Filipe Vilicic

O que é ser instagramável, ou… como ser cool no Instagram

26 / outubro / 2020

Por Filipe Vilicic

Vou te contar a história de um garoto cuja vida parecia perfeita no Instagram ou, como se diz, que levava uma vida instagramável. Só que, “na real”, ele enfrentava uma depressão profunda que o levou a tentar tirar a própria vida. O caso, já referência para quem busca compreender os efeitos psicológicos de abusar das redes sociais, tomou o noticiário inglês em 2014.

Danny Bowman, de 19 anos, passava dez horas por dia tirando em média 200 selfies para publicar em seu perfil no Instagram. O tempo dedicado era menos ao ato de fotografar e mais ao trabalho de tratar as imagens para deixá-las instagramáveis, ou seja, apropriadas aos padrões estéticos da comunidade de instagrammers. O hábito o levou a largar a escola sem contar aos pais. Ele entrou em uma depressão profunda, desenvolveu transtorno dismórfico corporal e se viciou em remédios, o que culminou em uma tentativa de suicídio.

Em entrevistas a veículos de mídia britânicos, Bowman contou que “perdeu amigos, educação, saúde e quase a vida” na “constante busca da selfie perfeita”. O que o garoto procurava, na prática, era transmitir por meio do Instagram uma ilusão de que levava uma vida instagramável.

Quando sua família notou a gravidade do problema, ele foi internado em uma clínica psiquiátrica. Após se recuperar, Bowman passou a falar publicamente sobre os distúrbios psicológicos que podem surgir a partir do abuso da rede social.

Do outro lado do globo, brasileiros e brasileiras também se esforçam para atrair olhares, em forma de seguidores e curtidas, no Instagram. Tem até médico que fatura com isso. Caso do Dr. Bumbum, ou melhor, Denis César Barros Furtado. Um doutor de trajetória obscura, mas que conquistou 665 mil seguidores no Instagram ao vender, pela rede social, cirurgias que transformariam os corpos de pacientes em corpos instagramáveis. Em especial, as nádegas.

Em 2018, ele ganhou os noticiários. Nos cadernos policiais dos jornais, nas abas de “crimes” dos sites de notícias. Durante uma cirurgia em uma cobertura de um prédio residencial na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, acabou matando a bancária Lilian Calixto. A notícia o levou à prisão, mas não abalou sua fama no Instagram.

O Instagram alimenta uma comunidade esteta. Um mundo onde a aparência importa ainda mais. Não se trata da construção social do ideal de beleza que se traduz de forma brega e um tanto jocosa nos concursos de misters e misses, mas de se encaixar no visual instagramável.

Mas o que é esse tal “instagramável” que leva tantos a atitudes extremas? É a vida da Bruna Marquezine, da Kylie Jenner, do Rodrigo Hilbert e da Fernanda Lima, do Felipe Neto, da Kéfera. Enquanto o Facebook valoriza o banal, o costumeiro, o contato com familiares, o Instagram estimula a idolatria. A adoração a ídolos, ou melhor, às imagens representativas desses ídolos, é uma das características centrais do aplicativo de fotos criado pelo norte-americano Kevin Systrom e pelo brasileiro Michel “Mike” Krieger há 10 anos, em 2010.

É a história dessa criação que conto no livro O clique de 1 bilhão de dólares, da Intrínseca. A 2ª edição acaba de sair em e-book, com a atualização da saga após a compra do app pelo Facebook. Além de abarcar o pedido de demissão dos criadores do Instagram, nessa nova edição também são discutidos os impactos sociais e psicológicos da rede social.

Observar de perto os dez anos de construção do Instagram me possibilitou ensaiar sobre o que é esse “instagramável”. Lev Manovich, professor de novas mídias no departamento de Ciências da Computação da Universidade da Cidade de Nova York, realizou um amplo levantamento através da coleta de 15 milhões de posts do Instagram. Assim, descobriu que existem três tipos de fotos na plataforma:

80% dos posts de Instagram são “casuais” (com amigos, em família, retratos caseiros e amadores);

11% são “profissionais” (há maior esforço na execução, com preocupações como se “a luz está boa”);

9% são “designed” (em inglês, “projetadas” ou “desenhadas”).

Mesmo minoria, essas últimas, as “desenhadas”, determinam como é a estética nessa comunidade. Ou seja, o instagramável é a busca pelas fotos mais pensadas, tratadas com filtros, apps ou mesmo Photoshop, as que passam uma cena “perfeita”.

São fotos e vídeos de uma escola estética que Manovich nomeia de Instagramism — “o luxo de fazer absolutamente nada enquanto se está em um lugar perfeito, perfeitamente vestido, com um drinque perfeito, sozinho ou com um amigo perfeito”, escreve o acadêmico. Ser “instagramável” é, portanto, tentar ser perfeito(a). Na rede, quem não chega lá é instigado(a) a se esforçar para tentar imitar. Mesmo que isso os esgote.

Ricos e famosos, como Bruna Marquezine e Kylie Jenner, conseguem manter uma vida instagramável. Não por levarem vidas perfeitas. Mas é que ganham fortunas com isso. Possuem os privilégios necessários para se desfilar com bolsas e roupas de grife em ilhas paradisíacas. Contam com o suporte de equipes de profissionais — fotos e vídeos passam por tratamento, edição, filtros, deixando-as mágicas.

Em meio ao cerca de 1 bilhão de usuários do Instagram, 6 milhões são celebridades dessa enorme tribo virtual, por contarem com mais de 1 milhão de seguidores. Um número ínfimo perto do bilhão de habitantes dessa rede, mas que serve de modelo de instagramável. Uma boa parte desses outros milhões de não celebridades do Instagram não só se espelha nos instagrammers famosos como se esforça para levar a mesma boa vida. Quem não tem condições de imitar a elite de instagrammers finge ter uma via instagramável, dedicando horas a clicar, editar e filtrar fotos “perfeitas” de si. Tem até aqueles que recorrem aos cirurgiões de nádegas para chegar lá.

Não se engane — o assunto é seríssimo. O abuso do Instagram e a idolatria exagerada podem levar ao vício, a distúrbios de imagem, dentre outros efeitos psicológicos nocivos. Tanto que, em 2017, a Royal Society for Public Health, órgão inglês de estudos médicos, apontou o Instagram como a rede social mais danosa à saúde mental, à frente de Facebook, Twitter, YouTube e tantas outras. Cuidado, não abuse.

 

– Saiba mais sobre a história do Instagram, criado pelo brasileiro Michel “Mike” Krieger, na recém-lançada 2ª edição do livro O clique de 1 bilhão de dólares, em e-book.

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