testeA crônica do desassossego

Não foi Fernando Pessoa quem inventou o desassossego, mas é impossível desassociar desassossego do Pessoa, das pessoas. Escrever desassossego me acalma. Sei lá se é a sua sonoridade palavra bonita de se ver, palavra agradável de se ouvir , mas há um exagero que me agrada na sua pronúncia, na sua grafia e até no seu próprio significado. A letra S em demasia presente na sua composição faz com que eu me ausente de mim por alguns instantes. O desassossego é hipnótico.

Não sei se esse excesso de consoante tem alguma explicação terapêutica, mas esse desassossego do qual estou falando tem quase o formato de um divã uma poltroninha esticada em alguma página até então vazia do meu caderno de lembranças (lambanças?). Talvez por isso, a palavra desassossego parece esconder um pedido de socorro o grito camuflado de todos aqueles que precisam de ajuda: 

dessasS.O.Sego. 

Depositar meus olhos sobre esse termo escrito equivale a uma sessão completa de psicanálise. Eu me alongo por cerca de cinquenta minutos nesse desassosseguinho sem encosto feito de espuma e angústia, revestido de couro sintético e algumas palavras artificiais. Afinal, nem tudo o que é dito soa real. A espuma silenciosa traz um leve conforto, como quem tenta me dizer sem o peso de uma sentença que falar não deveria ser tão desconfortável assim. 

Mas é.

A palavra desassossego tem ouvidos e eu me escuto nela com certa frequência. Ela parece conter todas as inquietações de todos os fernandos de todas as pessoas de todas as línguas de todos os tempos de todos os mundos. Ela me faz pensar em um tanto de coisa. Ela me traz e me tira tantas verdades, tantas mentiras… E eu me atiro tantas e tantas vezes para fora desse casulo silencioso. Me projeto no chão, sou meu holograma. Olá, drama! Estou cheio de realidade, de ilusão (desilusão?). Sou um projétil povoado da pólvora de todos os meus sonhos não realizados. 

Outro dia, experimentei tirar todos os S do meu desassossego. Em outras palavras: desossei o desassossego. E o que eu encontrei? Este verso: 

Dê ao ego

Desde então, dou ao meu ego um pouco de agitação. Ele, como quem tenta me salvar do medo, me dá lembranças. E elas têm rosto, têm dor, têm odor e chegam sempre incompletas como se ainda esperassem um pedido de perdão para desaparecerem por completo. Não perdoar é não esquecer. 

Me vem o dia em que eu, sem querer, estiquei a perna e derrubei minha irmã caçula na sala do apartamento em Laranjeiras. Um gesto involuntário que custou algum remorso a mais para mim e dois dentes a menos para ela. Sorte que os dentes dos adolescentes costumam crescer novamente. Eu não saberia mastigar essa culpa. 

Me vem o dia em que mijei nas calças durante uma aula de matemática porque eu fiquei com vergonha de levantar a mão e pedir ao professor para ir ao banheiro. Me senti um cão inútil marcando um território que ninguém precisa conquistar. Talvez por isso até hoje eu odeie matemática. Os números têm cheiro de urina. A última fileira da sala 3B tem cheiro de urina. Uma criança silenciada tem cheiro de urina.

Me vem a imagem do vira-lata de três patas que eu e minhas irmãs encontramos abandonado numa lixeira perto de casa. Nossa ternura foi uma espécie de quarta pata, o apoio que ele precisava para abanar o rabo e latir seu resto de vida com dignidade. O amor às vezes é esse membro invisível. 

Me vem também a última vez que nos vimos. E aquela carta que nunca teve resposta. E o seu nome. Esse nome que não pronuncio há décadas. Seu nome agora não passa de um eco seco no meu esôfago. Me alimentei por um bom tempo das suas ausências. Mas, afinal, quem é você? 

(outro desassossego?)

Fim da sessão. 

testePrimeiro romance de Quentin Tarantino será publicado pela Intrínseca

Em 2021, chega ao Brasil o primeiro romance do cineasta Quentin Tarantino, que irá expandir o universo de Era uma vez em… Hollywood. O livro narra episódios na vida dos personagens Rick Dalton e seu dublê Cliff Booth, interpretados por Leonardo DiCaprio e Brad Pitt no cinema, interagindo com figuras reais e ficcionais da indústria hollywoodiana dos anos 1960, tanto antes quanto depois do recorte temporal do filme.

Indicado a 10 estatuetas do Oscar, Era uma vez em… Hollywood constrói uma narrativa ficcional com um pano de fundo histórico, incluindo o famoso caso de Sharon Tate e Charles Manson. Na trama, Rick e Cliff são profissionais que brilharam durante a era de ouro de Hollywood, mas veem seu sucesso se esvaindo enquanto a indústria se renova cada vez mais. O filme é o mais recente na longa lista de sucessos de Tarantino, responsável também por Pulp Fiction, Cães de Aluguel, Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre.

