Dois pés já não me bastam

Por Pedro Gabriel

12 / agosto / 2020

Não sei se os sapatos têm sentimentos, mas me dá dó só de vê-los enfileirados no hallzinho de entrada do meu apartamento. Confinado há quatro meses, me desacostumei a calçá-los. Pé direito, pé esquerdo… Perdi o hábito de caçá-los por aí, espalhados pelos quatro cantos desse espaço onde habito. Eles agora me são estranhos. Não os reconheço mais. Nem sei se ainda cabem em mim. 

Sinto que perdemos a intimidade daquele tempo não tão distante. Tempo bom dos longos passeios até a livraria Da Vila, em Moema. Ou, quando estávamos mais inspirados, estendíamos nossos passos até o Parque Ibirapuera — um dos pulmões que não deixa São Paulo sufocar de vez. Eu pisoteava com delicadeza o meu percurso. Evitava pedras portuguesas — pontiagudas — para não ferir a sola dos meus fiéis companheiros de caminhada. Eu procurava sempre o chão mais macio para que a sola não sentisse o peso que é andar rumo ao futuro incerto. Às vezes, não pensar no futuro é o que me consola.

Eu e eles formávamos um par. Ainda há pouco, eu sabia o melhor cadarço para cada um. Hoje, os pares andam meio frouxos, solitários. É até estranho chamá-los de par. Sapatos só ficam realmente juntos quando estão afastados dos pés. Quando calçados, se cruzam rapidamente entre um passo e outro, mas não se encostam. Mesmo seguindo na mesma direção, é cada um para o seu lado… 

Na maioria dos passeios, andávamos mudos pelo mundo. Eu, com as mãos ansiosas no bolso, sempre em busca da próxima música capaz de romper esse silêncio. Eles, meus calçados, sempre calados na boca de uma estrada qualquer à espera do meu próximo passo. Eles, que já me levaram para tantos lugares, hoje me são quase inúteis. Aqui dentro, a sapateira não passa de um estacionamento abandonado no hallzinho de entrada do meu apartamento no qual, vez ou outra, uma leve brisa de chulé visita as narinas mais sensíveis. Lá fora, tudo soa tão descartável. Parece que nós fizemos um nó com todos os nossos laços. 

O mundo virou uma imensa placa SEM SAÍDA. Por motivos de força maior, a expressão sair para passear perdeu alguns adeptos (e muitos sentidos). Quando isso tudo passar, prometo calçar todos os meus sapatos de uma só vez para recuperar a intimidade daquele tempo não tão distante. Dois pés já não me bastam. Talvez eu devesse inventar mais tentáculos e me tornar uma espécie de polvo. Já imaginou que espetáculo seria desfilar por aí por quatro meses ou mais sem voltar para casa?  

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

VER TODAS AS COLUNAS

Comentários

Uma resposta para “Dois pés já não me bastam

  1. Amei!
    Eu “andei“ pensando em comprar um par de sapatos, um chapéu ou guarda sol e sair por aí visitando a beleza escondida nos cantinhos de uma cidade, andei e sair … verbos também ansiosos para deixar os quatro cantos e sair por aí.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *