Pedro Gabriel

Tempo de acolher beija-flores!

Tempo de acolher beija-flores!

16 / junho / 2020

Michele adora a palavra acolhimento. Então, de certa forma, esta crônica é um pouco para ela. Na verdade, é toda sobre ela.

No dicionário, evidentemente, há significados mais objetivos do termo acolher. O Houaiss, o Aurélio ou o Michaelis têm sua notória importância e seus conteúdos devem ser respeitados. Viva a língua portuguesa! Mas os nossos olhos têm a capacidade de encontrar definições que só existem retidas na fronteira das nossas pálpebras. Palavras, estas, impossíveis de exprimir. A rotina sufocante não consegue apagar a poesia que nasce a todo instante escondida em nossas retinas. Por isso, é fundamental depositar o olhar sobre o mundo e sentir seu silencioso e indecifrável vocabulário. Os olhos não precisam de boca para traduzir o que sentem. Nem tudo precisa ser dito. Entendido? 

A varanda do nosso apartamento paulistano talvez seja o melhor lugar para encontrar o sentido de acolhimento. Do pequeno balcão no coração de Moema, onde mal cabem dois bípedes, Michele operou um verdadeiro milagre. Santa Michele Expansionista dos Locais Intransponíveis! Transformou dois metros quadrados em uma pequena floresta urbana (urban jungle que fala, né?). Com direito a: orquídeas, rosas, avencas, pérolas, trevos, antúrios, jiboias – a planta, não a serpente (é sempre bom precisar) –, além de um conjunto esverdeado de gêneros, famílias e espécies botânicas do qual minha ignorância ecológica é incapaz de nomear. Enfim, moramos num refúgio tropical, abençoado por Mi e bonito por natureza. Mas que beleza! Salve, salve essa selva contemporânea! 

Confesso que senti falta de uma árvore. Uma bananeira, que seja. Mas o timbre beatificado de Michele logo me convenceu de que tal milagre seria impossível realizar. Afinal, junto com o tronco viriam as raízes e, de mãos dadas com elas, a infiltração, a reclamação do vizinho do sétimo andar, a indireta do síndico no aviso do elevador, o sobrepeso na sacada, o risco do desmoronamento, a notícia no jornal local… Milagre tem limite! Ela não disse isso. Milagre tem limite! Mas pode ter pensado. Milagre tem limite!

Desse mesmo espaço, é possível avistar a pista de pouso do aeroporto de Congonhas. Jardim ausente de flor, seco. Pétalas áreas sem previsão de chegar a qualquer destino. O cenário anda escasso de aviões. O motivo? Pandemia. Quarentena. Nessa altura do campeonato, você já deveria ter decorado o mantra: Lave as mãos com água e sabão por 20 segundos. Se puder, fique em casa. Use máscaras. Evite aglomerações. Congonhas agora é um gigante silenciado. Um triste contraste com o ambiente no qual me encontro projetado pela minha amada milagreira. Santa de casa faz milagre!

Já não sinto tanta falta das turbinas adormecidas nos hangares do outro lado do meu campo de visão. Aqui, quem desperta meu interesse é uma aeronave menorzinha, sem motor. Não menos potente. Uma ave de pequeno porte, frágil e ágil – arquitetadao para suportar o bico alongado num corpo que, quando muito, supera os 6 gramas. Minúsculos músculos se esforçam de forma sobre-humana para encarar a gravidade de modo único no mundo animal. 

Uma verdadeira engenhoca projetada para desafiar todas as leis da aerodinâmica. Ela tem essa capacidade única de congelar em movimento, de permanecer imóvel no ar, de pairar e continuar sua missão. De fazer inveja a Santos Dumont. Suas asas – duas hélices com rotação de quase 180° – batem velozmente em formato de oito, como se estivessem em busca do infinito: dois infinitos: um para cada asa.

Todas as manhãs, atraído pelo doce perfume do bebedouro florido, somos acolhidos por um oi no oitavo andar do nosso visitante beija-flor. Ele parece conhecer nossa rotina, pois sempre escolhe os mesmos horários para pincelar um cinza instante num azul cintilante.  Ou bem cedinho – por volta das 7h30 – ou logo após o almoço – depois das 14h. Nossa vista também se enche de açúcar. Nem sentimos falta de sobremesa.

As visitas não duram mais que breves microssegundos, mas é tempo suficiente para hipnotizar a eternidade. De modo que o para sempre parece caber na palma (calma?) da mão. E ter minúsculos músculos. E não pesar mais do que 6 gramas. E ser frágil. E ser ágil. E ter a liberdade de sumir e voltar a qualquer momento. E ter a capacidade de desafiar todas as leis da aerodinâmica para permanecer imóvel e em movimento. E pairar, assim, no ar, feito uma dúvida: vou embora ou fico um pouco mais?

Acolhimento é olhar para a Michele e enxergar essa possibilidade de infinito, todas as manhãs. 

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Comentários

3 Respostas para “Tempo de acolher beija-flores!

  1. Que lindo! Esperei desde a hora que acordei para ler. ❤️

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