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Como o discurso da meritocracia ajuda a ampliar a desigualdade social

1 / setembro / 2020

“Se você se esforçar, vai conseguir”, “Eu consegui porque mereci”. Esses e outros clichês são parte da retórica da meritocracia, um discurso muito comum hoje em dia e que, segundo o economista francês Thomas Piketty, é um dos principais pilares da narrativa que serve para justificar a desigualdade.

No livro Capital e ideologia, Piketty argumenta que a ideia de meritocracia serve para que os “vencedores” do atual sistema econômico justifiquem a desigualdade ― em qualquer escala ― jogando nos “perdedores” a culpa por seu próprio fracasso, como se obter êxito fosse apenas questão de esforço individual.

Para o autor, o que existe é um abismo imenso entre a ideia de meritocracia e a realidade, principalmente quando se fala de pessoas mais pobres e com menos acesso à educação formal. Ou seja: não se pode falar em meritocracia sem igualdade de oportunidades.

Ainda de acordo com Piketty, o discurso meritocrático vai ganhando força à medida que as elites não conseguem mais justificar seu poder econômico baseando-se apenas em renda ou origem do patrimônio familiar. Assim, foi necessário começar a justificar as diferenças sociais recorrendo às capacidades individuais.

“Sob os adornos do ‘mérito’ e dos ‘dons’ pessoais, os privilégios sociais se perpetuam, pois as classes desfavorecidas não dispõem dos códigos e das chaves pelas quais o reconhecimento atua”, escreve ele.

Hoje, a meritocracia é um dos pontos-chave da narrativa que sustenta a desigualdade, junto com uma defesa pouco crítica dos conceitos de propriedade privada e empreendedorismo. 

A noção de que existem ideologias estruturadas para justificar a desigualdade é a premissa central de “Capital e ideologia”, e Piketty a defende com uma análise detalhada de dados socioeconômicos de diferentes épocas e lugares.

“Toda sociedade humana precisa justificar suas desigualdades: tem de encontrar motivos para a sua existência ou o edifício político e social como um todo corre o risco de desabar. Desse modo, toda época produz um conjunto de discursos e ideologias contraditórios que visam legitimar a desigualdade”, diz o economista.

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