“Nos anos 1970, adaptações literárias de filmes foram os primeiros livros de adulto que cresci lendo”, disse Tarantino. “Até hoje tenho muito afeto pelo gênero. Então, como um aficionado por novelizações de filmes, fico feliz em anunciar Era uma vez em… Hollywood, minha contribuição para esse subgênero muitas vezes marginalizado, mas muito amado da literatura. Também estou entusiasmado para explorar ainda mais meus personagens e seu mundo em um empreendimento literário que pode (espero) estar à altura de sua contraparte cinematográfica.”

Era uma vez em… Hollywood será lançado no fim do primeiro semestre de 2021 pela Intrínseca.

teste10 doramas na Netflix com personagens sonhadores como a protagonista de Shine, de Jessica Jung

 

Por Talitha Perissé*

Se você ainda não leu Shine: Uma chance de brilhar, não pode deixar de conferir essa história incrível, escrita pela idol Jessica Jung. Rachel Kim é trainee de uma das maiores empresas de entretenimento da Coreia do Sul, a DB Entertainment. No livro, acompanhamos os bastidores da indústria do K-pop, que movimenta bilhões de dólares, e mergulhamos na etapa inicial dessa cadeia: a formação dos idols. Shine trata de muitos assuntos, como pressões sociais, autodescoberta, diferenças culturais, intrigas, romance e amizade, mas sobretudo dos desafios para realizar nossos sonhos. Afinal, Rachel sempre quis se tornar uma idol.

Selecionei dez K-dramas sobre esse tema. Nessas séries coreanas, os personagens lutam bravamente para conquistar seu lugar ao sol. A lista foi elaborada com base nos meus muitos anos de dorameira, usando um método (nada) científico que mistura minha opinião e séries disponíveis na Netflix. Então, se você sentiu falta de algumas produções, é só dar uma olhada nas outras listas que já fizemos aqui no blog da Intrínseca, ou então comenta neste post de que drama você sentiu falta.

 

1 – Apostando alto (Start-Up)

Se você está lendo esse post no futuro, espero que o final de Apostando alto tenha sido incrível. Aliás, sorte sua, porque neste momento EU AINDA NÃO SEI COM QUEM SEO DAL MI DEVE FICAR!

Apostando alto (Start Up) narra a história de Seo Dal Mi, uma jovem que tem o sonho de seguir os passos de Steve Jobs e recebe a oportunidade de concorrer a um projeto na empresa Sandbox. Como toda boa história, há uma trama de amigos de infância, amores de anos, confusões e também muito protagonismo feminino. Bae Suzy está incrível como a inabalável Seo Dal Mi, e tudo que queremos é dar um abraço nela quando a situação fica difícil pra caramba.

Ah, e é claro que a avó maravilhosa da protagonista não poderia ficar de fora (todo poder do mundo às vovós incríveis!). Nosso pobre coração também ficará dividido entre Nam So Dan (Nam Ji Hyuk) e Han Ji Pyung (Kim Seon Ho).

 

2 – Passarela dos sonhos

Passarela dos sonhos tem no título a palavra “sonhos”, então você consegue imaginar que esse K-drama é perfeito para o tema. E É MESMO!

Assim como Rachel Kim, o sonho de Sa Hye Jun (Park Bo Gum, que aparece mais de uma vez na nossa lista) é ser um ator de sucesso. Ele não desiste mesmo quando tudo fica complicado e cheio de desafios, acreditando que com esforço, dedicação e estudo vai alcançar o sucesso. Tamanho entusiasmo contagia Ahn Jung Ha (Park So Dam, a inesquecível Jessica, de Parasita, que também aparece mais de uma vez na nossa lista), sua única fã, uma jovem que também está batalhando pelo sucesso, só que como maquiadora. Quando o caminho dos dois se cruza por acidente, temos a receita infalível para uma história de amor maravilhosa. Passarela dos sonhos nos mostra a importância de ser feliz e de criar uma rede de apoio. Imperdível!

 

3 – Itaewon Class

A vida de Park Sae Roy (Park Seo Joon com seu pior cabelo, mas uma das melhores atuações de sua carreira) muda drasticamente quando seu pai morre e, além disso, ele é expulso da escola quando bate em seu agressor, Jang Geun Won (Ahn Bo Hyun fazendo um excelente trabalho em ser detestável). Então Park Sae Roy decide abrir um bar chamado “DanBam”. Acompanhamos ele e sua equipe se desdobrando para tornar o estabelecimento um grande sucesso enquanto são sabotados várias vezes. Além das atuações impecáveis, o roteiro é brilhante, e somos tocados pelas histórias e sonhos de cada membro da equipe.

 

4 – Hospital Playlist

Hospital Playlist tem doze episódios de emoção, lindas atuações e uma trilha sonora imperdível. Lee Ik Jun, Ahn Jung Won, Kim Jun Wan, Yang Suk Hyung e Chae Song Hwa são cinco amigos que lidam com a tensa rotina de um hospital, dando seu melhor para atender os pacientes e buscando o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Com todos chegando à casa dos quarenta anos, eles estão em um processo de rever suas escolhas e entender quais são seus novos sonhos e objetivos. As histórias dos pacientes são ótimas, mas o que faz a gente ficar colado na tela é ver a importância de sempre termos com quem contar. A amizade deles é incrível, além de render cenas muito fofas com as músicas que eles cantam no final. A segunda temporada já vai começar a ser gravada e promete ser tão maravilhosa quando a primeira.

