Eu andei me esquecendo

Por Pedro Gabriel

3 / junho / 2020

Antes do mundo parar, eu já estava estagnado em mim há um bom tempo. Se é que podemos nomear de bom o estágio no qual nos encontramos perdidos. Bom tempo, tempo bom… Ah, essa expressão tão simpática e pueril! Uma espécie de propaganda permanente que obriga a humanidade a ser feliz em looping

Youpi! 

Ao ler qualquer anúncio de alegria, minha cabeça automaticamente visualiza: 

  • nuvens branquinhas, 
  • sol amarelão, 
  • passeio de bike
  • coleção de like 

e um imenso letreiro em neon escrito GRATIDÃO

Highlight! 

Como se não bastasse, ele pisca. 

(Hi, light!)

A #gratidão se acende e se apaga para lembrar aos olhos dessa gente ingrata de que é preciso agradecer por tudo a todo instante. Uhuuuu! Vejo também um campo verde, repleto de colibris e lírios e filhos. Ah! Que felicidade mais feliz! Eeeeba! 

(Bye bye, light!)

Sonhar é fundamental, eu sei, eu sei, eu sei… Mas fabular demais também pode ser alarmante. O sonho periga se tornar uma gruta na qual a gente se exila para gritar. E o nosso grito é abafado pela distância. Sempre estamos longe de nós mesmos. Lá fora, o real permanece inaudível.

Será que mascarar nossas marcas traz alívio? Esconder o incômodo não o torna um conforto. É preciso convidá-lo para o confronto. É necessário convocá-lo para esta batalha inadiável: você versus você. É indispensável insistir, insistir e insistir até que ele – o maldito incômodo – se torne um cômodo mais ou menos harmonioso nessa nossa morada interna. 

Lamento estragar seu otimismo, querida leitora, amado leitor. A realidade é um golpe pesado na cabeça dos sonhadores. Meteoro. Pedra gigante. Causadora de perdas imensas. Destrói projetos. Achata expectativas. Impõe trovões naquele bom tempo, tempo bom… eu sei, eu sei, eu sei….

Ah, esse silêncio, um dia, explo/dirá! 

Boom! 

Agora é preciso rastejar para além da gruta, para fora do grito, até se reencontrar numa outra saída. Sempre há outra saída. (Lembro agora de um verso específico da música “Tem alguém aí?”,  do Gabriel, o Pensador: “Pra quem sabe olhar pra trás nenhuma rua é sem saída.”)

Você me viu por aí? (no bar, na livraria, no chão). Não, né? Você me view por aí? (no face, no insta, no e-mail, no WhatsApp). No! Ouviu meus apelos digitais? Hein? Hein? Diz aí… Deu um like no meu lifestyle? Nas redes sociais, a gente parece só existir em inglês. Kkkkkkkk, oups, digo, lol! Sorry.

E digo mais: no espelho, aparece o seu real reflexo ou também há uma pedra que se assemelha ao que um dia você chamou pelo seu nome? Pedra; palavra parada. Pedro; poeta parado. 

(Mas)

Antes do mundo parar, eu já andava me esquecendo. Isolado: ilhado em mim. A meu lado? Alguém bem parecido comigo. Um ser inerte e tímido. 

Confesso, pouco me mexi para descobrir todos os significados do vocábulo inércia. Pedi à Wikipedia. Ela me mostrou alguns caminhos interessantes. 

resistência que a matéria oferece à aceleração imobilismo, estagnação, inaptidão, incapacidadeestado de abatimento caracterizado pela ausência de reação, pela falta de energia física ou moral; apatia, indolência, prostração

Talvez a definição mais poética esteja na química; ela diz: 

A inércia é uma propriedade que possui uma substância de não reagir em contato com outra.

Achei tão bonito. De ler, não de sentir. Se eu não reajo ao que penso (ou ao que o outro pensa), como posso existir? Respiro, certo. Mas existo? 

Repito: 

Respiro, certo, mas existo?

É tempo de se movimentar, e essas palavras são o meu primeiro passo.

Tags , , .

Pedro Gabriel nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio Segundo – Eu me chamo Antônio e Ilustre Poesia.

VER TODAS AS COLUNAS

Comentários

3 Respostas para “Eu andei me esquecendo

  1. Você é incrível. Já é difícil expor em palavras nossos sentimos, mas você, talentosamente se expressa de uma maneira que também reflete os sentimentos inexpressíveis (se é que posso chamá-los assim) de inúmeras pessoas. Adoro acompanhar seu trabalho e te tenho como uma referência.

  2. Oi, Jaqueline! Fico muito feliz com seu comentário. É muito importante (pra quem escreve) receber esse retorno dos leitores, das leitoras. Esses textos novos estão retratando bem o meu momento recente, esse estado de inércia que eu me encontrava… Enfim, como disse, essas palavras são o meu primeiro passo. Quero ter ver/ler mais vezes nessa caminhada!

  3. Poxa, me identifiquei com as palavras… imaginei uma animação com esse texto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *