A última partida na minha infância

Por Pedro Gabriel

15 / dezembro / 2020

É imperceptível, mas o calendário da vida sempre reserva aquele dia em que a gente reúne a turma do bairro pela última vez e corre descalço pela vizinhança e sai gritando de porta em porta e toca a campainha de todas as casas em busca de alguma companhia conhecida para completar o time e fazer a bola rolar em qualquer terreno desconhecido.

Os meninos mais velhos – entenda-se, os rapazes com mais de 11 anos – eram os capitães. Eles escolhiam alternadamente os melhores jogadores para os seus times numa emocionante disputa de par ou ímpar. Geralmente, a gente conseguia formar duas ou três equipes – com alguns desfalques em cima da hora, é claro (até a infância tem seus imprevistos). No entanto, a gente se acostumou a jogar incompleto a maioria das vezes. O futebol de rua tem tanta sabedoria quanto um livro. Logo cedo, ele nos ensina que nem toda ausência é uma falta. 

No tempo de menino, todo canto abandonado pode ser chamado de campo. A gente nem precisa de tanto espaço. Basta um lugarzinho onde caiba um número par de amigos para cada lado e um golzinho de chinelo. As traves emborrachadas foram as maiores testemunhas das horas passadas naquele pedaço de chão feito de terra, asfalto, grama ou areia – tanto faz. Nessa idade, a gente não se importa com o tipo de solo, a gente só pensa em fazer a bola rolar na sola dos nossos pés. A gente até se esquece de que o chão existe. 

Criança é ser que flutua.

O nosso verdadeiro estádio era o nosso estado de espírito. Eu não teria sido mais feliz em nenhuma outra arena. Mesmo se eu houvesse tido a chance de jogar uma final de Copa do Mundo no Maracanã lotado. No nosso estádio, quando estávamos tristes, a fabulosa torcida se tornava uma multidão de lágrimas – dessas que são impossíveis de consolar em 90 minutos. Era como jogar futebol no meio de um rio (de janeiro?). No nosso estádio, quando estávamos alegres, a arquibancada imaginária se transformava em uma imensa gargalhada – essa risada espontânea que só se escuta até os doze, treze anos. Depois, tudo é só eco de riso seco. Um silêncio de derrota. 

(fim do primeiro tempo)

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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