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A cor das palavras, por Sueli Monteiro

15 / abril / 2021

*Por Sueli Monteiro

*Este artigo foi publicado primeiro na revista intrínsecos 030, disponibilizada exclusivamente para os assinantes do clube intrínsecos de março. 

 

Até onde é possível apagar uma parte de si para escrever um novo futuro? Em A metade perdida, aguardado novo romance de Brit Bennett, acompanhamos a saga de Desiree e Stella — irmãs gêmeas antes inseparáveis —, que seguem para pontos muito distantes em uma sociedade racista: enquanto uma se casa com um homem negro e é obrigada a retornar ao lugar de onde escapou anos antes, a outra se passa por branca, e o marido branco não faz ideia de seu passado. 

A história sobre identidade e colorismo chega às livrarias brasileiras a partir de 11 de maio, mas o livro foi enviado em março com exclusividade para os assinantes do intrínsecos, clube da Intrínseca. Em março, convidamos a mestra em literatura Sueli Monteiro para um artigo sobre como a linguagem foi usada como ferramenta de opressão racial. Confira o texto: 

 

Em A metade perdida, Brit Bennett optou por carregar sua história com termos que hoje consideramos ultrapassados, incompatíveis com o entendimento contemporâneo de identidade racial, porém em consonância com o modo de falar do americano sulista das décadas de 1950 a 1990. Qualquer incômodo que isso lhe cause, saiba que sua reação é simbólica do quanto a sociedade já avançou positivamente na reflexão sobre o uso da linguagem como instrumento discriminatório e de reafirmação de poder.

Uma pesquisa feita em 2020 pelo Instituto Locomotiva para medir a percepção do brasileiro em relação ao racismo e ao preconceito de raça no país revelou que quase sessenta por cento dos entrevistados acham chata a patrulha do politicamente correto, onde se inclui justamente a repressão ao uso de termos tipicamente racistas, até então comuns no cotidiano. 

Em português, expressões como “da cor do pecado”, “criado-mudo”, “doméstica” ou “meia-tigela”, entre diversas outras comumente reproduzidas, têm origem na escravidão e, portanto, ajudam a perpetuar conceitos e pensamentos daquela época, ainda que de forma inconsciente. O mesmo acontece com expressões em inglês, como white lie (mentira branca) e blacklist (lista negra), ou até termos técnicos, como master server (o servidor principal, em TI) e slave server (o secundário). Também em espanhol, como a alcunha negro literario para designar um ghostwriter, numa alusão direta a quem trabalha sem mérito. Não são xingamentos explícitos, mas são a expressão de uma herança manchada pela exploração do povo preto.

Como registra o historiador americano Anthony T. Browder, os portugueses inauguraram o tráfico negreiro da África para as Américas e, nesse movimento, foram também os primeiros a cunhar o termo “negros” para se referir aos africanos escravizados. Os espanhóis entraram no negócio e também usaram a palavra “negro” para descrever os africanos feitos escravos. A palavra rapidamente tornou-se, na Europa, sinônimo de escravizados (no Brasil, passou a abarcar também os nativos indígenas forçados a trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, chamados “negros da terra”). A palavra slave, “escravo” em inglês, raramente é notada nos documentos oficiais americanos relacionados ao período da escravidão, em contraposição à quase oficial negroes, de onde advém nigger, termo que hoje é devidamente notado nos dicionários com um alerta de impropriedade. Esta é a bagagem carregada de opressão que deve ser extinguida do vocabulário atual.

Há quem veja tons de exagero no banimento de termos como “denegrir” ou “esclarecer”, recorrendo a outras referências que não as raciais, buscando alternativas etimológicas que desmintam o factual, mas a verdade é que moldamos e somos moldados pela linguagem. Em pesquisa da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, conduzida pela psicóloga Ângela Fátima Soligo, pediu-se a voluntários que atribuíssem livremente dez adjetivos a pessoas negras. Apesar de elencarem qualidades positivas, a maioria dos participantes as justificou utilizando-se de estereótipos estruturais, como o do negro feliz por causa do samba, forte por causa do trabalho pesado. Mesmo os entrevistados pretos não atribuíram a seus pares riqueza, beleza ou carreiras comuns aos brancos. Uma realidade que pode ser reconstruída a partir de novas palavras, que repararão o passado e indicarão um novo futuro. Só depende de nós.

Este texto foi publicado originalmente na revista intrínsecos, que todo mês reúne artistas, jornalistas, escritores e outros especialistas de diferentes áreas para propor debates que passam pelas temáticas do livro, mas que abrem caminhos para reflexões sobre todo o universo literário e sobre o nosso comportamento. 

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*Sueli Monteiro é mestra em literatura africana pela Universidade de Witwatersrand, na África do Sul.

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