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Francisco, o papa dos pobres

8 / janeiro / 2021

Bergoglio em 2009, quatro anos antes de se tornar papa, no exterior da igreja de San Cayetano em Buenos Aires. Foto: AP Photo/Natacha Pisarenko, File (via FarodiRoma)

Desde antes de ser eleito Papa, Jorge Mario Bergoglio dedicava grande parte de seu sacerdócio à população mais necessitada da Argentina e chamava a atenção da imprensa mundial para a tragédia provocada pela desigualdade social. Durante mais de 20 anos, Bergoglio pregou em locais que muitos sacerdotes temiam visitar e apoiou pessoas à margem da sociedade, sempre convicto de que os movimentos populares fazem a diferença.

“Ele ia a lugares onde ninguém queria estar, porque ninguém gosta de estar ao lado das drogas, dos meninos que as consomem ou vendo as pessoas morrerem”, relembra o padre Eduardo Drabble, em entrevista ao Terra.

Constantemente comparado a Carlos Mugica, padre que participou das lutas populares da Argentina nas décadas de 1960 e 1970 e foi assassinado durante a ditadura, Jorge Bergoglio era conhecido pelos moradores do centro de Buenos Aires como um dos cura villero, os padres das favelas. “Há quatro anos, estava na pior e precisava de ajuda”, relembra o catador de lixo Cristian Marcelo Reynoso. “Quando a missa começou, ele se ajoelhou e lavou meus pés. Isso me atingiu com força. Foi uma experiência muito bonita.”

Bergoglio realiza a cerimônia de lava-pés durante a Quinta-Feira Santa, em memória ao gesto de Jesus com seus apóstolos antes da Última Ceia em 2007. Foto: EFE / Terra

Em suas celebrações anuais na Plaza Constitución, em Buenos Aires, Papa Francisco encontrava pessoas de todos os tipos, entre elas os cartoneros, homens e meninos que percorrem as ruas à noite em busca de papelão e outros materiais para vender aos recicladores. Em Vamos sonhar juntos, seu novo livro, o pontífice relembra um caso que viveu nas villas miseria, nome dado às favelas ou bairros pobres na Argentina.

“Lembro-me de que, uma noite, vi uma carroça puxada pelo que julguei ser um cavalo, mas, quando me aproximei, percebi que eram dois garotos de menos de 12 anos. As leis municipais haviam proibido o uso de transportes conduzidos por animais, mas, pelo visto, uma criança valia menos do que um cavalo.”

Francisco então se juntou a eles e, vestido com roupas comuns e sem usar a cruz de bispo, viu como trabalhavam e como vivem os que são relegados às sobras da sociedade: “Vi também como algumas elites os identificavam como sobras. Ao andar com eles à noite, pude ver a cidade através de seus olhos e perceber a indiferença com que eram tratados — essa indiferença que se transforma em uma violência silenciosa e educada.”

Como Papa, ele continua acompanhando e encorajando movimentos populares por todo o mundo. Para o líder da Igreja Católica, a saúde de uma sociedade pode ser julgada pela sua periferia. “Abraçar a periferia é ampliar nossos horizontes”, afirma.

Em seus dias como arcebispo, Francisco sempre incentivou os padres a trabalharem em comunidades carentes e, desde o primeiro dia após sua eleição como Papa, insiste que busca “uma Igreja pobre para os pobres”. Não à toa, desde antes do papado, sua busca por simplicidade e humildade é repleta de simbolismos.

Em 1992, ao ser nomeado bispo por João Paulo II, Bergoglio adotou o lema episcopal Miserando atque eligendo, expressão em latim que pode ser traduzida como “Olhou-o com misericórdia e o escolheu”. De acordo com o perfil oficial do Papa, o lema foi inspirado no comentário de São Beda, o Venerável, ao evangelho de São Mateus (Mt 9:9), em que ele escreve: “Vidit ergo lesus publicanum et quia miserando atque eligendo vidit, ait illi Sequere me” (“Viu Jesus um cobrador de impostos e, como o olhou com misericórdia, o escolheu e disse: Segue-me.”).

Seu nome papal é uma homenagem a São Francisco de Assis, em referência à “sua simplicidade e dedicação aos pobres” e motivado pela frase dita por Dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, logo após sua eleição, ainda na Capela Sistina: “Não se esqueça dos pobres.”

Montagem dos tronos dos papas Francisco e Bento XVI. Foto: Franco Origlia/Getty Images/Tony Gentile/AFP/VEJA

Das ruas da Argentina até o Vaticano, Francisco tem encantado fiéis há décadas e promete seguir seu ministério lutando pelos necessitados e desfavorecidos. O livro Vamos sonhar juntos reúne mensagens e reflexões sobre um dos momentos mais difíceis da humanidade: a pandemia de COVID-19. Para o Papa, a pandemia nos lembra que ninguém pode se salvar sozinho e, se tivermos a coragem de mudar, poderemos sair desta crise melhores do que antes.

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