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Sobre o Japão, a Coreia e a cultura pop

21 / janeiro / 2021

Por Pablo Miyazawa*

O encantamento pela cultura pop japonesa perdura há décadas no imaginário mundial — em especial, no brasileiro. Esse deslumbre apaixonado talvez esteja ligado ao fato de o Brasil ostentar a maior comunidade nipônica fora do Japão, ao mesmo tempo em que o país asiático continua a abrigar uma considerável quantidade de imigrantes brasileiros.

Quando se trata de exportar conceitos para o restante do mundo, talvez nenhum país tenha gerado símbolos tão reconhecíveis quanto o Japão. Antigamente, esses ícones exaltavam valores como tradição, lirismo e elegância, na forma de belezas naturais (o Monte Fuji, as carpas, as cerejeiras), personagens míticos (as gueixas, os samurais, os ninjas, os xoguns), artes marciais (o karatê, o judô, o sumô) e manuais (o origami, o ikebana, o ukiyo-e).

Movido pela humilhação de estar do lado derrotado ao fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão deu início a um ambicioso projeto de ressurreição global, que incluiu a expansão de uma influência calcada em qualidades como eficiência, perseverança e credibilidade. Para tanto, vale-se da capacidade produtiva de suas inúmeras empresas com nomes salpicados de vogais, para as quais o Brasil há anos tem sido um território amigável. Ficamos acostumados a conviver com os logotipos de fabricantes de eletrônicos como Sony, Panasonic, Toshiba, Nikon, Mitsubishi, Sanyo, Fuji, Canon e Casio; de empresas automotivas como Honda, Suzuki, Kawasaki, Toyota e Nissan; e de alimentícias como Yakult, Nissin e Ajinomoto. E, claro, é impossível não citar o mercado de videogames liderado pela centenária Nintendo, que desde os anos 1980 viu a imagem do Super Mario representar o Japão com mais alcance do que a bandeira do Sol Nascente.

E havia a televisão, uma plataforma das mais eficientes para propagar ideias geradas do outro lado do planeta. O público brasileiro sempre foi fascinado por esse Japão exótico visto através das lentes da fantasia — mesmo que esses produtos não fossem exatamente “atuais” na época em que os assistimos. Primeiro, foram os seriados live-action (os chamados tokusatsu), como Godzilla, National Kid, Robô Gigante, Ultraman, Ultraseven, Spectreman e, mais tarde, Changeman, Jaspion, Jiraiya e Jiban. Paralelamente, havia os desenhos animados (animes) como Sawamu, Speed Racer, A Princesa e o Cavaleiro, O Menino Biônico, Don Drácula e Doraemon; e, para a geração seguinte, Os Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Dragon Ball Z, Hello Kitty e Pokémon, entre tantas outras obras geradoras de infinitas peças de merchandising de apelo irresistível.

Isso sem contar os mangás, quadrinhos que devem ser lidos ao contrário (folheando as páginas da esquerda para a direita), com uma linguagem narrativa ousada, distinta da do Ocidente; as guloseimas, empacotadas em embalagens de formas e cores tão saborosas e peculiares quanto os próprios doces; os objetos de desejo portáteis, na forma de traquitanas eletrônicas como o Walkman, o Discman e o Game Boy; e atividades sociais, como o karaokê, o cosplay e a gastronomia. Com uma indústria criativa incansável e movida a novidades, perfeita para exportação, o Japão sempre foi sinônimo de modernidade, vanguarda e ousadia. É contraditório, portanto, que certos costumes e (pre)conceitos centenários ainda persistam e pesem tão fortemente sobre sua sociedade.