(Bônus: WOO JU, A CRIANÇA MAIS LINDA QUE ESSE MUNDO JÁ VIU!)

 

5 – Pousando no Amor 

Não se deixe enganar pelo título, Pousando no Amor é ótimo, além de ter dois dos casais mais shippáveis que a dramaland já criou (não vou dizer quais são, porque vale a pena assistir e fazer sua aposta). 

A solitária empresária Yoon Se Ri (Son Ye Ji) sofre um acidente e vai parar na Coreia do Norte. Ela é resgatada pelo capitão Ri Jung Hyuk (Hyun Bin) e acolhida por ele e sua tropa (todos maravilhosos), que lutam para fazer com que ela retorne para a Coreia do Sul em segurança. 

Pousando no Amor é, claro, uma história cheia de romance, mas também sobre os sonhos que deixamos para trás e sobre os novos sonhos que encontramos ao longo da vida. Prepare os lencinhos, porque você vai torcer (e sofrer) por cada um dos personagens.

 

6 – Tudo bem não ser normal (It’s Ok Not to Be Ok)

Tudo bem não ser normal é uma história sobre pessoas sem sonhos. A famosa escritora de livros infantis Koo Moon Yong (Seo Ye Ji irretocável nesse papel) é considerada uma pessoa violenta, difícil, voluntariosa e, por vezes, perigosa. Já Moon Gang Tae (Kim Soo Hyun também irretocável) está acostumado a lidar com a violência no trabalho como cuidador em hospitais psiquiátricos e também com o irmão mais velho Moon Sang Tae (Oh Jung Se com uma atuação que nos leva às lágrimas), que está no espectro autista e, em alguns momentos, é agressivo. 

Desde que a mãe foi assassinada, Sang Tae tem pesadelos que obrigam os irmãos a se mudarem frequentemente. Para se acalmar, Sang Tae sempre carrega os livros de sua autora favorita, Koo Moon Yong. Só que quando o caminho dos três se cruza, a destemida Koo Moon Yong decide que Gang Tae será seu (pois é!).

Gang Tae decide enfrentar o fantasma do passado e retornar à cidade onde a mãe foi assassinada. Lá, ele encontra um refúgio no novo hospital psiquiátrico em que trabalha, dirigido pelo irreverente dr. Oh, e o lugar pode ser uma oportunidade para tratar o trauma do irmão, de modo que finalmente não tenham mais que fugir. Só que Koo Moon Yong decide ir atrás de Gang Tae, e ao acompanharmos essa complicada relação aos poucos nos deparamos com revelações e diversos traumas e segredos.

Juntos, esses personagens tão únicos vão descobrir seus verdadeiros sonhos e a alegria de ter uma família. Não à toa, Tudo bem não ser normal foi considerado um dos melhores K-dramas de 2020.

 

7 – Cinderela e os quatro cavaleiros

Eun Ha Won (Park So Dam aí de novo!) sonha em ser independente do pai e da madrasta, que a tratam com indiferença. O que ela mais deseja é ir para a universidade. Para fazer isso acontecer, Eun Ha Won faz diversos trabalhos de meio período. Depois que conhece o CEO milionário Kang e seu neto, Kang Hyun Min (Ahn Jae Hyun brilhantemente detestável e adorável), ela recebe uma proposta estranha: trabalhar como governanta na casa em que moram os três netos do CEO. Além de Kang Hyun Min, ela vai enfrentar o durão Ji Woon (Jung Il Woo) e o sensível músico Seo Woo (Lee Jung Shin, baixista do CNBlue). A principal tarefa de Eun Ha Won será fazer com que eles entrem na linha. 

Enquanto Ji Woon faz de tudo para que ela desista, Hyun Min vive implicando com a nova governanta e Seo Woo encontra em Ha Won uma confidente para aliviar sua existência tão solitária. Com o passar do tempo, essa Cinderela do K-drama conquista os quatro cavaleiros relutantes e os vemos se tornando uma família. 

 

8 – Revolutionary Love

Revolutionary Love é uma comédia que aborda a questão dos privilégios. O ingênuo milionário Byun Hyuk (o maravilhoso Siwon, do Super Junior) não tem muitos objetivos e vive como bem quer, até conhecer a batalhadora Baek Joon (Kang So Ra). Sem as mesmas oportunidades de Byun Hyuk, Baek Joon sempre trabalhou (e muito) para alcançar seus objetivos. Decidido a conquistá-la, o milionário decide fingir que é pobre, mas no processo vai aprender sobre a importância do trabalho e de ter sonhos. 

Revolutionary Love faz você dar gostosas gargalhadas com as trapalhadas de Byun Hyuk e torcer para que ele de fato aprenda a usar seus privilégios para ajudar quem precisa.

