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Sexo e censura, por Pilar Quintana

22 / janeiro / 2021

Tradução de Elisa Menezes

Meu livro de contos Caperucita se come al lobo (Chapeuzinho come o lobo) foi publicado pela primeira vez em 2012 pela Cuneta, uma editora independente do Chile. Dois anos depois, meu editor me informou que o Ministério da Educação de seu país havia comprado trezentos exemplares para distribuí-los a escolas públicas. “O Ministério da Educação?”, perguntei admirada, pois não é um livro para crianças em idade escolar. “Sim”, disse ele, “eu também achei estranho.” Bem, pensamos os dois, o Ministério deve ter suas razões.

Um ano se passou. Uma manhã meu editor me enviou um print do site biobiochile, que, segundo eles mesmos, é a maior rede de notícias do país. “Crianças do ensino fundamental receberam livro com conteúdo pornográfico do Mineduc”, dizia o título da matéria. Um menino de Río Bueno, um município de trinta mil habitantes, tinha encontrado o livro na biblioteca de sua escola. Começou a lê-lo e o mostrou ao professor. Logo o livro foi entregue ao prefeito e então a notícia foi publicada na internet.

“O livro pode causar danos irreparáveis aos nossos estudantes”, disse o prefeito de Río Bueno, “descrever de forma tão detalhada o estupro de uma menor não ajuda no processo de educação dos jovens.” A notícia deu a volta ao mundo e circulou em todos os idiomas. Como consequência, o Ministério da Educação do Chile retirou o livro
das escolas. O argumento de que ler um livro em que se descreve em detalhes um estupro causaria danos irreparáveis aos estudantes não me convence. O que eu tenho certeza que causa danos irreparáveis aos estudantes é serem vítimas de abusos sexuais.

Em nosso imaginário os estupros acontecem nos parques escuros, no meio da noite, e o estuprador é um sujeito mascarado que ameaça a vítima com uma arma, arranca-lhe a roupa e a subjuga à força. Na realidade, de acordo com as estatísticas, esse tipo de estupro é o menos frequente.

A maior parte dos estupros acontece na casa da vítima, a vítima é uma mulher, em muitos casos menor de idade, e o agressor é uma pessoa próxima, o pai, o avô, o irmão, o tio, o padrasto, o amigo, o namorado, o marido… A maioria dos estupros transita por uma zona ambígua na qual não há violência aparente, o estuprador é um ente querido, uma pessoa de confiança que a vítima, sobretudo se for menor de idade, pensa que quer o seu bem. Um estupro, se considerarmos o ponto de vista da menor vitimada, pode se parecer à sedução e é muito provável que ela, por não ter sido ensinada sobre como acontece a maioria dos estupros, não saiba ou não entenda que está sendo estuprada.

Caperucita se come al lobo não é um livro para crianças em idade escolar, mas, antes de retirá-lo das escolas, de armar um escândalo, de rotulá-lo como livro pornográfico e censurá-lo, poderiam ter aberto um debate sobre sexo e educação, sexo e literatura, sexo e censura. Ele poderia ter sido usado para ensinar às meninas o que é um estupro e de que maneira é mais provável que aconteça.

 

***

 

A primeira forma que a censura assume é a mais explícita. Assim como fizeram com o Marquês de Sade, eles metem você na prisão. Assim como aconteceu com a poeta chilena Teresa Wilms Montt, eles trancam você em um manicômio. Assim como Alexandr Solzhenytsin, você é mandado para o exílio.

Meses antes de publicar Caperucita se come al lobo, fui convidada para uma residência literária em Hong Kong. Os organizadores, tenho certeza, fizeram isso sem ler minha obra. Um ano antes eu havia participado do International Writing Program, outra residência para escritores, antiga e muito prestigiosa, que ocorre na Universidade de Iowa. O pessoal de Hong Kong, depois eu soube, me conheceu por essa residência de Iowa e imagino que o que chamou a sua atenção, além da minha biografia, foi a minha foto. Eu era uma sudaca (termo pejorativo usado para se referir a pessoas da América do Sul), e eles nunca tinham convidado uma. Talvez tenham pensado que eu ficaria bem em seu site ao lado dos chineses, dos gringos e dos indianos. As residências internacionais de escritores gostam que suas páginas se pareçam com anúncios da Benetton.

Aceitei o convite, compraram as passagens, pediram meus trabalhos para traduzi-los para o mandarim e para o cantonês e eu os enviei. Faltando dois dias para a viagem, quando não podiam mais inventar uma desculpa para não me levar, eles me perguntaram se eu não tinha contos mais suaves. Eu havia enviado os mais suaves, porque Hong Kong faz parte da China, um país conservador, e a última coisa que eu queria era escandalizar. Disse a eles a verdade: que não, que os outros contos eram mais fortes.