É por isso que a trama contida em Pachinko pode ter o impacto de um soco no estômago para os fãs do japanese way of life, ainda que não seja essa a intenção aparente da escritora sul-coreana Min Jin Lee. A obra relata em detalhes a saga fictícia de uma família expatriada de coreanos ao longo do século XX. Não por coincidência, a história tem início em 1910, o ano da polêmica ocupação japonesa da Coreia, fato que deixou marcas profundas nas sempre estremecidas relações entre os países e seus habitantes. O ponto de vista é exclusivamente o dos estrangeiros forçados a se adaptar a um cotidiano opressor, subjugados a situações frequentes de preconceito, alienação e injustiça, algumas das quais perduram até hoje, de uma forma ou de outra.

Como descendente de um imigrante vindo do Japão, foi impossível não sentir certo incômodo ao percorrer as centenas de páginas de Pachinko, sentindo um misto de vergonha, incredulidade, culpa e outras emoções indefinidas. Quando criança, fui alertado a ter certa reserva e até cuidado diante de coreanos. “Eles não gostam de japoneses” foi algo que sempre ouvi dos parentes mais velhos. Se tive a sorte de não ter percebido essas razões na prática, o instigante épico costurado habilmente por Min Jin Lee deixou tudo mais evidente.

O pachinko que dá o título ao livro serve de fio condutor da jornada de oito décadas e quatro gerações de uma mesma família. Trata-se de uma modalidade de jogo de azar para adultos semelhante a um pinball, que, mesmo enraizada na cultura japonesa há quase um século, jamais perdeu o estigma de estar relacionada a maus hábitos, vícios e criminalidade. Os salões onde até hoje o pachinko é praticado costumavam representar uma boa (e rara) oportunidade profissional para coreanos que tentavam progredir no Japão, o que apenas colaborou para aumentar a péssima reputação da atividade — além do fato nada favorável de muitas dessas estruturas serem controladas por membros da máfia yakuza.

Se a cultura pop pode ser utilizada como medida justa, é correto (e, por que não, satisfatório) notar que a Coreia tem ocupado com diligência um espaço confortável que sempre pertenceu ao Japão. Não é preciso ir longe para comprovar que a parte Sul deste país ainda dividido é o berço atual de alguns dos mais bem-sucedidos produtos para a cultura jovem absorvidos pelo mundo, em um nível de influência que aos poucos vai superando os limites da indústria do entretenimento. O apelo do Japão permanece, ainda que não mais surpreenda como antes. Renegada por muito tempo ao segundo escalão dos países asiáticos, a Coreia do Sul de agora é muito mais pop.

O recente sucesso do filme Parasita, do diretor Bong Joon-Ho, é apenas uma amostra consagrada da riqueza do audiovisual sul-coreano, apinhado de obras variadas e esteticamente impressionantes como Oldboy, A Criada, O Hospedeiro e Invasão Zumbi. Novelas do tipo doramas encantam da mesma forma que os animes japoneses, assim como a onipresença brutal do K-Pop superou os lampejos do J-Pop de anos antes (e como esquecer o sucesso absurdo do “Gangnam Style” de Psy, no longínquo ano de 2012?). É fácil exaltar também essa eficiente presença nos concorridos segmentos da moda, cosméticos, eletroeletrônicos e automotivo, além do domínio no universo dos games competitivos e na popularização de iguarias como o kimchi, o bulgogi, o bibimbap e o soju.

Tantos exemplos notáveis são frutos de uma feliz combinação de fatores econômicos, políticos e sociais, além de uma muito bem-sucedida estratégia de soft power semelhante à promovida pelo Japão décadas antes — ainda que melhor calculada, com apoio governamental no financiamento de obras artísticas e foco obsessivo no acesso da população à educação e tecnologia de ponta. Apostar na cultura e no entretenimento como moeda diplomática, quem diria, funcionou muito bem.

E como é de se esperar, Pachinko em breve se tornará uma ambiciosa série de TV com foco no mercado ocidental. Pacientemente, do seu jeitinho, assim como quem não quer nada, a Coreia do Sul vai conquistando o mundo.  

 

* Pablo Miyazawa é escritor e jornalista especializado em cultura pop, com passagens por Rolling Stone, IGN, Herói e NIntendo World.

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