Daniela Arbex

Trajetórias extraordinárias precisam ser contadas

19 / agosto / 2020

 

O jornalismo entrou na minha vida muito cedo: eu tinha 14 anos, quando descobri que queria ser uma contadora de histórias. Dona Isabel Salomão de Campos entrou logo depois. Naquela época, eu não sabia que ambos tinham vindo para ficar. O fato é que o encontro com a minha vocação e a descoberta da existência de uma mulher que se tornaria minha referência de humanidade definiram todas as escolhas que me fizeram chegar até aqui.

Quando conheci Dona Isabel, eu tinha 15 anos e ela, 63. Naquela época, ela já havia ajudado milhares de pessoas que sofriam de dores físicas e emocionais. Também havia retirado centenas de crianças das ruas. Tinha criado uma rede de solidariedade cujas teias são tecidas até hoje e se estendem Brasil afora. Dona Isabel ensina as pessoas a gostarem de gente e a se comprometerem com o bem-estar do outro. Isso sempre me encantou.

Com o tempo, entrei para a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora e ela continuou sua missão de ajudar. Criou escolas, uma instituição de acolhimento que se tornou referência nacional, um centro espírita que já funcionava desde 1974 e que mantinha as portas abertas — até hoje — para quem quisesse entrar, independente da religião.

Enquanto ela ampliava seu atendimento, eu começava uma carreira de sucesso no jornalismo. No meu primeiro ano na redação de um jornal diário no interior de Minas Gerais, já havia ganhado o prêmio de melhor reportagem. Não parei mais. Meu trabalho foi reconhecido dentro e fora do Brasil. O dela também.

Até que me tornei escritora. Tinha 17 anos de profissão quando publiquei o livro Holocausto brasileiro. Dona Isabel foi uma das primeiras pessoas a comentar comigo sobre a existência do Trem de Doido. Levei anos para entender a trajetória de um trem que fazia viagens em direção à morte. Denunciei ao país o hospício que havia matado 60 mil pessoas. Diziam tratar-se de loucos, mas louco mesmo é o modelo manicomial que extermina as pessoas de quem deveria cuidar.

Dona Isabel acompanhava a potência das minhas denúncias com atenção. Graças ao trabalho dela, os invisíveis, os excluídos e os estigmatizados sempre foram foco do meu. Aliás, tudo que despertasse o interesse social e comunitário me mobilizava. Inspirada por ela, me tornei defensora dos direitos humanos.

Em 2015, lancei meu segundo livro-reportagem. Cova 312 desvendou o assassinato do militante político Milton Soares de Castro, cujo desaparecimento despertou o meu faro jornalístico. Três anos depois, publiquei o livro Todo dia a mesma noite, que narra a história não contada do incêndio da boate Kiss.

Quando cheguei aos 23 anos de profissão, Dona Isabel completou 94 anos de idade. Foi logo após o lançamento do livro da Kiss — lá em 2018 — que comecei a questionar o meu papel dentro do jornalismo. Fiquei pensando em como eu, que conhecia uma brasileira singular, ainda não havia escrito sua história? 

Talvez porque ainda me faltasse a maturidade necessária para compreender que mesmo se tratando de uma temática diferente de todas as outras que abordei, o jornalismo não nos limita, pelo contrário, está aberto a pesquisar tudo.

Assim, despida de mim mesma, mergulhei nos dois mundos dessa mulher que eu já conhecia. Passei os últimos dois anos e meio orbitando em torno da vida de uma personagem quase centenária. Foi um tempo de aprendizado profundo sobre compaixão, amor, coragem. Também sobre o empoderamento feminino e a força de um ideal. Parecia que experimentava um tempo de aparente calmaria. No entanto, dentro de mim tudo era tempestade, em função da intensidade das histórias que conheci.

Quando o livro Os dois mundos de Isabel nasceu, tive ainda mais certeza da potência da palavra, afinal, trajetórias extraordinárias precisam ser contadas.

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