Eu nunca pensei em ser astronauta

Por Pedro Gabriel

4 / agosto / 2020

Eu nunca pensei em ser astronauta. Meu sonho mesmo era ver minhas palavras impressas em algum jornal, num domingo. Nada contra os outros dias da semana, mas acho que domingo é um dia que parece um livro. É um dia que merece ser mais lido. As tragédias ficam em stand-by. A gente acorda em slow motion. Toma o café tão devagar que ele chega quase a amornar em nossas mãos. No seu ritmo dominical, a torradeira despeja duas fatias de pão integral pela bancada de mármore. Se fosse segunda ou quinta de manhã, ela — essa mesma torradeira — cuspiria ferozmente migalhas e mais migalhas de água, farinha, sal, carboidrato e glúten pelo chão da cozinha. 

Talvez por tudo parecer menos afobado aos domingos, o mundo se torna um ambiente propício para se perder na leitura de uma simples crônica. Quantas vezes me desencontrei lendo Rubem Braga, o gigante do gênero! Por alguns momentos, eu queria ser Rubem Braga. Mas não para escrever feito ele — seria muita pretensão minha. Ser Rubem Braga, para mim, é um motivo para avançar na escrita. Ser Rubem Braga, para mim, é ter um ponto luminoso no final dos meus instantes mais turvos. Saber que nunca serei outro além de mim é o que me motiva a permanecer no meu caminho. As pessoas que a gente admira se tornam uma espécie de lua. Ainda que distantes, elas iluminam nossas incertezas… Nos dão coragem!

Sempre projetei meus medos numa tela invisível.  Como se a minha vida fosse um filme antigo feito apenas de gestos e silêncios. Como se o meu corpo fosse uma sala vazia à espera de aplausos ilusórios. Projetar demais é uma forma de se iludir. Só pensamos no futuro e passamos a esquecer o meio do percurso. Esse meio é a base para erguer todos os nossos sonhos. Sem foco, todo sonho é oco. Eu caí nessa ilusão. A queda quase me fez desistir, mas as pessoas que a gente admira se tornam uma espécie de lua… Lembra?

Eu continuo não pensando em ser astronauta. Esse negócio de escapar da Terra firme e partir rumo ao desconhecido nunca me encantou. Escrever é minha forma de sair do mundo.  

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Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

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Comentários

Uma resposta para “Eu nunca pensei em ser astronauta

  1. Maravilhoso e sensível. Me identifico pela construção do sonho, o embasamento que dá. É bem como me sinto.

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