 

9 – Hello My Twenties

Se Hospital Playlist traz pessoas revendo suas escolhas de vida e buscando novos sonhos aos quarenta anos, Hello My Twenties é sobre aquela fase da vida em que todos os sonhos são possíveis e que estamos descobrindo quem somos. Yoon Ji Myung, Kang Yi Na, Song Ji Won, Jung Ye Eun e Yoon Eun Jae vão morar na mesma casa. Juntas, as cinco garotas vão passar por toda sorte de desafios, o que envolve amadurecer, correr atrás de seus sonhos e desistir daqueles que pareciam ótimos, mas que só nos fazem mal. Dá vontade de se mudar para aquela casa, virar amigo de todas elas e, às vezes, só dar um abraço mesmo, dizendo que vai ficar tudo bem.

 

10 – Reply 1988

Parte de uma trilogia de histórias independentes (Reply 1994 e Reply 1997), Reply 1988 é a história de cinco amigos de infância, Seung Deok Sun (Lee Hye Ri), Kim Jung Hwan (Ryu Joon Yeol), Ryu Dong Ryong (Lee Dong Hwi), Choi Taek (olha o Park Bo Gum aí de novo!) e Sung Sun Woo (Go Kyun Pyo), e explora os desafios que eles enfrentam ao longo de dez anos para realizar seus sonhos. Sung Deok Sun mal é lembrada pela família e é sempre trata como burra. Ryu Dong Ryong está na mesma situação de Deok Sun, e seu péssimo desempenho acadêmico sentencia que ele não deve conseguir ir para a faculdade. Já Sung Sun Woo é o melhor aluno e referência para todos. Choi Taek largou a escola para seguir carreira como jogador de baduk e Kim Jung Hwan só pensa em futebol, principalmente depois que sua família ficou rica. Como o passar do tempo, os problemas vão surgindo, alguns vão se apaixonando e a amizade dos cinco será posta à prova. 

Uma das curiosidades mais legais é que esse K-drama lançou muitos artistas e não só foi sucesso de público e crítica, como o elenco ficou tão próximo que são melhores amigos até hoje.

 

E aí, já assistiu a algum deles? Conta para a gente o que achou! Qual é o próximo da sua lista? Shine: Uma chance de brilhar foi lançado no Brasil com uma sobrecapa exclusiva, que os fãs amaram, então não se esqueça de conferir a história da Rachel Kim e seu sonho de se tornar uma idol. 

 

*Talitha Perissé é editora de aquisições de livros jovens e ávida usuária de gifs. Se pudesse somente comentar sobre séries asiáticas e grupos de k-pop o dia inteiro, ela faria isso (a equipe jovem não aguenta mais). Não se sente capaz de escolher um dorama ou banda favorita, mas sabe recitar as frases de Le Coup de Foudre e Goblin de cor e não tem como decidir se está mais animada para o comeback do Victon, Super Junior, Seventeen ou todos eles juntos.

testeAs faces do conflito: conheça os personagens de Pátria – Parte 2

A complexidade dos personagens de Pátria, cada um com suas ambiguidades, defeitos e qualidades, enriquece a trama e nos mantêm envolvidos, seja no percurso das 500 páginas da obra literária ou ao longo dos oito episódios da adaptação televisiva. Confira a segunda parte do artigo que joga luz sobre as estrelas da história: personagens e atores.

 

1) O escritor Fernando Aramburu, autor do livro Pátria, confessa ter predileção por Arantxa, devido à sua personalidade “corajosa, batalhadora, com uma grande capacidade comunicação” e por ser o “tipo de personagem que ao entrar em cena faz as coisas mais interessantes acontecerem”. Já o criador e roteirista da série, Aitor Gabilondo, afirma que o personagem com quem ele mais se identifica é Gorka, o filho mais novo de Miren, que encontra na escrita um passaporte para um novo mundo, longe das tensões domésticas e do domínio do ETA. “Gorka faz uma viagem em direção à sua liberdade individual, ele tem uma rebeldia suave. É um personagem delicado, um homem discreto, nada agressivo, que ama sua família e tem sensibilidade para entender todos e não os rejeitar, embora não compartilhe os pensamentos de seu irmão”, afirma Gabilondo.

 

2) O intérprete de Gorka, Eneko Sagardoy, afirma que uma das coisas mais impactantes da série foi ter de encarnar o personagem durante tantos anos em com tantos eventos importantes. “Sem o apoio imprescindível da maquiagem, do cabelo e do figurino esses personagens não existiriam. No livro há muitas elipses e na série também. Então cada ator teve de fazer seu trabalho, entender o que acontecia com esses personagens ao longo do tempo”, diz.

 

3) Nerea, a filha mais nova de Bittori, talvez seja um dos personagens mais enigmáticos da trama. Sua reação à morte do pai não é das mais comuns: ela decide não ir ao enterro e busca esquecer a dor afastando-se da família. “A princípio, por preconceito, tive dificuldade em entendê-la. Mas depois, refletindo, passei a apreciá-la porque é livre. Ela tem direito de lidar com sua dor da forma que quer. Acredito que a atriz (Susana Abaitua) entendeu isso muito bem. Inclusive ela me disse que conversou com um psicólogo para traçar um perfil do personagem, que é complexo.”, afirma Aitor Gabilondo.