Quando cheguei não me colocaram na cadeia, mas me disseram sem rodeios que eu não poderia ler meus trabalhos em público e que eles não seriam publicados, pois, cito textualmente, “não são apropriados à cultura chinesa”. Meus colegas de residência tiveram os trabalhos publicados em mandarim e cantonês e iam a eventos aos quais eu não era levada. Como parte da residência, passamos quatro dias na China continental e lá, na entrada de um evento, me puxaram de lado e disseram que não poderia ler meus trabalhos em voz alta como fariam os demais. Já estávamos diante da plateia e não me ocorreu nada a não ser me sentar à mesa. Quando permitiram que eu falasse, disse que havia sido censurada e que por isso não tinha lido meus trabalhos. O público de universitários me olhou impassível e não disse nada.

Esse tipo de censura, o mais direto, faz você se sentir desqualificado. Dói. Indigna. É uma afronta. Mas pelo menos você sabe o que está acontecendo e por quê. Pode dizer aos censores o que pensa deles. Pode escrever isso em um ensaio. Vocês são uns puritanos de merda e eu vou desacreditá-los. A raiva deixa você corajoso e lhe dá presunção para continuar escrevendo.

A segunda forma que a censura assume é silenciosa. Eles ignoram você. Não publicam o seu trabalho. Não convidam você para eventos. Fingem que você não existe. É uma censura terrível e, para mim, pior do que a censura direta, porque você não sabe que está sendo censurado. Você se enche de pensamentos. Eles me odeiam. Odeiam meu trabalho. Ele é ruim. Eu sou ruim. Não vale nada. Eu não valho nada. Esse tipo de censura faz você duvidar de si mesmo e de seu trabalho. O pior de tudo é que a pessoa pode suspeitar que está sendo censurada dessa forma sem nunca ter certeza. Eu, embora não possa garantir, acho que sofri esse tipo de censura em meus primeiros anos como escritora e para sempre ficarei na dúvida se na verdade não fui paranoica ou ressentida.

O terceiro tipo de censura é o pior de todos. Durante os quatro dias em que estive na China não só fui censurada como testemunhei outras formas de censura. Na televisão do hotel pegava CNN. Eu estava assistindo às notícias e, de repente, a tela ficava preta e depois de um tempo o sinal voltava. Pensei que era um defeito. Nada disso. Um de meus
colegas nos contou que era assim que o governo chinês censurava as notícias. Porque “não são apropriadas à cultura chinesa”?…

Durante esses dias na China conhecemos o diretor de uma revista literária. Em um evento lhe perguntei se era censurado e, caso não fosse, como fazia para burlar a censura. “Oh, não”, disse ele por meio de nosso intérprete, “eu nunca sou censurado porque sei o que publicar.” Havia orgulho em suas palavras. Ele estava satisfeito consigo mesmo. Fiquei horrorizada. Esse editor tinha sido tão moldado pela cultura chinesa que carregava o censor dentro de si. Mais do que saber o que publicar, ele sabia o que não publicar. Senti vontade de abraçá-lo e propor que fugíssemos juntos da China.

 

Que me censurem, digo agora, mas livrai-me, oh musa, da autocensura.

 

Antonio Nariño foi preso por traduzir e publicar A declaração dos direitos do homem e do cidadão. Passou dezesseis anos na prisão. Nosso país se chamava então Nova Granada e ainda era uma colônia espanhola que censurava do mesmo modo que a China censura.

Trata-se de censura política. Censura-se aquele que propõe a subversão da ordem estabelecida. Esse é um dos territórios onde mais se exerce a censura: a política. O outro é o sexo, e eu me pergunto se é porque este tem um poder subversivo.

Em Caperucita se come al lobo há contos que descrevem situações violentas, amputações de órgãos, sequestros, surras, de forma tão minuciosa quanto são descritas as cenas de sexo. No entanto, durante o escândalo no Chile, não vi ninguém chamar a atenção para essas passagens terríveis, não vi ninguém dizer que descrever de maneira tão detalhada a violência de uma amputação ou uma surra não ajudava no processo de educação dos jovens.

Chamaram a atenção apenas para as passagens sexuais. Havia pessoas que postavam fotos de certas páginas do livro e destacavam com amarelo fluorescente os trechos sexuais mais gráficos. Enrubesci porque dessa forma elas os tornavam mais notórios e importantes. Enrubesci não pelo conteúdo dos trechos destacados, mas sim por aquelas mentes tão perturbadas pelo sexo. O fato de sublinharem aquelas frases, e não outras, dizia mais sobre eles como leitores do que sobre meu livro, dizia mais sobre suas taras, seus medos e suas perversões do que sobre a natureza dos meus relatos.

Por que o sexo os ofendia e a violência não? Por que é aceitável fazer filmes para crianças em que pessoas se matam e games com brigas e tiroteios, mas com sexo não? Por que o sexo escandaliza e a violência não? Intuo que talvez seja porque o sexo é um espelho no qual as pessoas não querem se ver, um espelho incômodo.

