Filipe Vilicic

Como não ser um viciado em Instagram (ainda mais na pandemia)

14 / outubro / 2020

Por Filipe Vilicic

Já se pegou arrastando para baixo a página do Instagram por tanto tempo que nem se lembrava mais por que havia acessado o app uns vinte minutos antes? De repente se está na aba Explorar, entre uma foto antiga do David Bowie com a Rita Lee, uma tirinha da Turma da Mônica, a capa de uma revista de moda, um grafite do artista @sitoumatt (que eu não conhecia) e fotos de jovens modelos de roupas transparentes, mostrando os mamilos por trás de uma lingerie ou de uma camiseta molhada. Sobre esse último, dei um google e descobri que a coisa teve origem em um movimento iniciado por uma top model, por uns retratos que ela fez de camiseta molhada para a Sports Illustrated com a mensagem “Do my nipples offend you?” (“Meus mamilos te ofendem?”).

(Isso pois o Instagram proíbe a exibição de mamilos femininos. Masculinos, tudo bem. Em julho do ano passado, tive um papo um tanto nonsense sobre esse assunto com uma doutora em sociologia que trabalhava para o Facebook, por meio de uma firma terceirizada em Barcelona, na Espanha, monitorando usuários e avisando ou punindo aqueles que infringem regras da rede social. Ela, que se declarou feminista, falou que é difícil ter de proibir posts com os quais ela concorda, como de mulheres do Femem protestando com os seios à mostra.)

Quando você mergulha muito tempo no Instagram, fica assim, cheio de parênteses. É difícil focar em uma coisa só. Percorre-se uma centena de imagens, uma ou outra lhe toma mais a atenção e lhe faz resgatar memórias, das boas ou das ruins… esquece-se da vida. As redes sociais são saborosas. Mas também são viciantes e alucinógenas. À caça de curtidas e comentários, repito, esquece-se do resto da vida. Da realidade.

Em 2017, um estudo de pesquisadores da Universidade de Seul, na Coreia do Sul, atestou, por meio de análises de ressonâncias magnéticas do cérebro de viciados em tecnologia, que essa dependência causa reações químicas similares às de drogas como a cocaína. Quem usa apresenta maior tendência a síndromes psíquicas como depressão, ansiedade, pânico.

Como já me disse, em uma conversa recente, o professor da USP Wagner Souza e Silva — com quem tive aulas sobre “imagens técnicas” —, aparelhos como redes sociais, ou smartphones, têm a função de “estruturar a realidade, assim atuando na reconfiguração do cotidiano e na construção de nossas relações”. Ao mesmo tempo, “nos ajudam a fugir da realidade, o que tem ganhado outra magnitude nessa época de quarentena”.

A pandemia levou ao isolamento, que levou ao maior uso de tecnologias como redes sociais, que podem se tornar viciantes como entorpecentes. Justo ter aumentado a utilização, já que as telas e os apps passaram a representar, para muitos, a única forma de falar com o melhor amigo, com familiares, com colegas de trabalho. Aplicativos como o WhatsApp tiveram crescimento de 40% no acesso logo em março, no comecinho da pandemia. Nota-se no dia a dia como cresceu a presença dessas tecnologias todas. Estamos bem mais mergulhados na realidade virtual. Sairemos facilmente dela? Ou será cada vez mais difícil cortar essa relação, mesmo que por uns minutos?

Capa

Em meu livro O clique de 1 bilhão de dólares, sobre os bastidores da criação do Instagram e que ganhou uma segunda edição pela Intrínseca, mostro como redes sociais e apps são pensados desde o início para atrair a nossa atenção, tomar nosso tempo, nos viciar. Isso está no DNA deles. Eles só fazem mal? Claro que não. Há muitos pontos positivos em pertencer a uma comunidade virtual como o Instagram. Só é preciso também considerar os contras, os poréns, o quanto as imagens podem nos ludibriar, como essas redes mexem com a cabeça para nos viciar. Deve-se ter cautela como um adicto com drogas: seja uma dose de uísque, um pega num cigarro de maconha ou uns posts no Instagram.

