O conto de um canto

Por Pedro Gabriel

25 / agosto / 2020

Nesse período de isolamento social, me dei como meta separar a p/arte da manhã para leitura ou estudos voltados diretamente aos assuntos que me são amáveis: música, poemas e qualquer manifestação estético-visual.

Esses dias, reencontrei Machado de Assis e seus contos clássicos — O alienista, O espelho, Singular ocorrência, Galeria póstuma, Fulano, A segunda vida, Trina e una, Uns braços, Um apólogo, Um homem célebre, Missa do galo… São apenas alguns dos tantos textos que atestam o quanto nosso bruxo do Cosme Velho é, de fato, um gigante. Na minha singela opinião, toda a grandeza do nosso maior escritor está contida no conto (ou seria canto?) Uma ideia de canário.

O cenário é um canário, uma loja e um senhor. Nada além. O homem de nome Macedo entra numa loja de bugigangas no centro da cidade. No meio daquelas tralhas todas, o único objeto com vida é uma ave que saltita dentro de sua gaiola. O pássaro dá as boas-vindas ao freguês. Atraído pela curiosidade, ele adentra. Papo vai, assobio vem; estranhamento dali; bizarrice de cá. E pronto! Estamos todos dentro do conto.

A partir daí, dá-se início a uma (ir)real sessão de análise, na qual: o canário é o psicanalista, o poleiro é o divã e Macedo, o paciente. Os assuntos mais profundos da existência pássarhumana são colocados, literalmente, em questão. Que coisa é o mundo? Pergunta Macedo ao aliado ser alado a seu lado. Este lhe responde:

Ora é “uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego”; outrora é “um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima”; por fim se trata de “um espaço infinito e azul, com o sol por cima”.

Basicamente, o que o canário, aliás, o dicio-canário nos ensina é que, conforme vivenciamos as coisas, nossa visão de mundo se expande: cada um tem seu universo para ressignificar. A nossa existência (insistência?) vai ganhando novas definições em função de onde estamos. O que antes se limitava à gaiola agora mal cabe no firmamento. Sem arte (ou sensibilidade ou imaginação), tudo é mais curto.

O canário-falante se torna o calvário do homem. No caso, do Macedo. Que, mais cedo ou mais tarde, também passa a se questionar. Que bom! Sinal de que está vivo. Sinal de que não está passivo perante os acontecimentos cotidianos, simplesmente esperando a vida passar. Viver não é esperar essa passagem. Isso é uma espécie de morte. Viver é passar pela vida com esperança. 

Esperança? Ainda temos?

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Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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