Pedro Gabriel

Uma geração perdida?

8 / setembro / 2020

 

As veias do Modernismo correm pelas mãos de Tarsila do Amaral (1886–1973), considerada uma das maiores pintoras do Brasil. Dentre suas inúmeras telas, uma sempre me trouxe muitas reflexões. Trata-se de Os operários, 1933. A obra — que retrata o momento da industrialização brasileira, principalmente, a paulistana — foi criada pouco após a Grande Depressão de 1929 — crise econômica que teve seu epicentro nos Estados Unidos e sacudiu a vida de muitos mundo afora. A artista, inclusive, perdeu uma parte expressiva de seu patrimônio, sendo obrigada a vender quadros de sua coleção particular para bancar seus estudos artísticos.

Após uma viagem para a União Soviética em 1931, onde conheceu in loco os ideais comunistas, Tarsila volta a São Paulo e tem a ideia de retratar a realidade do proletariado. De um lado, a diversidade cultural e a pluralidade racial visíveis nesses 51 trabalhadores que migraram do interior do país para as grandes metrópoles: as grades invisíveis do capitalismo são o medo dessa prole-esperançosa. Muitos migraram de outros países na tentativa, muitas vezes vã, de conseguir um emprego nas fábricas que, na década de 30, germinavam mais do que as flores no campo naturalmente infértil do concreto. O êxodo sem êxito. Ainda assim, o povo existe porque resiste!

A obra é uma denúncia social das péssimas condições de trabalho dos operários no início do século XX (a consolidação das leis trabalhistas só veio em 1º de maio de 1943, pelo Decreto-Lei nº 5.452), em plena opressão da Era Vargas. Todos parecem vestir a máscara da exaustão. Todos carregam uma camada de melancolia, um olhar meio perdido. Uma geração inteira perdida? O que vemos é a aglomeração de seres assustados: ocupados com o serviço, preocupados com o futuro e ocultados pela elite financeira. O capitalismo esgota os trabalhadores para que eles não tenham tempo de pensar na revolução.

É visível o cansaço de cada rosto esmagado na tela. Um sufoco coletivo para sonhos individuais. As indústrias, ao fundo, aparentam mais livres que a classe operária. Eis que ânsias se apossam na brecha das esperanças roubadas. A imagem me lembrou o som Negro Drama, do Racionais Mc’s, no qual Mano Brown esvazia os pulmões declamando:

“A multidão é um monstro sem rosto e coração. Hey, São Paulo, terra de arranha-céu, a garoa rasga a carne. É a Torre de Babel”.

Na arte, a indústria produz um firmamento poluído, constrói e destrói as belezas da cidade com a mesma voracidade. Apesar de tudo, em meio às nuvens de fumaça cinza, sim, há um céu azul. É um sinal da natureza que parece nos dizer: enquanto houver alguém disposto a não sufocar, haverá ar para toda a humanidade.

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