O jornalismo é uma ponte para o coração do outro

Por Daniela Arbex

26 / agosto / 2020

(Na foto: Ligiane, Flávio, Daniela e Paulo em Santa Maria)

Escrever para mim é um exercício de significados. Jamais publiquei algo que não tivesse sentido para mim. Por isso, os temas que eu escolho tratar me mobilizam. E penso que na vida de um autor precisa ser assim. Seria impossível enfrentar a solidão que a gente sente durante o processo de preparação de uma obra sem uma identificação profunda com a história que se vai contar.

Para mim o livro só termina depois que as palavras são compartilhadas e elas passam a ter um significado para o outro. Apesar de a construção do texto ser um ato individual, para que a história nasça de verdade, ela precisa habitar o mundo de quem a lê. É assim que a gente se realiza: nos sentimentos que a palavra é capaz de despertar.

E é pelo emaranhado de emoções que se descortinam a cada parágrafo de um livro que a gente se aproxima de quem conhece e até de quem nunca viu. Fica íntimo. Talvez por isso o jornalismo signifique tanto para mim, porque ele é uma ponte para o coração do outro. Atravessá-la me emociona.

Domingo passado experimentei o sabor dessa travessia — muitas vezes mágica. Pelo celular, recebi uma mensagem de São Paulo de um leitor que havia terminado Os dois mundos de Isabel. Confesso que o texto, assinado por Paulo Carvalho, pai de Rafael, que morreu em 2013 na boate Kiss, mexeu comigo.

Daniela, li o livro. Foi devagar.

A cada capítulo foi aflorando em mim sentimentos que estavam guardados. A história da dona Isabel é de muita generosidade e amor ao próximo. A sua perseverança gigante que a levou a tantas obras.

Quantas vidas de meninos foram salvas?

Quantos exemplos?

Quantas histórias de doação?

Em uma delas lembrei muito do meu filho lendo a história da Andrea. Fiquei com lágrimas.

Me trouxe, pouco a pouco, a cada página, uma sensação de paz depois de muito tempo.

Algo que não sei explicar, mas como um passe que foi aos poucos me dando algo que precisava. Algo que perdi.

Já te agradeci por nos dar voz pelo livro da boate Kiss. Agora te agradeço por me dar esse sentimento que eu chamei de paz, mas também de me fazer olhar para esse outro mundo.

No final de cada jornada que nos leva a começar e a finalizar um livro, o que nos espera é o olhar do outro. Ao reencontrar Paulo e, mais uma vez, tocar as memórias afetivas dele, eu tive o privilégio de ouvir seus sentimentos e de deixar no mundo dele o que procuro ter sempre comigo: empatia.

Daniela Arbex trabalha há 22 anos como repórter especial do jornal Tribuna de Minas. Suas investigações resultaram em mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três Esso, o IPYS de melhor investigação da América Latina e o Knight International. Estreou na literatura com Holocausto brasileiro, obra eleita o melhor livro-reportagem pela Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2013 e segundo melhor livro-reportagem no Prêmio Jabuti (2014). Em 2016, a jornalista foi novamente agraciada com o Prêmio Jabuti por Cova 312. Recentemente, Holocausto brasileiro foi adaptado como documentário e lançado pela HBO em 40 países.

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