Nos últimos meses se tornou assunto um documentário da Netflix exatamente sobre essa nova dependência, a em substâncias digitais como Instagram, Facebook e Twitter. O Dilema das Redes é um tanto alarmista em uns pontos, lembra teorias apocalípticas do passado como a malthusiana, tem uma narrativa de dar sono, mas toca em problemas importantíssimos para nós, que vivemos em 2020. Chega até a relacionar o abuso desses sites e aplicativos ao crescimento de suicídio entre adolescentes.

“Bilhões de dólares são investidos por essa indústria para mexer com a mente das pessoas. Para que, ao se conectar em uma rede social, você perca o controle sobre si e não consiga parar de descer a barra de rolagem”, disse-me Tristan Harris, em entrevista em 2016, antes de o rosto dele ficar pop por protagonizar o documentário da Netflix. Tristan é um ex-designer topo de linha da Apple e da Google que abandonou a carreira que seguia por ter pesado na consciência o fato de que desenhava produtos cujo intuito era viciar as pessoas. Ele compara as redes sociais a drogas ilícitas e a máquinas caça-níqueis de cassinos.

É conversa que me interessa por eu ser também um adicto em tecnologias. Desde meus 13 anos, quando, para fugir de um problema familiar, passava dias e dias hipnotizado em frente ao videogame e ao computador (quando a internet ainda era discada), isso ao longo de uns dois anos de minha vida — e continua a ser um desafio controlar esse vício. Até por esse motivo que acabei por questionar Tristan, assim como vários outros, a exemplo do criador do Instagram, o brasileiro Michel Krieger, e do fundador da Atari, Nolan Bushnell, sobre como eles criaram inovações fantásticas, mas perigosamente viciantes.

Nessas conversas, perguntei: “E como não viciar?” Com as respostas, criei uma lista de dicas, que procuro seguir para ter maior controle das tecnologias do que elas de mim (difícil sair vitorioso brincando com máquinas caça-níqueis de cassinos). Compartilho cinco dessas medidas:

1. Instale programas que cronometram o tempo de uso de apps e de internet. Há aplicativos próprios para isso, assim como algumas ferramentas de contagem de tempo nativas das redes sociais, como no Instagram. Para não abusar, coloque um limite diário e faça com que o programa te avise quando alcançar esse limite;

 

2. Jamais leve celulares, tablets, notebooks, qualquer tecnologia conectada com a internet (no ideal, nem uma TV), para o quarto. Não dar atenção ao(à) parceiro(a) para checar notificações no celular já tem sido até motivo de divórcio;

 

3. Evite acessar e-mails, principalmente de trabalho, à noite ou fora do horário de expediente. Limite redes sociais a no máximo uma vez ao dia. Permita-se até uns dias distante do WhatsApp;

 

4. Não confira o celular antes de dormir, mantenha-se longe de telas pelo menos algumas horas antes de ir para a cama. O descanso será melhor. Ao acordar, não pegue logo o smartphone, como a primeira coisa a se fazer no dia. Levante-se, arrume-se, tome café da manhã, desperte antes de encarar a realidade virtual;

 

5. Fique um tempo sem redes sociais. Comece com horas, prolongue para dias. Se conseguir, sem qualquer acesso a internet. O detox vale a pena.

 

Se sentir que a tecnologia está tomando demais sua vida, te prejudicando, afetando relacionamentos, pense ainda em procurar ajuda. Já há psicólogos e psiquiatras especializados no tratamento desse novo tipo de vício, que leva a depressão, ansiedade, pânico, transtorno dismórfico corporal, entre outros distúrbios cujos nomes são cada vez mais familiares aos ouvidos dos que vivem nesta hiperconectada (e conturbada) segunda década do século XXI.


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