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A origem do movimento feminista nos Estados Unidos

26 / novembro / 2020

Para entender a dinâmica atual das lutas e reações ao movimento feminista, podemos voltar às décadas de 1960 e 1970, um dos períodos de maior ebulição política e cultural da história recente. De acordo com a historiadora Jill Lepore em Estas verdades, o movimento das mulheres nos EUA se organizou então em três grupos bem distintos.

Crescido no seio da chamada Nova Esquerda, um ambiente às vezes politicamente hostil a discussões igualitárias de gênero, o feminismo radical partiu da ênfase marxista na economia para logo abarcar também o enfoque cultural. Com um toque performático, levou a ações como as de Shulamith Firestone, do grupo New York Radical Women, que realizou um funeral para a “Feminilidade Tradicional” enterrando um manequim com peruca loira e bobes. As feministas radicais adotavam estratégias e discursos análogos aos do movimento Black Power: o do orgulho e o do separatismo, além de um desprezo profundo pelo liberalismo.

O grupo das feministas liberais se inspirou nas táticas dos movimentos sufragistas, abolicionistas e mesmo dos movimentos pelos direitos civis anteriores à ascensão do Black Power. Elas buscavam a igualdade de direitos, por meio de emendas à Constituição, aprovação de leis, processos judiciais e da disputa de mulheres para cargos eletivos importantes. Como lembra Jill Lepore: “Ruth Bader Ginsburg, uma jovem e brilhante professora de Direito de pais imigrantes judeus” certa vez argumentaria em 1973, se dirigindo a 9 juízes do sexo masculino, e citando a abolicionista Sarah Grimké: “Tudo o que peço aos nossos irmãos é que tirem o pé do nosso pescoço”.

Já o grupo das mulheres conservadoras se organizou como uma reação às feministas radicais e liberais. Entre as ativistas conservadoras, a anticomunista Phyllis Schlafly se dedicou prioritariamente a hastear a bandeira do combate ao aborto e à emenda da igualdade de direitos.

Essa correlação de forças se mantém ainda hoje no discurso público norte-americano, ainda que com algumas variações. Analisar suas origens históricas permite compreender como a tendência ao facciosismo no campo progressista vem de longe e como as bandeiras e pautas conservadoras são as mesmas há décadas.


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