 

4) Susana Abaitua, também destaca o apoio imprescindível da caracterização na composição dos personagens. “As mudanças (de época) eram constantes. Durante a rodagem, de manhã estávamos numa época e à tarde em outra. O arco de Nerea é tão grande, sua evolução é tão grande, que eu precisava ter as coisas muito claras no nível emocional.” Ela ressalta ainda a importância do trabalho dos atores. “Não se pode ter o mesmo olhar com 16 e com 35 anos. Há um frescor do pouco vivido, de quem não tem ideia de nada”, diz.

 

5) A escolha do elenco foi tão acertada que é difícil imaginar os personagens com outros rostos. No entanto, pelo menos dois atores fizeram testes para personagens distintos: José Ramón Soroiz, que interpreta Txato, fez o casting para encarnar Joxian, que ao final ficou a cargo de Mikel Laskurain, que por sua vez foi testado para o papel do padre da trama, Don Serapio.

 

6) Embora os protagonistas da série sejam os membros das famílias de Bittori e Miren, existem outros dois personagens importantes, que participam de momentos significativos da trama: o padre do vilarejo, Don Serapio (interpretado por Patxi Santamaría) e a cuidadora de Arantxa, Celeste (interpretada por María Isabel Díaz Lago). Em certa medida, o padre e a cuidadora são polos opostos: ele é o personagem mais vilanesco da história, em muitos momentos demonstra frieza e maldade, em nome da causa separatista; ela é a personificação da generosidade e do afeto. “É um personagem que ressalta um pouco as características contraditórias dos outros. Miren se protege muito, não quer demonstrar suas emoções, e Celeste, em contraposição, é doce, maternal e protetora. Ela tem uma relação tão bela com Arantxa, de cumplicidade, que vai muito além do que Miren impõe.”, defende María Isabel.

 

7) Para o papel do personagem Txopo, líder do Comando Oria – a célula terrorista de que fazem parte Joxe Mari e Patxo –, Aitor Gabilondo escalou a atriz Nagore Aranburu, embora no livro o personagem seja um homem. Ele afirma que essa decisão foi uma forma de diferenciar mais facilmente os três membros do Comando, já que Txopo seria mais um rapaz jovem de vinte poucos anos. De quebra, ele pôde realizar o desejo de ter Nagore na série. “É uma atriz estupenda com uma presença física espetacular. Seu trabalho no filme Flores (de Jon Garaño e José María Goenaga, disponível na Netflix) me fascinou”, conta.

 

8) Nem só de lembranças amargas, como atentados e mortes, vive a equipe de Pátria. Graças à série, Aitor Gabilondo teve a oportunidade de reviver seus tempos de juventude nas cenas rodadas em uma discoteca. O estabelecimento citado no livro, KU, já foi fechado e precisou ser reconstituído pela equipe de arte, mas Gabilondo se lembra bem de suas noitadas nos anos 1980. “Foi divertido fazer as cenas, reviver. Precisamos ensinar os atores e os figurantes a dançar como as pessoas dançavam naquela época. Houve algumas aulas e eles também assistiram a vídeos”, lembra o criador da série.

 

9) Em uma história tão cheia de silêncios, com pessoas contidas que nem sempre podem ou conseguem dizer o que pensam e o que sentem, o olhar precisa, de fato, transmitir muito. O povoado onde vivem as duas famílias também é um personagem relevante da trama. As janelas de casas e prédios são olhos que testemunham acontecimentos importantes como o assassinato de Txato. “O medo impede que as pessoas apareçam na janela. É a prisão mental. Medo de que aconteça o mesmo com elas. O fato de ninguém acudir (os gritos de Bittori) não quer dizer que ninguém quisesse ajudar”, afirma Aitor Gabilondo.

 

Em diversas entrevistas os atores e os profissionais da equipe técnica afirmaram que Pátria representa um divisor de águas em suas carreiras, uma oportunidade única de participar de um projeto de grande envergadura e com grande excelência técnica a respeito de um tema tão próximo e significativo para todos, sobretudo para os que são do País Basco. Com Pátria, as vítimas, os que foram silenciados e ameaçados, finalmente puderam ser protagonistas de suas histórias.

Se você quiser mergulhar ainda mais no universo de Pátria, não deixe de ler os outros artigos especiais sobre o livro e a série publicados aqui no blog. O primeiro  trata dos bastidores e do processo de adaptação para a TV, o segundo  aborda as diferenças e semelhanças entre as duas obras e o terceiro apresenta outras curiosidades sobre personagens e atores. 

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testePilar Quintana: a força da concisão

Convidada da Flip 2020, a premiada escritora colombiana investiga desejos e sentimentos obscuros em seu primeiro livro lançado no Brasil

Por Elisa Menezes*

 

A maternidade é um tema incontornável e central no breve romance A cachorra — a protagonista, Damaris, sempre desejou ter filhos. Ao chegar aos 40 anos, idade em que “as mulheres secam”, ela decide adotar uma cachorrinha e a batiza com o nome que daria à filha que nunca teve. A princípio, essa relação aplaca certas carências e preenche alguns vazios, mas com o tempo acaba trazendo à tona anseios obscuros, rancores e traumas acumulados ao longo de vários anos.

