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Como nossa casa nos define

20 / outubro / 2020

Por Naotto Rocha*

Se você fechar os olhos e se concentrar, é capaz de se lembrar de detalhes dos lugares onde já morou? Cada cômodo, móvel, quadro, cada marca na parede, no chão, nas memórias. Talvez você não perceba, mas todos somos moldados pelos lares onde vivemos, um conceito que durante o período de distanciamento social possivelmente se tornou um pouco mais claro. Quando a maior parte do planeta se recolheu e se isolou dentro de quatro paredes, a pressão exercida por elas pode ter aumentado ou diminuído. Varia de caso a caso, ou de casa a casa.

Lembro que, quando criança, cheguei a pensar que eu nunca me mudaria. Que eu nunca abandonaria a casa que meus pais levaram décadas para construir do zero. Que eu nunca mudaria. E ainda bem que estava errado. Mesmo que sem perceber, experimentamos esse movimento diretamente proporcional: nossas casas nos definem tanto quanto cada fase de nossa vida define nossa casa. A vida é movimento: não deveríamos ficar parados por muito tempo.

E é isso que os personagens de A Casa Holandesa se recusam a aceitar, ou ao menos admitir. Depois que os irmãos Conroy, os protagonistas da história, são expulsos pela madrasta da casa onde passaram grande parte da infância, os dois se veem abandonados e logo descobrem que só podem contar um com o outro. Embora tenham personalidades bem diferentes, Danny e Maeve só se sentem confortáveis quando estão juntos e, durante décadas, continuam visitando a rua de seu antigo lar para reviver e observar o passado e eventualmente refletir sobre o futuro.

Li o livro de Ann Patchet no começo do ano, quando ele saiu no intrínsecos, o clube do livro da Intrínseca, um pouco antes de a pandemia se instalar. E, se já naquela época eu havia gostado da leitura, hoje posso dizer que a acho ainda melhor. Quase nunca pensamos em como o lugar onde vivemos pode ser uma prisão ou nosso passe livre para a liberdade até que não reste escolha a não ser confrontá-lo.

“Eu sentia a casa inteira sentada em cima de mim como uma concha que eu teria de carregar pelo resto da vida.”

Para Danny, a Casa Holandesa era um fardo, uma lembrança constante de seu passado feliz que havia adquirido um gosto amargo com o tempo. Para Maeve, talvez fosse um conforto, uma afirmação de que haviam superado as dificuldades e vencido o destino. De qualquer forma, a construção era para ambos um monumento de suas próprias vidas — quando a encaravam, confrontavam versões passadas de si. E olhar para o passado com os olhos de quem somos no presente é incômodo.

Não sei se você teve oportunidade de visitar lugares onde morou depois de alguns anos, mas eu já. Por mais que eles conservem a arquitetura e até alguma decoração dos tempos antigos, o sentimento é… esquisito. É a sua casa, mas não é; é o seu quarto, mas o de outra pessoa também. Todos os móveis e cômodos parecem gritar isso: seu tempo aqui acabou. Porque você se mudou e, principalmente, porque você mudou.

E talvez isso seja bom. Pensar que outras pessoas, outras famílias, vão construir suas vidas e lembranças naquele lugar me consola porque lembro que ali também construí muitas coisas. Em outra casa, outro tempo. Um outro eu. Coisas que hoje moram, em mim, assim como já morei nelas.

“Eu vejo o passado como ele realmente aconteceu. Mas nós sobrepomos o presente a ele. Olhamos para o passado pela lente do que sabemos agora.”

 

* Naotto Rocha já mudou de casa duas vezes e atualmente planeja uma terceira mudança. Dentro de si, já perdeu as contas de quantas vezes mudou.

 

Ouça o nosso podcast sobre o livro:

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Comentários

2 Respostas para “Como nossa casa nos define

  1. Adorei o texto e estou ansioso para a minha caixa de A Casa Holandesa chegar!

  2. A casa da gente é um santuário. É aquele canto no mundo que a nossa vontade reina. Você pode descansar e relaxar o quanto quiser. Eu, que trabalho em home-office, tenho o meu lar como um local de trabalho e também de descanso. Mas nunca fico o tempo inteiro nele, seja passeando, seja me mudando. “A vida é movimento: não deveríamos ficar parados por muito tempo.” Isso me define muito. As minhas “casas” foram várias, afinal já passei por mais de 40 cidades com o meu estilo de vida nômade.

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