A médium, o cientista e os peixes

Por Daniela Arbex

2 / setembro / 2020

Tenho admiração profunda por pessoas vestidas de humanidade. Falo de gente rara, capaz de se preocupar verdadeiramente com o próximo. Dona Isabel Salomão de Campos, a biografada de Os dois mundos de Isabel, tem a característica da singularidade.

Apaixonada por cascatas, ela construiu uma na varanda de casa para ouvir o barulho da água caindo nas pedras. E foi nesse mesmo lago que ela solucionou “grandes” dilemas domésticos. Um deles diz respeito à aflição de um menino de 5 anos. Aluna do colégio criado por ela na década de 80, a criança deixou a sala de aula em direção à casa da médium, localizada no prédio vizinho ao da escola.

Sem hora marcada, o menino bateu na porta de Dona Isabel.

— Posso entrar? ― perguntou a visita inesperada.

— Entra, beleza.

O menino logo foi falando o que o trazia ali:

— Sabe o que é, Dona Isabel, estou com um problema enorme.

— O que foi, filhinho? ― perguntou Dona Isabel, parando o que fazia para dar atenção ao pequeno.

— Dona Isabel, eu tenho um aquário lá em casa, sabe? Mas meu pai não quer mais que meus peixes morem lá. Estou muito triste. O que eu vou fazer? ― perguntou, desolado.

— Já sei o que faremos ― respondeu a médium, abaixando-se para ficar quase na mesma altura do menino.

— O quê?

— Traga seus peixes para cá. Eu vou cuidar deles. Assim, quando você estiver com saudades pode vir visitá-los a hora que quiser.

A criança abriu um sorriso enorme e abraçou a médium. Aliviada com o desfecho do caso, pode voltar tranquila para a sala de aula.

 A atenção dada por Dona Isabel ao dilema da criança foi a mesma dada ao caso do cientista David Goodall. Em 2018, o australiano de 104 anos ficou mundialmente famoso ao anunciar que se submeteria a um suicídio assistido. Como o procedimento era proibido em seu país de origem, Gooddal precisaria viajar para Suíça, mas não tinha recursos suficientes para pagar por sua morte.

Logo que a notícia foi veiculada na imprensa, pessoas de toda a Europa passaram a doar dinheiro para ajudá-lo a cumprir seu desejo final.

No interior do Brasil, porém, Dona Isabel agiu na contramão do restante do mundo: começou a pensar em formas de ajudá-lo a viver. Queria fazer chegar a ele uma mensagem de esperança. Como David era materialista, a médium abriu mão de falar em Deus pela primeira vez porque sabia que ele não entenderia. Então gravou um recado cheio de amor e de encorajamento. A última voz que o cientista ouviu em vida foi a de Dona Isabel. E o que parece ser o fim é apenas o começo da história.

Ficou curioso? Corre para ler Os dois mundos de Isabel.

 

Daniela Arbex trabalha há 22 anos como repórter especial do jornal Tribuna de Minas. Suas investigações resultaram em mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três Esso, o IPYS de melhor investigação da América Latina e o Knight International. Estreou na literatura com Holocausto brasileiro, obra eleita o melhor livro-reportagem pela Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2013 e segundo melhor livro-reportagem no Prêmio Jabuti (2014). Em 2016, a jornalista foi novamente agraciada com o Prêmio Jabuti por Cova 312. Recentemente, Holocausto brasileiro foi adaptado como documentário e lançado pela HBO em 40 países.

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