Ao contrário de sua personagem, a escritora colombiana Pilar Quintana passou a maior parte da vida convicta de que não queria ser mãe, mas acabou mudando de ideia e engravidando aos 40 anos. Enquanto amamentava o filho, escreveu no celular a história de Damaris, que recebeu em 2018 o prêmio Biblioteca de Narrativa Colombiana e atraiu as atenções do mundo. O romance teve seus direitos de publicação vendidos para dez países e é atualmente finalista do National Book Award, na categoria de literatura traduzida.

Se a maternidade é uma questão que salta aos olhos em A cachorra, existem outras mais sutis, dilemas que vão sendo revelados aos poucos. Damaris é uma mulher marginalizada. Pobre, negra e gorda. Seu cotidiano é marcado por uma série de violências físicas e psicológicas, acentuadas pela culpa que carrega desde a infância, fruto de uma suposta omissão. Ao contar a trajetória da protagonista, Pilar Quintana retrata o machismo, as desigualdades sociais, os conflitos de classe e a precariedade de uma região isolada: a costa do Pacífico colombiano. A escritora conviveu com essa natureza exuberante e impiedosa durante os nove anos em que morou no vilarejo de Juanchaco, que serviu de inspiração para o cenário de A cachorra. A impetuosidade da selva e do mar que engolem corpos é um dos traços mais marcantes do livro.

“O casebre em que moravam era de madeira e estava em mau estado. Quando caía uma tempestade, tremia com trovões e balançava com o vento, a água entrava pelas goteiras do teto e pelas frestas nas tábuas das paredes, tudo ficava frio e úmido, e a cadela punha-se a choramingar. Fazia muito tempo que Damaris e Rogelio dormiam em quartos separados, e nessas noites ela se levantava depressa, antes que ele pudesse dizer ou fazer algo. Tirava a cachorra da caixa e ficava com ela na escuridão, acarinhando-a, morta de susto por causa das explosões dos raios e da fúria do vendaval, sentindo-se diminuta, menor e menos importante no mundo do que um grão de areia do mar, até que a cachorra se aquietava.”

Investigar o lado sombrio, “o monstro” que vive dentro de nós e que é capaz de cometer atrocidades, é o que interessa a Pilar. Esse interesse — e a literatura derivada dele — já rendeu à autora o rótulo de “escritora de choque” e comparações com Charles Bukowski e Rubem Fonseca. Em 2007, ela foi selecionada pelo Hay Festival, no País de Gales, como um dos 39 escritores com até 39 anos de maior relevância da América Latina. Participou ainda de residências literárias em Iowa e em Hong Kong, onde sofreu censura. “Creio que os organizadores me convidaram sem me ler”, escreveu a Pilar em um ensaio em que descreve o episódio. 


Nascida em 1972 em Cali, ao sul de Bogotá, Pilar tem predileção por textos curtos. É autora de três novelas e um livro de contos e foi publicada em antologias e revistas literárias de diversos países. A cidade natal é onipresente em suas histórias, nas quais sexo e violência são temáticas frequentes. Em Coleccionistas de polvos raros (“Colecionadores de trepadas estranhas”, em tradução livre), a autora narra as aventuras de Flaca, uma mulher viciada em sexo que, no entanto, o pratica sem entusiasmo. Vencedor do prêmio espanhol La Mar de Letras, em 2010, o livro mostra o cartel de drogas de Cali em seu auge, no final dos anos 1980, e já desarticulado, no fim da década de 1990.

Em La caperucita se come al lobo (A chapeuzinho come o lobo), ela reúne contos de alto teor erótico, como o que dá nome ao livro e subverte o clássico infantil: uma jovem chapeuzinho deseja, seduz e leva para a cama “o lobo” do bairro. Em outro conto, “Violación”, um estupro é narrado do ponto de vista do padrasto molestador. A obra foi publicada em 2012 no Chile e ganhou as manchetes do mundo quando, em 2015, o Ministério da Educação chileno comprou por engano cerca de 300 exemplares para distribuir a bibliotecas de escolas primárias do país. Na ocasião, Pilar chamou a atenção para o fato de ninguém ter se escandalizado com a violência presente nos contos, apenas com o sexo. Em 2020, o livro finalmente foi publicado na Colômbia, com o acréscimo de três contos inéditos.

À primeira vista, A cachorra pode parecer um ponto fora da curva na obra de Pilar Quintana, por ser ambientado em uma região selvática e pobre da Colômbia e não ter o sexo como tema central. A autora discorda dessa percepção e afirma que o centro da trama continua sendo o desejo feminino, a “animalidade”. “Ambas são mulheres desejantes”, defende Pilar em entrevista ao jornal colombiano El Tiempo. “Damaris, a protagonista de A cachorra, deseja ser mãe e esse é um desejo absolutamente animal que governa sua vida. E acho que o mesmo ocorre nos contos de Caperucita, vemos mulheres desejantes, que não querem ter um filho, mas que têm desejos sexuais.”

