Conhece com minúcias a filmografia do seu entrevistado, melhor até do que o próprio Lewis. Quando assisti a esse episódio, só fiquei pensando como seria lindo um livro que funcionasse como uma antologia de entrevistas do Jerry Lewis, feitas pelo Seinfeld. Dava fácil para publicar algo equivalente ao clássico Hitchcock/Truffaut: um Lewis/Seinfeld, quem sabe.

Muito embora Seinfeld tenha sido influenciado por comediantes radicais e iconoclastas como Andy Kaufman e Richard Pryor, além de ter sido desde cedo um leitor atento da revista Mad, e de suas subversões e escatologias, sua comédia sempre foi limpinha e tão apolítica quanto possível. Mesmo fazendo esse tipo de comédia absolutamente bem-comportada, Seinfeld não deixa passar uma oportunidade de cutucar o tal do “politicamente correto”. Ainda que ao longo de sua trajetória ele jamais tenha sido perseguido por quem quer que fosse, sofrido qualquer censura ou interdição de qualquer natureza. Às vezes essas reclamações soam mais como elementos que compõem a sua persona de comediante rabugento, à la Don Rickles — um de seus ídolos e maiores inspirações, a propósito. Jerry Seinfeld sempre foi um esteta e um formalista. Sua comédia às vezes é quase parnasiana, e tem mais em comum com o rigor de um poeta do que com a de boa parte de seus pares de geração. Um exercício interessante é ler a sua antologia de piadas, organizadas por faixas cronológicas, Será que isso presta?, publicada agora no Brasil pela Intrínseca e traduzida por Jaime Biaggio.

Seinfeld é alguém que escreve admiravelmente bem, embora esse ponto específico não seja lá muito comentado. Mas poucas pessoas conseguiriam escrever piadas com um rigor formal tão obsessivo: nada lá é à toa, a metrificação, o ritmo, as punchlines e os jogos de palavras. Suas piadas às vezes têm um nível de precisão formal semelhante ao de uma equação matemática. Obviamente, semelhante ao de uma equação matemática engraçada, você entendeu.

Por exemplo, na piada “Break-in”: “Breaking News: We have no interest in anything that happened today. We want breaking. Break-in, that’s breaking right now. ‘I’m sorry to break-in, but we have a breaking story (…)”, e por aí vai. O nome desse negócio aí que ele faz, em português, é paronomásia: um jogo de palavras parônimas (palavras com o som e a escrita semelhantes, mas com significados distintos). É o tipo de piada clássica seinfeldiana: tem graça menos pelo que está sendo contado e muito mais pela sua forma e encadeamento. Repare na musicalidade e no ritmo. Repito, é quase poesia.

 

Jerry Seinfeld: um pouco de comédia, um pouco de poesia

Apesar de ser um formalista quase anacrônico, Jerry Seinfeld é fruto da revolução no stand-up feita pela turma de comediantes dos anos 1960: a galera que escrevia o seu próprio material e dispensava, diferentemente da geração anterior, gente como Bob Hope e Jack Benny, roteiristas e ghostwriters. Surgido nos palcos na década de 1970, Seinfeld se filia à tradição de comédia autoral inaugurada poucos anos antes. Revolucionou a comédia com o seu programa televisivo, Seinfeld, e revolucionou a comédia uma segunda vez, mostrando agora as suas engrenagens e mecanismos secretos, com Comedians in Cars Getting Coffee.

Como ele mesmo escreveu em Será que isso presta?: “A razão de ser do stand-up é a busca de um momento fugaz de conexão humana. Como quando surfistas se sentam na prancha e esperam por mais uma onda.” É uma imagem muito bonita e à altura do que a sua comédia tem nos proporcionado há mais de quarenta anos. Que venham mais quarenta.

 

*Gabriel Trigueiro é doutor em História Comparada pela UFRJ e especialista em teoria política e crítica cultural. Escreve sobre política brasileira, política internacional e cultura.


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