Talvez não queiramos aceitar que a violência acontece em nossas casas? Num dos contos que gerou mais desconforto, o mesmo a que se referiu o prefeito de Río Bueno, descreve-se como um padrasto abusa sexualmente, sem violência aparente, em sua casa, de uma menina de treze anos que não se queixa e é possível que até experimente alguma sensação de prazer no corpo. Talvez prefiramos continuar acreditando que os estupros são coisas alheias que acontecem nos parques escuros?

Em outro dos contos que mais causaram desconforto há sexo oral consensual entre dois adultos. Antes do escândalo no Chile, esse conto tinha sido censurado. A editora de um jornal de Cali quis publicá-lo. Seus chefes não permitiram porque há uma linha que diz “pica rosada e dura”. Uma revista de Buenos Aires aceitou publicá-lo com a condição de
que eu cortasse a parte do boquete. Não, obrigada. Em uma revista peruana ele foi recusado porque poderia me prejudicar. “Me prejudicar?”, perguntei ao editor. “Sim”, ele disse, “as pessoas não sabem diferenciar ficção e realidade, e vão pensar que você fez isso.” E daí? Levante a mão quem nunca fez (ou recebeu) um boquete. A revista peruana publicou, entretanto, o conto que descreve amputações de órgãos e sequestros de pessoas.

Por que esses atos violentos não são ofensivos e uma mulher com tesão pagando um boquete para um homem é? Por que o editor peruano não teve receio que as pessoas se confundissem e pensassem que sou uma mafiosa que tortura e sequestra? Afinal, eu não sou colombiana, e de Cali, onde existiu um cartel?

 

***

Desde que comecei a ter trabalhos publicados, me perguntam se o que faço é literatura feminina. Essa pergunta me incomoda. Nenhum de meus colegas homens é questionado se o que ele faz é literatura masculina. O que os homens fazem é chamado de literatura. O que nós, mulheres, fazemos, por sua vez, é rotulado. Trata-se de literatura feminina, ou seja, um pequeno capítulo dentro da enciclopédia que se chama Literatura, com ele maiúsculo, que é o que os homens fazem.

O mesmo acontece com os escritores que por acaso são gays. Eles fazem literatura gay. E os escritores negros, literatura afro. Quando uma mulher escreve sobre sexo recebe mais um rótulo sobre o rótulo de literatura feminina. Ela faz literatura erótica.

Bret Easton Ellis, que é homem, recheia páginas e mais páginas com sexo. Em seu romance Glamorama há uma transa entre dois homens e uma mulher que se estende por cinco páginas, e ele descreve nos mínimos detalhes os boquetes, as lambidas, as penetrações. Em seus outros livros também há trepadas por toda parte. Nunca vi os jornalistas se referirem a ele como o escritor erótico Bret Easton Ellis. Já li, sim, em seus tempos áureos, que ele era o grande escritor estadunidense.

Antonio García Ángel, escritor da minha geração com uma carreira similar à minha, e que assim como eu nasceu em Cali em 1972, também escreveu sobre sexo. Em seu romance Recursos humanos o personagem principal passa o tempo todo entre os peitos de sua amante ou trepando com ela num motel. Ele também não foi chamado de o escritor hot Antonio García Ángel, nem a sua literatura foi chamada de pornô.

Basta, entretanto, que uma mulher faça um poema, um romance ou um conto em que insinue o desejo para que imediatamente seja rotulada.

Esses rótulos são uma forma de discriminação, de invalidar seu trabalho, de separá-lo da verdadeira Literatura, que é feita pelos homens (os homens heterossexuais brancos). A outra, a literatura dos gays, dos negros, das mulheres e das mulheres que gostam de sexo, é acessória. Essa é a quarta forma que a censura assume.

Existe uma quinta forma de censura, e sobre isso serei breve aqui. “Ah, claro, é que ela escreve sobre esses assuntos porque quer escandalizar.” Disseram isso sobre mim muitas vezes. Na primeira resenha do meu primeiro livro publicado, em outras que vieram depois, nos artigos a respeito do que aconteceu no Chile, em eventos públicos, sem fundamento. Foi o que a minha mãe me disse, com raiva, ao ler um dos meus trabalhos.

A essa forma de censura quero responder com uma pergunta. Será que uma mulher escreve sobre determinados temas porque são os que a perturbam, assim como acontece com Borges e os labirintos e espelhos?

 

Pilar Quintana é escritora e roteirista colombiana, autora de A cachorra. Foi selecionada em 2007 pelo Hay Festival, no País de Gales, como um dos 39 escritores com até 39 anos de maior relevância da América Latina e participou da edição virtual da Festa Literária Internacional de Paraty em 2020.

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