Além de escritora, Pilar Quintana é roteirista premiada: recebeu o Premio del Fondo para el Desarrollo Cinematográfico pelo roteiro do filme Lavaperros — que estreia ainda em 2020 —, escrito em parceria com Antonio García Ángel. Ela também ministra oficinas de escrita criativa em instituições colombianas.

Pilar foi confirmada como uma das autoras convidadas da 18a edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que este ano será realizada de 3 a 6 de dezembro, de forma virtual, devido à pandemia de covid-19. Sua mesa, ainda sem data marcada, terá transmissão ao vivo e gratuita pela internet.

 

* Elisa Menezes é jornalista, editora e tradutora.

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testeFilmes para matar as saudades do elenco de Stranger Things

Ser fã de Stranger Things é ter que aprender a ter paciência, respirar fundo enquanto espera pelas novas temporadas e ficar vasculhando a internet atrás de pistas sobre o que pode acontecer nos próximos capítulos dessa aventura viciante.

Mas, enquanto não temos novidades sobre Hawkins, que tal matar as saudades desse elenco que a gente tanto ama? Separamos uma lista com 5 filmes para reencontrar Eleven e seus amigos. Confira:

 

Millie Bobby Brown – Enola Holmes

Apesar de ter apenas 16 anos, Millie Bobby Brown – a poderosa Eleven – já tem vários filmes e séries no currículo! Ela já participou de produções como Grey’s Anatomy e NCIS, além de estrelar Godzilla II: Reis dos monstros. Em seu último filme, Enola Holmes, Millie vive a irmã de ninguém menos que Sherlock Holmes, uma menina que precisa desvendar o misterioso desaparecimento da mãe.

Disponível na Netflix.

 

Finn Wolfhard – It: A coisa

Stranger Things é cheio de referências a cultura pop, e uma delas é It: A coisa, livro de Stephen King sobre um palhaço assassino que ataca crianças em uma pequena cidade dos Estados Unidos. A obra inspirou dois filmes recentes, e é possível encontrar Finn Wolfhard, o Mike, no papel do desbocado Richie.

Disponível na Netflix.

 

Winona Ryder – Beetlejuice: Os fantasmas se divertem

Estrela de diversos filmes inesquecíveis dos anos 1980, Winona arrasa como Joyce, a mãe de Will em Stranger Things. Ela foi uma das primeiras atrizes cotadas para o papel, e os criadores da série ficaram muito felizes quando ela topou participar! No clássico Beetlejuice: os fantasmas se divertem ela interpreta uma menina que se muda para uma nova casa e precisa lidar com os fantasmas muito doidos que assombram o local.

Disponível no NOW (Net/Claro).

 

Natalia Dyer – Velvet Buzzsaw

Conhecida por seu papel como Nancy Wheeler na série, Natalia Dyer fez uma participação no filme Velvet Buzzsaw, do diretor Dan Gilroy (O abutre, Gigantes de aço). Nessa sátira que mistura thriller e terror, a assistente de uma galeria de arte encontra centenas de pinturas deixadas para trás por seu vizinho que acaba de morrer. Todos da comunidade artística se encantam pelas obras, mas coisas sinistras começam a acontecer.

Disponível na Netflix.

 

Sean Astin – Os Goonies

Quem aí sente saudade do Bob Newby? Sean Astin conquistou todos nós com sua participação em Stranger Things e também deixou muita gente feliz ao rever o astro do clássico Os Goonies. Referência também para os criadores da série, o filme da década de 1980 acompanha um grupo de crianças que encontra um mapa do tesouro que os leva a um mundo de aventuras subterrâneas.

Disponível no NOW (Net/Claro).

 

Outra forma de matar as saudades de Stranger Things é mergulhar no universo expandido oficial da série com os livros Raízes do mal e Cidade nas trevas. Eles contam histórias inéditas e nos ajudam a conhecer mais personagens muito queridos pelos fãs, como Eleven e Hopper.

testeA insustentável leveza de ser

Quanto pesa um guardanapo em branco? 

Essa pergunta tem me acompanhado nos últimos dias. Semana passada, meu primeiro livro – Eu me chamo Antônio – completou sete anos de lançamento. Existe toda uma mística em torno do número 7. São sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete pecados capitais, sete mares. A gente pula sete ondas, o gato tem sete vidas, dizem que as notas musicais também são sete. Enfim, nesse caso, não há nenhum significado enigmático. É simplesmente meu desejo de deixar marcada essa data e agradecer de todo coração aos e às que me acompanham desde 2011 nas redes e, desde 2013, nos livros. 

Para quem começou a me seguir recentemente, Eu me chamo Antônio é uma história fragmentada de um personagem à espera de um romance. Foi no final de 2011 que eu tive a ideia de criar uma espécie de alter ego da minha sensibilidade, da minha timidez e, principalmente, dos meus silêncios. O Antônio e todos os mais de 2.500 guardanapos ilustrados escaparam das minhas mãos no balcão do Café Lamas, um dos bares mais tradicionais do Rio de Janeiro. Desde então, tenho encontrado a minha força na poesia desses papéis frágeis, na coragem desse personagem híbrido. 

Além de valorizar tanto a sonoridade quanto a grafia das palavras, a estética dos meus guardanapos tem um entendimento popular e, devido a sua simplicidade (não facilidade) proposital, consegue dialogar com todas as pessoas – independente da camada social, econômica, demográfica ou cultural – dispostas a se aproximarem desse lugar sensível onde a delicadeza parece cada vez mais se distanciar.

Boa parte da minha produção criativa é aparentemente – e propositalmente – simples à primeira leitura. A compreensão básica do conteúdo ilustrado e escrito nos meus guardanapos se dá de forma quase imediata para meu público-leitor. Depois, em função do interesse, da curiosidade, da vivência e da bagagem cultural de cada um/uma, o sentido embrionário pode se desdobrar em infinitas sensibilidades e dar à luz outros tantos significados.

Eu lembro que estava no ônibus, voltando para casa. Eram 19h e pouquinho. Era maio. Era 2013. Era a Lívia Almeida, editora da Intrínseca, do outro lado da linha. No dia seguinte, eu estava numa sala de reunião com uma maleta repleta de guardanapos e um sonho ainda tímido, assustado (medo de se realizar?). Acho que não foi à toa que escrevi no guardanapo da página 20: 

Sonhe alto. O máximo que pode acontecer é você realizar um sonho à altura

Alguns meses depois, o livro já estava nas principais livrarias de todo o país. O dia 14 de novembro foi a data oficial da primeira noite de autógrafos. Na Travessa de Ipanema. Momento único. Não se vive duas vezes a primeira vez. Nem na lembrança a repetição é exata. Lembro que havia uma chuva pesada. A mesma chuva que cai sobre São Paulo agora enquanto escrevo este texto. Assinei tantos livros, recebi tantas palavras bonitas. Lembro que saí de lá com uma leveza. A mesma leveza que recai sobre mim agora que termino esta frase. 

Desse dia em diante, viajei para as principais capitais do Brasil e visitei as cidades mais interioranas desse país infinito. Conheci pessoas com histórias que não se encontram nem nos melhores romances já publicados. Troquei ideias com leitores emocionados. Aquelas palavras que escaparam das minhas mãos no balcão do Café Lamas agora estavam em Manaus, em Mossoró, em Campo Grande, em Marechal Rondon, em Brasília, em Presidente Prudente, em Maceió, em Ouro Preto. Muitas delas me disseram que voltaram a escrever, que perderam o medo de desenhar porque viram que uma ideia simples também poderia alcançar essa dimensão. 

Confesso que tenho andado um pouco distante dessa troca afetiva. Muitos acham que eu parei de publicar, de escrever, de existir – ao menos virtualmente. Nada disso. A internet exige um tempo mais acelerado, um tempo que não sei se é o tempo que eu quero acompanhar com tanta intensidade. Preciso reencontrar o ritmo adequado à minha sensibilidade. Tenho tido fobia de toda essa afobação onde tudo é urgente a todo momento; onde o antes, o agora e o depois são o mesmo instante. 

Sim, minhas estatísticas estão em queda. O alcance, o engajamento, os seguidores, as vendas, a presença no feed, nas lives. É preciso vencer o algoritmo para que as minhas palavras nocauteiem esses números. Mas a principal batalha é interna. Sempre foi. Antes de romper essas barreiras numéricas, eu preciso costurar o afeto no meu alfabeto. 

Sou fascinado pela linguagem desses tempos híbridos. Onde a comunicação pode começar numa sessão de autógrafo, continuar no direct, migrar para os comentários de um post, se desdobrar em uma carta escrita à mão e terminar na caixa de entrada de um e-mail. Sei que do outro lado da tela – do celular ou do computador – há uma pessoa, um coração até então desconhecido que se apresenta e se conecta comigo no toque, no touch. Pode ter certeza, sou eu que estou ali: do outro lado desse contato.  

A você que ainda me acompanha, meu muito obrigado. 

Mas, afinal, quanto pesa um guardanapo em branco? 

Quase nada, você deve ter pensado. Um pacote com 50 folhas tem aproximadamente 150g, afirma o texto burocrático da embalagem que pego aleatoriamente no supermercado. Por esse cálculo, podemos dizer que um único guardanapo não alcança os quatro gramas na balança. Mas aí estamos falando dos papéis utilizados para limpar a gordura dos dedos, a sujeira da boca… E quando queremos lavar a alma, quanto pesa esse mesmo guardanapo? Eu posso responder.

Os meus guardanapos são retratos e retratações de instantes. Às vezes, autobiográficos; outras vezes, imaginados (sim, há vivência na imaginação). É na fragilidade desta plataforma descartável que encontrei uma forma – e uma força – poética para carregar quilos e mais quilos dos meus silêncios, toneladas e mais toneladas das minhas saudades. Meus guardanapos, na balança invisível da vida, sustentam o peso e a leveza de todos os meus sentimentos. 

Você também sente?